O Estranho Que Ele Arranjou Para Mim

Capítulo 1谈好的那场游戏

Andarilho · 3714 palavras · Português

【Su Yan - Esposa】

Antes de deixar aquela frase sair, ensaiei muitas vezes no escuro. Jiang Zhi dormia ao meu lado, a respiracao regular. Acabaramos de transar, aquele sexo familiar ao ponto de sufocar, que ambos conseguiriamos percorrer do inicio ao fim de olhos fechados, e que ao terminar parecia uma etapa fixa concluida toda semana. Eu olhava o teto de olhos abertos, e aquele pensamento voltava a subir dentro de mim: ja fazia mais de meio ano que eu o criava no corpo, e toda vez eu o empurrava para baixo. Naquela noite ele finalmente rompeu a casca da razao. Virei-me de lado, a voz muito baixa, quase colada ao ouvido dele: Jiang Zhi, eu quero ser possuida com violencia por um homem que nao conheco. Que seja... que seja diante de voce.

Depois de falar, o corpo inteiro me enrijeceu, a espera de que ele explodisse, de que soltasse um riso frio, de uma briga sem fim possivel. Tenho trinta e um anos, sou engenheira estrutural; passo os dias entre plantas e calculos de carga, correta ao extremo, a pessoa mais firme na boca dos colegas. Nunca imaginei que uma frase dessas sairia da minha boca. Mas nao conseguia me controlar: eu queria aquele descontrole, queria ser prensada, humilhada, tratada com brutalidade por um estranho sem sentimentos, que me visse apenas como uma presa; queria, diante da pessoa mais segura, viver a mais insegura das quedas. Esse desejo era vergonhoso a ponto de me esquentar o rosto, mas tao real que la embaixo eu de novo me molhei em silencio.

Nao e que eu nao soubesse o quanto isso destoava de mim. Os colegas diziam que a engenheira Su conferia tres vezes ate o espacamento de um estribo, e no entanto era justamente essa mulher amarrada a si mesma com tanta forca que criava, no fundo, uma fera faminta havia muito tempo. Ela nao come ternura; o que ela quer e aquele branco que estoura na cabeca e a esvazia por completo quando somos dominadas, comandadas, tratadas como um objeto. Quanto mais eu era comportada de dia, mais aquela fera arranhava meu peito de noite. Naquela noite eu finalmente admiti: nao conseguia mais esconde-la, e tambem nao queria mais esconder.

【Jiang Zhi - Marido】

Quando ela disse aquela frase, nao foi que meu coracao nao tenha falhado uma batida. Qualquer homem que ouve a mulher ao seu lado dizer que quer outro homem deveria, na primeira reacao, sentir raiva. Esperei aquela raiva subir, mas ela nao veio. Em seu lugar veio uma coisa que eu proprio nao ousava admitir, que queimou do coccix ate a nuca e me fez cerrar os punhos no escuro. Estou casado com Su Yan ha seis anos e sei bem que tipo de pessoa amarrada a si mesma ela e: meticulosa, buscando seguranca em tudo, ate no sexo, comportada. E naquele instante ela dizia no meu ouvido que queria ser possuida com violencia por um estranho, a voz tremendo, mas o corpo quente. De repente eu quis, quis intensamente, intensamente, ver aquela versao dela fora de controle.

Sentei-me e acendi o abajur da cabeceira. A luz a fez apertar os olhos; o rosto vermelho como se fosse pingar sangue, e no olhar todo o susto de estou dizendo alguma coisa errada. Nao a xinguei. Ajeitei atras da orelha o cabelo desarrumado dela e disse: Pensou bem? Ela ficou paralisada um momento, assentiu, depois negou com a cabeca e por fim, baixinho, disse: quero. Foi essa unica palavra que acendeu tambem o ultimo resto de hesitacao dentro de mim. Sou engenheiro; diante de um projeto por mais perigoso que seja, minha primeira reacao nao e fugir, e desmontar o risco, controlar cada ponto, um a um, e entao executar. Desta vez foi igual. Eu disse: Entao nao agimos por impulso. Isto nao e traicao, e um jogo que nos dois vamos jogar juntos. Se e para jogar, temos que fazer como num projeto: primeiro fixar as regras.

Ao dizer isso, aquelas duas coisas dentro de mim ja comecavam a brigar. Uma era o ciume: so de imaginar a mao de outro homem pousando sobre o corpo dela, meu estomago se apertava; a outra era uma excitacao que eu tinha vergonha de admitir, quase impossivel de conter, mais feroz que o ciume, e que me deixou duro. Metade da minha vida calculei coeficientes de seguranca para pontes, para lajes, sem nunca deixar a emocao entrar no calculo. Mas desta vez o que eu tinha que calcular era quanta carga aquela minha fera, que nunca ousei soltar, seria capaz de suportar. Decidi executar esse projeto com minhas proprias maos, porque percebi: eu queria ver aquela noite mais do que ela.

【Su Yan - Esposa】

Ele nao se irritou; pelo contrario, ficou serio, e isso me descontrolou o coracao mais do que se tivesse explodido. Sob o abajur, eu olhava meu marido tao correto, e nos olhos dele ardia uma luz que eu nunca tinha visto. Ele se levantou, foi ao escritorio buscar papel e caneta e voltou; como quando revisavamos um projeto, sentou-se em frente a mim, puxou o cobertor um pouco mais sobre o meu corpo e disse: Primeira regra, a palavra de seguranca. Fiquei sem reacao. Ele explicou: No jogo voce vai dizer nao, vai resistir, vai chorar, e nada disso conta, e cena. Mas se voce chegar de verdade ao seu limite, voce diz apagao. Ao ouvir essas duas silabas, seja em que ponto estivermos, tudo para na hora, e eu sou o primeiro a arrancar o homem de cima de voce.

