【Ela · A Beldade do Campus】
Gu Wanqing estava acostumada a ser observada.
Desde o primeiro dia do primeiro ano de faculdade, ela já se acostumara. Ao virar-se no fim de um corredor, sempre havia alguns olhares grudados em suas costas; ao procurar um lugar no refeitório com a bandeja na mão, os rapazes da mesa vizinha de repente baixavam o volume; até na biblioteca, separados por duas fileiras de estantes, havia quem fingisse procurar um livro, quando na verdade contava quantas páginas ela virava. Aos vinte e dois anos, recém-formada, aquelas duas palavras, «a beldade do campus», pelas quais fora chamada por quatro anos, eram como um casaco que ela nunca vestira por vontade própria, mas do qual também não conseguia se livrar.
A vantagem do casaco é isolar do frio; a desvantagem também é isolar do frio. Ninguém ousava se aproximar de verdade. Os rapazes que lhe entregavam chá com leite, que pediam o WeChat, que enchiam um corredor inteiro de balões no aniversário dela vieram em levas e mais levas, todos parando à distância de um braço dela, repelidos por aquele toque de distanciamento no olhar dela. Diziam que ela era arrogante e fria. Ela não se defendia. Apenas, desde muito pequena, aprendera a esconder o coração sob uma camada fina de frieza; os outros não conseguiam enxergar através, e assim ela ficava segura.
A única exceção era Shen Zhiyan.
【Ele · O Melhor Amigo】
Shen Zhiyan conhecia Gu Wanqing havia seis anos.
Seis anos atrás, num outono de transferência de escola, ele era aquele rapaz que sentava atrás dela e apanhava para ela as provas levadas pelo vento. Naquela época ela ainda não era chamada de beldade do campus, era só uma garota de olhos muito límpidos e poucas palavras. Ele lembrava de ter estendido a prova, ela erguera os olhos para ele e dissera obrigada, com uma voz muito baixinha. Só aquele olhar, e algum lugar dentro dele fez «clique» e se trancou, e por seis anos nunca mais se abriu.
Ele sabia muito bem o lugar que ocupava no mundo dela — «melhor amigo». Foi ela mesma quem lhe conferiu essas palavras, num tom óbvio, como quem afirma algo perfeitamente natural. Ela podia reclamar diante dele, ficar sem maquiagem, enroscar as pernas no sofá comendo batatas fritas, podia adormecer no ombro dele sem nenhuma defesa, porque, na classificação dela, ele pertencia ao tipo «seguro». Tão seguro que ela nunca se protegia.
E ele carregava essa «segurança» como uma tortura crônica, suportando-a havia seis anos.
【Ela · A Beldade do Campus】
Neste verão, os pais foram para o exterior a trabalho, e ficariam fora meio mês inteiro. O amplo apartamento de repente ficou só com ela, tão vazio que até o som dos passos ecoava. Ela mandou uma mensagem para Shen Zhiyan, dizendo que estava sozinha em casa, que à noite ficava um pouco com medo, e pedindo que ele viesse fazer companhia por uns dias.
Ela mandou com toda naturalidade. Porque era ele, afinal. Era aquele Shen Zhiyan que a defendera de inúmeras cantadas, que passara a noite em claro ajudando com o projeto de conclusão, que ela tratava como meio irmão. Ela nem sequer imaginou o peso que essa mensagem teria aos olhos de um homem que a amava em segredo havia seis anos.
【Ele · O Melhor Amigo】
Ele ficou muito tempo encarando aquela mensagem.
«Estou sozinha em casa.» «Vem ficar comigo por uns dias.» — ela dizia com tamanha franqueza, uma franqueza quase cruel. Ela abria a porta de par em par para ele, apenas porque tinha certeza de que ele jamais faria nada. Essa certeza era como uma agulha, cravada bem no ponto que ele reprimira por seis anos.
Ele respondeu uma única palavra: tá.
Depois ficou meia hora sentado no próprio quarto, antes de se levantar e arrumar as roupas para a troca.
