[Ela · Protagonista]
Quando Xu Qingyan ajeitava a gola diante daquele espelho de corpo inteiro no dormitório, quem estava de pé no reflexo ainda era aquela que todos conheciam — Xu Qingyan, do departamento de relações externas do grêmio, do curso de design. Com um metro e setenta e um, vestia uma blusa preta de gola alta com a frieza distante de um cabide, os traços tão refinados que beiravam o inacessível, os cabelos negros presos sem um fio fora do lugar. As veteranas diziam que ela era como uma daquelas peças trancadas de um museu de arte, do tipo perto do qual nem através do vidro se ousava falar alto. Ela estava acostumada a esse julgamento, e também o apreciava. Altiva, elegante, com um ar de distância — essas três palavras a envolviam como três camadas de seda, mantendo-a a salvo.
[Ela · Protagonista]
Só que ninguém sabia que essa peça de exposição havia passado seis horas inteiras em pé dentro do prédio de aulas naquele dia. Ela preferia meias-calças com botas longas; aquele par de botas pretas de couro, até os joelhos, deixava as pernas retas e compridas, era a segurança com que ela entrava em qualquer ambiente sem perder. Mas botas de couro não respiram, e a meia-calça se colava justa; depois de um dia inteiro de avaliações de projeto, correndo entre locais e jantando com os parceiros das relações externas, ela conseguia sentir com nitidez aquela umidade grudenta sob as solas, os vãos entre os dedos tomados por um dia inteiro de suor abafado. No último trecho da volta ao dormitório, cada passo trazia um desconforto secreto, a sensação de ser traída pelo próprio corpo — por fora, pernas longas e firmes, mas dentro dos canos das botas, um par de pés que passara o dia inteiro abafado e começava a azedar.
[Ela · Protagonista]
Ela trancou a porta, passou o ferrolho e ainda girou a maçaneta duas vezes para conferir. Era um hábito adquirido no primeiro semestre morando sozinha. Depois sentou-se na beira da cama, puxou o zíper do cano da bota e tirou o pé esquerdo de dentro do couro. Naquele instante, um bafo abafado e de leve azedume subiu pela boca da bota, misturado ao cheiro peculiar das fibras da meia-calça encharcadas de suor. Ela deveria ter franzido o cenho — a altiva herdeira Xu Qingyan deveria, com repulsa, jogar as meias no cesto de roupa suja, borrifar um perfume e não pensar mais em nada. Mas não o fez. Seus movimentos pararam. Aquele resquício de cheiro na cavidade do nariz era como uma agulha fina, cutucando de leve um ponto perto do coração que jamais havia sido tocado.
[Ela · Protagonista]
Sentada sob a luz amarelada e fraca do abajur, ela olhava para o pé que acabara de libertar, o peito e os dedos ainda marcados pelos vincos avermelhados e tênues deixados pela meia-calça, a pele reluzindo com uma fina película de suor de um dia inteiro selado. Como que possuída, ergueu aquela perna, dobrou o joelho e a trouxe contra o peito — seu corpo era flexível, e o gesto não lhe custou esforço algum — e então levou o peito do pé, azedo de cheiro, aos poucos, para junto da ponta do próprio nariz. O gesto em si já era absurdo o bastante para fazer arder a raiz de suas orelhas. Mas quando aquele cheiro, dela mesma, íntimo a ponto de ser quase vergonhoso, de fato deslizou para dentro de suas narinas, seu corpo inteiro foi como que levemente lambido por uma corrente, um formigamento entorpecente correndo do cóccix até o couro cabeludo.
