Meu chefe é meu caso fixo

Capítulo 1第一章 · 会议室之后

Andarilho · 1915 palavras · Português

【Ela · Subordinada】

A reunião de avaliação de fim de trimestre se arrastou até quase nove da noite, e no andar inteiro só restava acesa aquela luz da sala de reunião. Projetei a última versão da planilha de orçamento na tela, a voz nem alta nem baixa, o ritmo travado exatamente naquele compasso que ele gostava — sem pressa, sem enrolação, cada número aterrissando com um eco. Ele estava sentado na ponta da mesa comprida, o dedo apoiado no queixo, escutando, soltando de vez em quando um “hum”. Esse “hum” eu venho escutando há três anos, e consigo distinguir umas dez nuances diferentes. O de hoje à noite era de satisfação.

Quando a reunião acabou, os colegas foram recolhendo suas coisas em pequenos grupos rumo aos elevadores, e alguém me perguntou se eu queria ir junto. Eu disse que ainda tinha uns detalhes para arrematar, podiam ir na frente. Falei isso com uma naturalidade tamanha que ninguém pensaria duas vezes — todos me viam apenas como aquela assistente que sempre saía por último, a mais confiável de todas. Fechei o notebook, com as pontas dos dedos meio frias. As portas de vidro foram se fechando uma a uma, os passos se dissolveram no elevador, e o andar inteiro finalmente ficou em silêncio, restando só o zumbido baixo do ar-condicionado e, no meu peito, aquela batida — e mais outra — descontrolada.

Ele não foi embora. Ele nunca vai embora nessas horas.

【Ele · Chefe】

Fiquei olhando ela despachar todo mundo. Ela faz isso sem deixar uma brecha sequer, o sorriso recolhido na medida exata, até aquele traço de cansaço na voz é calculado. Faz três anos que a vejo, dentro desta empresa, se afiar centímetro a centímetro até virar uma boa lâmina — cortante, precisa, sem erro. Todos elogiam quão madura e firme ela é. Só eu sei o que está comprimido embaixo dessa firmeza.

Só quando a luz indicadora do último elevador se apagou é que me levantei e caminhei devagar até ficar atrás dela. Ela ainda estava parada diante da tela, fingindo olhar os dados, mas os ombros já estavam tensos. Estendi a mão e recoloquei atrás da orelha uma mecha solta do cabelo dela, a polpa do dedo roçando a borda da orelha. Ela estremeceu por inteiro, mas não se afastou. Essa era a resposta que eu queria.

“A planilha ficou boa”, falei junto ao ouvido dela, a voz bem baixa. “Aquele olhar que você me lançou antes da reunião acabar — você sabe muito bem o que significava.”

【Ela · Subordinada】

No instante em que a mão dele me toca, aquela armadura toda do dia começa a cair. Na mesa de reunião eu consigo não ceder um palmo diante do cliente, consigo explicar o fluxo de caixa de um trimestre inteiro sem deixar uma brecha, consigo, quando ele e o diretor divergem, remendar a situação por ele sem mudar de expressão — mas basta um dedo dele pousar na minha nuca e eu viro outra pessoa. Uma pessoa que eu jamais admitiria, nem morta, diante dos colegas.

“Não significava nada”, teimei, mas a voz já amoleceu na metade. Ele soltou uma risada baixa, e aquela risada colada à raiz da minha orelha me deixou as pernas bambas de arrepio. Ele não teve pressa de fazer nada, apenas me encurralou entre a mesa de reunião e ele mesmo, sem deixar rota de fuga. Esse é o método de sempre dele — não faz nada com as mãos, primeiro me deixa sem chão sozinha, ali sobre aquela linha.

【Ele · Chefe】

Não gosto de forçar. Forçar não tem graça, eu quero que ela venha por conta própria. Recuei meio passo, voltei a me sentar na cadeira, cruzei as pernas e a olhei de cima para baixo: “Se não significava nada, você pode ir agora mesmo. A porta é ali.”

