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A Última Cláusula

Uma advogada contratualista disciplinada descobre que a cláusula final do acordo de noivado de um herdeiro bilionário foi escrita só para ela — e que certas promessas só se negociam pele contra pele.

Publicado 2026-08-03 · 10 min de leitura

Mara passara a carreira tornando suportáveis as promessas alheias. Nunca esperou que uma única assinatura fizesse dela a exceção.

Romance com bilionárioSuspense jurídicoProximidade forçada

01

O acordo

Mara Voss sabia reconhecer uma promessa ruim antes que a tinta secasse. Era por isso que o conselho ligava para ela à meia-noite, por isso que as famílias mais ricas da cidade lhe confiavam seus desastres silenciosos e por isso que ela ignorou a champanhe suando ao lado do contrato de noivado de vinte páginas sobre sua mesa. Champanhe significava que alguém a queria dócil. Ela preferia ter razão.

O cliente chegou depois que os outros advogados foram embora. Elias Vale preencheu o vão da porta do mesmo jeito que preenchia manchetes — sem pressa, caro, vagamente divertido — e a última década desabou em nada. As salas de estudo da faculdade de direito. A boca dele a um dedo da dela sobre um resumo de responsabilidade civil. A noite que nenhum dos dois voltou a mencionar.

— Você leu. — Não era pergunta. Ele ocupou a cadeira em frente à mesa dela e desabotoou o paletó como um homem se acomodando para uma guerra que pretendia apreciar.

— Sua família quer você noivo de Celeste Marchand até o fim do trimestre — disse Mara. — Os termos são brutais, mas limpos. Só que alguém enfiou uma frase na cláusula final, e não foram os advogados do seu pai que a escreveram. — Ela girou o contrato e o deslizou pela mesa, um dedo cravado na página dezenove. — Quero saber por que está com a sua letra.

02

A linha vermelha

A cláusula dizia: Se o noivado fracassar, o contratante não imporá restrição alguma ao futuro, à liberdade ou ao coração da consultora. Um absurdo jurídico. Um poema de terno. E a taquigrafia serpenteando sob as palavras era o código particular que os dois tinham inventado aos vinte e três anos, quando a ambição ainda não lhes ensinara a virar estranhos.

— Você notou — disse Elias, baixinho. — Eu me perguntava se notaria.

— Eu noto tudo. É faturável. — Ela manteve a voz neutra, o que lhe custou caro. — Você está me pedindo para redigir o seu noivado com outra mulher, e me escreveu na porta de saída.

Ele se inclinou para a frente, os cotovelos na mesa dela, perto o bastante para que ela sentisse o cheiro de cedro e o calor da pele dele. — O noivado é uma fusão, Mara. Celeste tem o próprio arranjo e os próprios motivos. Meu pai ganha a aliança, o conselho ganha estabilidade, e em dezoito meses tudo se dissolve por projeto. Cada parte da minha vida é negociada. — Os olhos dele não deixaram os dela. — Eu queria uma única cláusula que dissesse a verdade.

03

Horas faturáveis

Trabalharam até as duas da manhã, e quase bastou para fingir que aquilo era rotina. Mara marcava páginas; Elias respondia; a cidade cintilava, indiferente, lá embaixo. Mas cada troca de papéis virava um acidente de dedos, e quando ela se esticou por cima dele para alcançar as páginas de assinatura, o ar entre os dois já estava espesso e lento como mel.

— Diga que é para manter o profissionalismo — falou ele, muito baixo — e eu mantenho.

Mara olhou para ele — o cansaço por baixo do verniz, o homem que escrevera a liberdade dela num contrato sobre outra pessoa — e pousou a caneta. — Eu cobro em frações de seis minutos — disse. — Pare de desperdiçá-las.