【Ela · A Beldade do Campus】
No dia em que ele chegou, chovia. Ela abriu a porta e o viu parado ali, com um pedacinho do ombro molhado pela chuva, segurando na mão aquele mango sago da loja de que ela gostava. Um calor lhe brotou no peito; ela se afastou de lado para deixá-lo entrar e disse, sem pensar, Shen Zhiyan, você é tão bom mesmo.
Ele deu um sorriso, e naquele sorriso havia algo que ela não conseguia decifrar, que num piscar sumiu. Ela não deu atenção. Estava acostumada demais à bondade dele, acostumada a ponto de tratar essa bondade como o ar, sem nunca questionar por que o ar existia.
Aqueles dias foram como todos os outros em que ficavam a sós. Ele cozinhava, ela lavava a louça; ele consertava o computador dela que travava havia tempos, ela se aninhava ao lado assistindo a séries; à noite cada um dormia em seu quarto, separados por um corredor. Tudo tão tranquilo quanto um poço de água parada.
Só que houve alguns instantes em que ela vagamente sentia que algo não batia.
Por exemplo, quando ela saía do banho envolta apenas numa camisola folgada, o cabelo ainda pingando, ele de repente desviava o olhar e o pomo de adão subia e descia uma vez. Por exemplo, quando ela se aproximava para ver o celular dele e o ombro sem querer encostava no dele, o corpo inteiro dele enrijecia por um instante. Por exemplo, numa certa noite em que ela se levantou para beber água, viu que a luz do quarto dele ainda estava acesa, e aquela faixa de luz sob a fresta da porta demorou muito, muito tempo para se apagar.
Ela atribuiu tudo isso a ilusões suas. Porque era Shen Zhiyan, afinal. Ela até ria de si mesma por dentro: o que estou pensando, ele é seguro.
【Ele · O Melhor Amigo】
Ele não teve um único instante de segurança.
Cada momento em que ela ficava totalmente indefesa era uma faca cega. Ela saía do banheiro envolta na camisola, o vapor ainda grudado nas clavículas, aquele tecido tão fino que quase se via que não havia nada por baixo, e ainda assim ela ficava rebolando diante dele sem se dar conta de nada. Ela se aproximava para ver o celular, os fios do cabelo roçando o dorso da mão dele, o cheiro do sabonete misturado ao dela própria, limpo e de matar. Ela adormecia assistindo à série no sofá, a cabeça pendendo para o ombro dele, a respiração morna batendo no pescoço dele.
Por seis anos ele não tocara nela nem com um dedo. Nesses seis anos teve dois namoros que acabaram sem nada, e ambas tinham um par de olhos parecidos com os dela. Ele achava que poderia continuar suportando assim para sempre, suportar até ela se casar, até o convidarem para ser o padrinho e, sorrindo, entregar ela nas mãos de outro homem.
Até este verão em que só restaram os dois.
【Ela · A Beldade do Campus】
No sétimo dia, era uma tarde particularmente abafada.
O ar-condicionado quebrou. O técnico disse que só poderia vir de tarde. O apartamento inteiro parecia uma panela de vapor, e ela, morrendo de calor, vestia apenas um fino vestido de alças para ficar em casa, sentada no sofá abanando-se de vez em quando. Ele saiu da cozinha com dois copos de bebida gelada e sentou-se ao lado dela.
Ele estava um pouco estranho hoje. Falava pouco, o olhar meio à deriva, as pontas dos dedos inconscientemente esfregando as gotas de água na parede do copo. Ela lhe lançou um olhar de «o que houve com você», e ele balançou a cabeça dizendo que não era nada.
A luz do sol atravessava a cortina meio fechada, recortando no assoalho uma linha nítida e reluzente. A sala estava tão silenciosa que só restavam o zumbido inconformado da unidade externa do ar-condicionado e a respiração dos dois, cada vez mais rasa, cada vez mais descompassada.
Ela ainda não sabia, naquele momento, que aquela distância de um braço, que por seis anos ela tratara como uma linha de segurança, estava, nesta tarde abafada, sendo atravessada, centímetro a centímetro, por alguém.