Ela não foi. Ela se virou, o rosto completamente corado, mas os olhos me encarando fixos, e toda aquela submissão úmida que jamais apareceria na sala de reunião veio à tona. Eu sei que, a partir deste instante, amanhã de manhã ela ainda será aquela assistente impecável, vai entrar na minha sala com o café, vai me ler a agenda item por item, e ninguém perceberá uma falha sequer. Só nós dois vamos saber o que aconteceu nesta sala de reunião ontem à noite.

【Ela · Subordinada】

Como essa relação começou, na verdade eu já não lembro exatamente daquela noite. Só lembro que foi depois de um jantar de confraternização em que bebi demais, ele me levou para casa e, dentro do carro, aquela linha foi pisada pela primeira vez, e depois nunca mais deu para recuar. Nunca conversamos sobre ficar juntos — ele é só uns anos mais velho que eu, é o gestor que caiu de paraquedas neste departamento, o futuro brilhando à frente, e eu sou apenas uma peça útil sob o comando dele. Falar de sentimento é pesado demais, pesado a ponto de esmagar as posições de cada um de nós.

Então, num acordo tácito, mantivemos isso como outra coisa: não perguntamos sobre pertencimento, não falamos do amanhã, só nessas madrugadas, nesses prédios comerciais esvaziados, cada um pega o que precisa do outro. Aos olhos dos colegas, nem uma amizade temos; ele é sempre estritamente profissional comigo, e eu sempre educada e cortês com ele. Mas quanto mais assim, mais excitante — de dia fingimos ser estranhos com um andar inteiro de gente entre nós, de noite conseguimos nos despir um ao outro até sobrar só o instinto. Esse contraste em si já me deixou viciada.

“Vem cá”, ele disse. Só isso.

E eu fui. O salto alto não fazia quase ruído no carpete, mas eu ouvia meu próprio coração batendo alto feito tambor. Só quando cheguei diante dele foi que percebi, tarde demais, que estava tremendo — não de medo, de outra coisa. Ele ergueu o rosto para me olhar, e no olhar dele havia a certeza de quem controla tudo, e também um pouco daquilo que eu nunca ousei examinar de perto, aquilo que era só meu. Hoje à noite não iria até o fim — ele sempre soube me deixar pendurada. Mas só de estar parada diante dele, sendo olhada assim, eu já começava a ficar úmida lá embaixo.

【Ele · Chefe】

Segurei o pulso dela e a puxei para frente, fazendo-a cair meio de banda no meu colo. Ela é miúda, magra, quase não pesa nada nos braços, mas é justamente esse corpinho pequeno que guarda aquilo que há três anos não consigo largar. Não tive pressa de tirar a roupa dela, só a deixei sentada nas minhas pernas e, por cima da calça social, fiz com que sentisse o formato do que já estava duro havia tempo.

Assim que ela se sentou, ficou rígida, a respiração perdendo o compasso. Eu sei que ela sentiu algo — o peso daquilo, o tamanho daquilo. Fosse a primeira vez ou a centésima, toda vez ela puxava o ar assim, num susto. Esse é o ponto em que ela jamais consegue manter a pose na sala de reunião, e também o ponto em que eu mais quero vê-la perder a pose. “Por hoje ficamos por aqui”, falei colado ao ouvido dela, deixando a frase de propósito bem clara. “Amanhã, você vem sozinha até a minha sala.”

【Ela · Subordinada】

E foi assim que ele me soltou. Me soltou para ir para casa, me soltou para rolar na cama a noite inteira, me soltou para, na manhã seguinte, me maquiar como sempre, amarrar o lenço de seda, entrar na sala com o café e o salto alto e dizer para ele “bom dia, esta é a agenda de hoje”. Ninguém perceberia que, entre as minhas pernas, ainda restava o vazio que a noite passada, depois de me provocar daquele jeito, deixou sem se acalmar por uma noite inteira.

Coloquei o café na mesa dele e me virei para sair. Ele folheava documentos sem levantar a cabeça, e só quando eu estava quase saindo, falou com displicência: “Fica à noite.” Quatro palavras, num tom igual ao de assunto de trabalho. De costas para ele, respondi “tudo bem” de forma tão leve e firme que até eu mesma me admirei. Mas só eu sabia que, dito isso, meu coração batia tão rápido que eu mal me sustentava de pé. Essa linha, íamos pisar de novo, juntos.