Ele a beijou do jeito que negociava: paciente, minucioso, implacável no instante exato em que ela cedeu. O blazer dela caiu no chão junto com o bom senso. Ele a ergueu para cima da mesa, espalhando os anexos, e não teve pressa com a blusa — um botão, um beijo no maxilar; dois, um beijo na garganta; três, um palavrão baixo dela que o fez sorrir contra a sua pele. Ele deslizou a seda pelos ombros dela, abriu o fecho por baixo e envolveu os seios nus dela nas mãos como algo que lhe fora negado por dez anos, os polegares desenhando círculos até a cabeça dela tombar para trás e as luzes da cidade virarem borrão.

— Ainda está me cobrando? — murmurou ele, subindo a saia pelas coxas dela. — Hora extra — ela conseguiu dizer... e então a mão dele escorregou por baixo da renda e a acariciou, lenta e certeira, e a palavra se dissolveu num arquejo. Ele a aprendeu primeiro com os dedos, paciente como um homem lendo termos que pretendia honrar, curvando-os e provocando até deixá-la encharcada, trêmula, puxando o cinto dele sem resquício algum de compostura profissional.

Ela abriu a camisa dele; ele arrancou a renda dela; o acordo alterado amassou em algum lugar sob o quadril dela e nenhum dos dois se importou. Quando ele enfim a penetrou, os dois ficaram imóveis por uma longa respiração — dez anos se fechando como uma lacuna. Então ela travou as pernas em volta dele e se moveram juntos, lento e fundo até que a lentidão deixou de ser possível, a mesa batendo no caixilho da janela, a mão dele fechada no cabelo dela, as unhas dela riscando as costas dele, o nome dele se partindo na voz dela no escuro acima da cidade.

Ela gozou primeiro, arqueando-se sobre a mesa com um grito que negaria pela manhã; ele a seguiu um instante depois, derramando-se dentro dela com o nome dela baixo e desfeito contra o seu ouvido. Por um longo tempo ficaram enredados entre os anexos arruinados, o coração dele martelando contra o dela — e, por uma vez na sua vida cuidadosa, Mara Voss não leu as letras miúdas. Já conhecia os termos.

04

Uma promessa com dentes

O conselho descobriu a cláusula alterada na quinta-feira. Na sexta, alguém já ameaçava vazar a estrutura real do noivado, e o nome Vale estava a um ciclo de notícias de virar exemplo do que não fazer.

Mara entrou na sala do conselho sem ser convidada, pousou uma única folha sobre a mesa e falou sem rodeios. — Fiquem à vontade para vazar o acordo. Fui eu que o redigi. Cada cláusula é executável, cada divulgação está limpa, e a contra-ação já está escrita. Ao que vocês não sobrevivem — disse, encarando um a um cada assento — é ao que eu sei sobre como este documento chegou à imprensa. — A sala ficou muito quieta. Alavancagem costuma ter esse efeito.

Ela saiu antes que Elias pudesse agradecer. Gratidão não era o que ela queria dele, e já não estava disposta a fingir o contrário. As portas do elevador se fechavam quando a mão dele as deteve.

05

A última cláusula

Ele não disse nada de início. Entregou-lhe o acordo alterado, assinado em todas as páginas — e, abaixo das iniciais dela na última, uma linha nova naquela letra displicente e segura: Chega de cláusulas entre nós.

— A fusão foi cancelada — disse ele. — A família de Celeste aceitou o acordo. Meu pai está furioso, o conselho vai se recuperar, e eu, no momento, estou sem noiva, inviável como cliente e parado num elevador perguntando à minha advogada quanto ela cobraria para ser beijada de novo.

— Tenho um conflito de interesses — disse Mara. — Estou apaixonada pela parte contrária.

— Então declare-se impedida. — Ele a puxou para si, e aquele beijo não teve nada de negociação — sem estratégia, sem cláusulas de saída, só as mãos dele no cabelo dela e dez anos desperdiçados se encerrando como um processo arquivado. Em algum ponto entre o décimo nono andar e o saguão, Mara sorriu contra a boca dele. Pela primeira vez na carreira, uma promessa soou como o começo de uma escolha.

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