[Ela · Protagonista]
Vergonha. A primeira palavra que saltou à sua mente foi vergonha. A segunda palavra, aquela que ela não ousava admitir, era prazer. Essas duas palavras deveriam repelir-se, e no entanto, naquele momento, se misturavam num único mingau escaldante no baixo-ventre. Ela lembrou do que um parceiro dissera naquele dia — a senhorita Xu é mesmo serena e fria como uma pintura — lembrou de como as calouras erguiam o rosto e a chamavam de Veterana Qingyan com aquele olhar de adoração. E naquele exato instante, aquela pintura abraçava o próprio pé, cheirando com avidez o próprio pé de meia-calça que passara um dia inteiro sem trocar, as bochechas ardendo a ponto de fritar um ovo. Aquela diferença, aquele contraste imenso de ser a estudante brilhante de pernas longas que todos punham num pedestal para admirar enquanto, às escondidas, fazia uma coisa dessas, a fazia estremecer mais do que o próprio cheiro.
[Mestre · Treinador Online]
Mais tarde ele viria a saber muitas coisas sobre ela, mas tudo isso seria muito depois. O ele daquele instante ainda não a conhecia, era apenas o canto silencioso por trás de um ID naquele fórum — um homem acostumado a espreitar sua presa na calada da noite. Ele já vira gente demais que se embrulhava como se fosse perfeita; quanto mais impecável a superfície, mais fundo e doce era o rachadura depois de trancada a porta. Ele não tinha pressa. Sabia que o verdadeiro contraste nunca era algo que outros lhe entregavam — era algo que ela mesma destrancava, com as próprias mãos, em alguma noite funda em que, abraçando um pé azedo, cheirou a si mesma pela primeira vez.
[Ela · Protagonista]
Naquela noite ela não dormiu bem. Virava-se de um lado para o outro, e alguma parte de seu corpo carregava um calor que se recusava a apagar. Ela tentou explicar com a razão: talvez estivesse apenas cansada demais, talvez fosse só um curto-circuito momentâneo dos nervos. Mas na manhã seguinte, quando se pôs diante do guarda-roupa e, por hábito, foi pegar um par de meias limpas, sua mão parou. Como que possuída, puxou de volta para os pés aquela meia-calça de ontem — usada um dia inteiro, ainda com o cheiro. No instante em que a meia-calça fria tocou sua pele, aquele bafo familiar e íntimo voltou, e seu baixo-ventre se contraiu, os dedos tremendo. Ela disse a si mesma que aquela era a última vez. Claro que sabia ser uma mentira.
[Ela · Protagonista]
Nos dias que se seguiram, ela começou, ora de propósito, ora não, a fabricar o contraste. De propósito, usava em dias de chuva aquelas botas longas menos arejadas e não as tirava o dia inteiro; adiava a troca das roupas íntimas por um ou dois dias além do normal e então, ao despi-las na calada da noite, as levava à ponta do nariz. De dia, ela continuava sendo a Xu Qingyan de costas eretas, respostas comedidas, elegante até no modo de beber água; só ela mesma sabia que aquele corpo que todos tratavam como peça de museu ia se tornando, dia após dia, um recipiente que nem ela reconhecia — guardando por dentro um monstro cada vez mais viciado no próprio cheiro, um monstro ao mesmo tempo envergonhado e excitado. Pela primeira vez ela sentiu que o que aquelas três camadas de seda escondiam não era segurança, mas uma represa que podia romper a qualquer instante.
[Ela · Protagonista]
No dia em que a represa rompeu, ela estava sentada à escrivaninha, um rascunho de design inacabado à sua frente, o cheiro do próprio pé de meia-calça rondando a ponta do nariz, os dedos rastejando sem controle rumo à barra da saia. Ela mordia o lábio inferior, obrigando-se a não fazer nenhum som — mesmo não havendo mais ninguém no quarto, aquela autocontenção do não posso ser ouvida se tornava, por si só, um novo combustível. Ela percebeu que sozinha já não conseguia mais alimentar aquele monstro. Precisava de alguém — alguém capaz de enxergar através desse contraste dela e que, em vez de sentir repulsa, a empurrasse para ainda mais fundo. Naquela mesma noite, ela se cadastrou naquele fórum com um ID que ninguém poderia reconhecer e, na caixa de busca, digitou duas palavras que faziam seu rosto corar e o coração disparar.