【Qiao Tang · Esposa】
Tenho um perfil secundário no Qingke. O nome é “Colchonete 7”. Em um ano postei mais de duzentas fotos, e em nenhuma aparece meu rosto.
O espelho do vestiário do estúdio de pilates. Calça de yoga, top esportivo, de lado, de costas, uma perna erguida apoiada na barra. Dou aula no estúdio há quatro anos, e este corpo eu construí aula por aula: cintura fina, bunda empinada, pernas retas, nem um grama de gordura na parte de dentro das coxas. Um corpo trabalhado assim merece ser olhado. Em casa, ninguém olha.
A que mais bombou foi tirada no inverno passado: eu de joelhos no reformer, fazendo a postura do gato, costas afundadas, bunda empinada, a legging cinza tão apertada que marcava um rego bem no meio. Tinha mais de quatrocentos comentários embaixo. Metade dizia “que cintura”, a outra metade eram coisas que eu teria vergonha de ler em voz alta. Li todos, um por um, e li com as coxas bem apertadas.
Zhou Xiao não olha. Não é que ele não me ame. Ele está cansado. Trabalha como despachante num centro de logística, sai às sete da manhã, chega às nove da noite; depois do jantar se joga no sofá, rola vídeos curtos por dez minutos e os olhos fecham. Eu saio do banho com uma camisola de alcinha novinha e passo duas vezes na frente dele, ele levanta a cabeça, diz “bonita” e volta a baixar os olhos.
Às vezes eu mesma subo em cima dele, e ele faz carinho na minha cabeça: “Hoje não dá mesmo, amor. Amanhã.”
Então eu resolvo sozinha. Enquanto ele ronca, viro de lado, de costas para ele, e enfio a mão no short do pijama, pensando naqueles quatrocentos comentários, pensando até ficar molhada, mordendo a ponta do travesseiro quando gozo. Ele nem acorda.
Amanhã, e depois amanhã, e depois amanhã.
【A-Shu · Amigo virtual】
Eu seguia a “Colchonete 7” havia oito meses.
As fotos dela não eram como as das outras. Nada de pose de influencer, só cliques rápidos na sala de treino, com marca de dedo ainda no espelho. Mas eram justamente esses cliques rápidos, aquela curva da cintura descendo até a bunda, que me tiravam o sono.
A primeira vez que mandei DM foi à uma da manhã. Mandei: “Cunhada, que corpo. Tô apaixonado.” Assim que enviei, me arrependi. Me senti um tarado.
Ela respondeu no dia seguinte, ao meio-dia, com uma palavra só: “Ha.”
Depois a gente passou a conversar cada vez mais. Ela ria muito, toda frase vinha com três “hahaha” no fim. Contou que era casada havia cinco anos, que o marido era um cara bom, só preguiçoso na cama. Eu disse que era um desperdício. Ela disse: nem me fala.
Uma vez ela me mandou uma que nunca postou no perfil: o espelho do banheiro todo embaçado, uma parte limpa com a mão, e ali só o peito e a barriga dela, gotas de água penduradas nos mamilos. Ela disse: “Essa é só pra você.” Naquela noite não dormi. Bati três punhetas olhando aquela foto.
Eu chamava ela de cunhada e o marido dela de mano. Ela disse: você pegou rapidinho, hein.
【Zhou Xiao · Marido】
Naquela noite, pouco depois das dez, saí do banheiro e vi Qiao Tang sentada de pernas cruzadas na cama, abraçada ao celular, rindo, os ombros tremendo.
“Tá rindo do quê?”
“Nada.” Ela enfiou o celular embaixo do travesseiro.
Cinco anos de casados, e ela nunca tinha escondido o celular. Meu estômago afundou. Estiquei a mão e puxei o aparelho. Ela não me impediu. Só ficou me olhando, com o canto da boca ainda erguido.
Na tela estava uma conversa de DM. Do outro lado, “A-Shu”, e a mensagem do topo era dele: “Uma esposa com esse corpo, ele deve te comer todo dia, testar todas as posições.”
Embaixo, a resposta dela: “Às vezes eu deixo ele me comer e ele nem assim me come.”
E mais embaixo: “Você deve ter secado ele.” “Se ele não come, deixa que eu como.” “Hahaha.”
Meu rosto pegou fogo, tão quente que meus ouvidos zumbiam. Eu devia ficar bravo. Fiquei encarando a linha “Se ele não come, deixa que eu como”, e lá embaixo fui endurecendo aos pouquinhos, até a calça do pijama armar uma barraca.
Rolei para cima. Tinha muito mais. Ele elogiava as pernas dela, a cintura, dizia que queria abraçá-la por trás, que queria beijar os pés dela enquanto metia nela. Tudo o que ela respondia era hahaha, fileiras e fileiras de hahaha. Mas ela não tinha bloqueado ele. Não tinha apagado uma única mensagem.
Qiao Tang viu. Não disse nada, esticou o pé e cutucou com a ponta dos dedos a barraca na minha calça.
“Você ficou duro”, disse ela, os olhos apertados de tanto rir. “Faz quanto tempo que você não fica duro tão rápido?”
【Qiao Tang · Esposa】
Naquela noite ele se mexeu em cima de mim com uma força que eu não via desde o nosso primeiro ano de casados. Quando acabou, ficou deitado sobre as minhas costas, ofegando, e depois de muito tempo soltou: “Esse cara. É só conversa?”
“Só conversa. Ele mora em outra cidade. Nem sei a cara dele.”
“Ele quer… aquilo?”
“Vai sonhando.” Virei para olhar para ele. “Você quer que ele sonhe?”
Ele não respondeu. Enterrou o rosto no meu pescoço, e eu senti ele endurecendo de novo contra a minha perna.
A gente conversou muito naquela noite. Combinamos três regras. Primeira: A-Shu fica só dentro do celular. Nada de encontro, nada de chamada de vídeo, nada de rosto. Segunda: qualquer coisa que for mandada pra ele, os dois precisam concordar. Terceira: se um de nós se sentir desconfortável, é só falar e para. Apaga o perfil, bloqueia, e finge que nada aconteceu.
Zhou Xiao disse: “E ele sabe que eu sei?”
“Conto pra ele amanhã.”
No dia seguinte mandei para o A-Shu: “Meu marido viu nossa conversa.”
Ele demorou cinco minutos para responder. Deve ter se borrado de medo. “O mano… ficou bravo?”
“Não.” Digitei, sem conseguir parar de rir. “Ele ficou duro.”
【A-Shu · Amigo virtual】
Fiquei um tempão olhando para “Ele ficou duro”. Minhas mãos estavam encharcadas de suor.
Aí ela mandou mais uma: “Ele disse que, se você quiser ouvir, da próxima vez você pode.”
Perguntei: ouvir o quê?
Ela mandou um emoji de sorriso safado: “Ouvir sua cunhada sendo comida pelo seu mano.”
Isso foi numa terça. Sexta à noite, 23h07, chegou uma mensagem: “Meu marido foi tomar banho.”
Naqueles três dias não consegui fazer nada. No trabalho fiquei olhando para a tela, aéreo; em casa, tomei três banhos. Achei meus fones e deixei com a bateria cheia, com medo de ela estar brincando, e com medo de não estar.