O jogo de caça no parque

Capítulo 1定位与暗号

Andarilho · 1543 palavras · Português

【Ela · A presa】

Essa conta secundária é a coisa que eu guardo mais fundo, foto de perfil em branco, apelido uma sequência de letras sem sentido, lista de seguidos limpa como se fosse recém-saída de fábrica. Eu a uso para fazer aquelas coisas que a mim de dia jamais admitiria. Hoje publiquei nela uma postagem: uma captura de tela do mapa do parque, o ponto vermelho fixado embaixo daquela fileira de canforeiras no portão oeste, com uma legenda de apenas algumas linhas — «A presa está a postos. Vestido preto de manga bufante com decote quadrado, de tecido amassado, com uma alcinha fina por baixo; no pescoço uma corrente de prata, com um pingente de coração preto; meia sete-oitavos preta, pernas bem brancas.»

【Ela · A presa】

Fiquei encarando a caixa de texto, a ponta dos dedos pairando sobre ela por muito tempo. Aquela última frase eu hesitei três vezes antes de digitar: «Me encontre, e poderá brincar comigo à vontade por um dia inteiro.» No instante em que enviei, meu coração batia tão forte que doía nas costelas, quase quis desfazer na hora, mas não desfiz. Deixei o celular virado para baixo no joelho, ergui a cabeça e olhei o céu de verdade — nublado, o vento fazia as folhas das canforeiras farfalharem, o parque cheio de gente comum passeando com cães, correndo, empurrando carrinhos de bebê. Ninguém sabia que aquela mulher recatada sentada no banco tinha acabado de se pendurar numa lista de caça.

【Ela · A presa】

Isso é só um jogo. Repetia isso para mim mesma sem parar. Aquele tipo de jogo que excita nas palavras, mas que na realidade nunca acontece de verdade. Alguns IDs desconhecidos vão gritar nos comentários «estou a caminho», «ande trinta passos para o leste», eu respondo umas duas frases pra acompanhar, o coração acelera, e depois anoitece e cada um volta pra casa, ninguém toca em ninguém. Uma transgressão segura, separada por uma camada de tela. É essa camada de tela que eu gosto. Ela me permite ser, de um lado, aquela adulta decente e organizada, e de outro, soltar às escondidas a versão mais indecente de mim para dar uma volta.

【Ele · O homem cruel】

Essa postagem é a sétima parecida que apareceu pra mim hoje. As outras eram todas nove fotos em grade, um monte de emojis, obviamente querendo tráfego, querendo mensagem privada, querendo transferência. Só essa era diferente — ela deu localização de verdade, deu a roupa de verdade, detalhada até a alcinha e a meia preta. Ela acha que está brincando. Eu percebi de cara: ela não sabe com que tipo de gente está brincando. Ampliei o mapa, reconheci aquela fileira de canforeiras, me levantei e peguei o casaco. Vinte minutos de carro. Ela disse que quem a encontrar pode brincar com ela à vontade por um dia inteiro, então hoje eu não faço mais nada.

【Ela · A presa】

Os comentários vieram, como esperado. Alguns IDs desconhecidos, engraçadinhos e untuosos, eu respondia os escolhidos. Um ID não digitou nada, só me mandou aquela captura do mapa que eu tinha postado, e ao lado do ponto vermelho havia uma seta a mais, apontando na direção do banco. Meu coração deu um baque — como ele sabe que estou sentada no banco? Ergui a cabeça e olhei em volta, a mulher passeando com o cão, o rapaz correndo, um casal de idosos. Nenhum deles estava me olhando. Disse a mim mesma que era coincidência, que a seta apontava para qualquer lugar. Mas toquei aquele coração preto no pescoço, e minha palma estava toda suada.

【Ele · O homem cruel】

Fiquei cinco minutos atrás do canteiro de flores a uns trinta metros dela. Manga bufante preta, decote quadrado, vestido de tecido amassado, por baixo dava pra ver vagamente o contorno da alcinha fina. Corrente de prata, pingente de coração preto, balançando conforme ela abaixava a cabeça para olhar o celular. A meia preta ia até um pouco acima do joelho, as pernas eram realmente brancas. Idêntico ao que ela escreveu. Ela se descreveu com tanta precisão porque quer ser encontrada. Ela só ainda não pensou direito no que acontece depois de ser encontrada. Digitei uma linha e enviei: «Pare de erguer a cabeça procurando, você está atrás do segundo poste de luz à sua esquerda. A senha — aquela frase que você mesma escreveu, diga em voz alta.»

【Ela · A presa】

Meus dedos travaram na tela. O poste de luz que ele disse estava mesmo no segundo à minha esquerda. Não ousei virar a cabeça, mas pelo canto do olho conseguia entrever uma sombra negra e alta parada atrás daquele poste. O vento levantou uma ponta da barra do meu vestido, e por instinto eu a segurei. Dizer em voz alta. Dizer qual frase? Claro que eu sabia qual era. Era aquela que hesitei três vezes antes de ousar digitar — me encontre, e poderá brincar comigo à vontade por um dia inteiro. Isso é só um jogo, disse de novo a mim mesma. Mas dessa vez, essa frase entalou na minha garganta, porque pela primeira vez percebi que essa camada de proteção da tela talvez deixasse de existir hoje mesmo.

【Ela · A presa】

«Você não vai vir de verdade, vai.» Enviei. Ele respondeu bem rápido, só três palavras: «Já vim.» Vi aquela sombra negra sair de trás do poste de luz, na minha direção. Não rápido, muito firme, aquela firmeza de quem sabe que a presa não pode fugir e por isso não precisa ter pressa. Eu deveria ter me levantado e ido embora. Deveria tê-lo bloqueado, desligado a conta secundária e voltado pra casa pra ser aquela mulher decente. Ensaiei na cabeça cada passo da fuga. Mas minhas pernas não se mexeram. Fiquei sentada no banco, olhando ele se aproximar passo a passo, o coração martelando de pânico, e entre minhas duas pernas apertadas uma parte, desobedientemente e em silêncio, começou a esquentar. Então «querer ser encontrada» era, no corpo, muito mais honesto do que nas palavras.

【Ele · O homem cruel】

Ela não fugiu. Isso já basta. Parei na frente do banco, minha altura a esmagando, minha sombra a cobrindo inteira. Ela ergueu o rosto, os olhos muito brilhantes, com medo e ao mesmo tempo recusando admitir o medo. Não me sentei, olhei-a de cima para baixo: «E a senha?» Os lábios dela se moveram, a voz baixinha como a de um mosquito: «...me encontre, e poderá brincar comigo à vontade por um dia inteiro.» Eu ri. «Lembre-se do que você mesma disse.» Estiquei a mão, apertei aquele coração preto da corrente de prata, e puxei de leve, a corrente cravando na pele da nuca dela. «Levante, venha comigo. Hoje você não pertence a você mesma.»