Apagao. Repeti mentalmente aquela palavra que mais gritamos no canteiro de obras, absurda e tranquilizadora. Nao tinha nada a ver com desejo, e justamente por isso era facil de lembrar e nunca escaparia sem querer durante a cena. Foi assim que discutimos, regra por regra. Limites intransponiveis: nao bater no rosto, nao apertar o pescoco ao ponto de sufocar, nao deixar marcas visiveis, jamais filmar nada, jamais fazer o que eu nao tivesse consentido. Ele perguntou se eu queria poder me arrepender depois; respondi que nao precisava, mas que no jogo eu reservava o direito de gritar pare a qualquer momento. Combinamos ate um gesto: se eu estivesse com a boca tapada, sem poder falar, eu abriria a mao direita com forca e cravaria os cinco dedos na direcao dele, e isso tambem valeria como gritar apagao. Ele me fez repetir o gesto tres vezes ali mesmo, ate que ficasse gravado na minha memoria muscular.

Quando chegamos ao que ele fara enquanto estiver presente, Jiang Zhi ficou em silencio um instante e disse: Eu so olho. Nao toco nele, e quase nao toco em voce. Voce vai ser tomada por outro homem diante dos meus olhos. Ao dizer isso, o pomo de adao dele desceu num engolir; vi com toda a clareza: ele tinha ciume, mas estava excitado, e essas duas coisas brigavam no rosto dele, e ver aquilo me apertou o baixo ventre. De repente entendi que esse jogo era, na verdade, dos dois: eu queria o descontrole, ele queria me ver descontrolada; eu queria ser tomada por um estranho, e ele queria, da distancia mais proxima, ver com os proprios olhos a coisa dele sendo tomada por outro, e depois ve-la voltar as suas maos. Essa cumplicidade nos aproximou mais do que qualquer juramento de amor.

【Jiang Zhi - Marido】

So depois de discutir as regras a esse ponto e que ousei admitir o quanto eu queria isso. Acertamos ainda os detalhes: que tipo de pessoa procurar, para onde ir, como sair de cena. Eu disse que escolheria o homem e definiria o local; ela so precisava entrar em cena seguindo o roteiro que arranjamos. O esqueleto dessa encenacao era: ela faria uma mulher levada ate ali entre engano e persuasao, meio cedendo meio resistindo; o estranho ficaria encarregado da dominacao brutal e da humilhacao, e eu assistiria da penumbra. Mas alem do esqueleto, eu a queria sempre lucida, sempre sabendo onde estava, com quem estava, capaz de gritar pare a qualquer momento. Esse ponto eu confirmei com ela tres vezes, sem parar. O que eu queria era ela caindo de forma lucida, nada mais; aquela coisa privada de consciencia, que nao suporta a luz, e suja e perigosa, e eu nem sequer encostaria nela.

Fitei aquelas poucas linhas no papel e de repente achei tudo aquilo absurdo e escaldante. Trabalhei dez anos com estruturas, acostumado a calcular coeficiente de seguranca para tudo: neste jogo, a palavra de seguranca e a saida de emergencia, os limites intransponiveis sao o limite de carga, e minha presenca e o monitoramento em tempo real. Depois de calcular tudo isso, a parte que sobra, a imagem dela em descontrole sob outro homem, e a carga que eu de fato cobicava. Levantei os olhos e a vi mordendo o labio inferior, me olhando, o cobertor escorregado para um lado, revelando um dos seios cheios, o bico duro e retesado no ar frio. Estendi a mao e o cobri, so o apertei uma vez, e ela ja tremeu na palma da minha mao. Eu disse: Nestes dias, voce nao pode me tocar, nem se resolver sozinha. Guarde. Guarde ate aquele dia, eu quero voce faminta a ponto do desespero.

【Su Yan - Esposa】

Os dias seguintes viraram uma tortura doce. Ele nao me tocava e nao me deixava me tocar, dizia que ia me guardar ate aquele dia. De dia eu ia a empresa como sempre, calculava a armadura diante de uma planta atras da outra, firme como se nada estivesse acontecendo. Mas bastava lembrar de cada regra que combinamos naquela noite, lembrar de um homem cujo rosto eu ainda nem conhecia, que diante de Jiang Zhi iria me prensar, humilhar e me atravessar com brutalidade, e eu tinha que cerrar os dentes e apertar as coxas, deixando a calcinha se molhar aos poucos. Esse prazer do contraste era algo que eu nunca havia experimentado: quanto mais comportada de dia, mais o desejo se agitava de noite; quanto mais lucidamente eu sabia o que estava esperando, mais doce ficava a vergonha.

Cheguei ate a comecar a me preparar para aquela noite, como quem se prepara para um encontro que nao ousa admitir a si mesma. Tirei do fundo do armario aquela camisola de alcinha de renda preta que nunca ousei usar na rua, tao fina que deixava o corpo transparecer, com duas pecas de renda no peito que mal seguravam o peso dos meus 34D; combinei com um conjunto de lingerie de renda cor de vinho, cuja fita fina da tanga por tras se enterrava no vao das nadegas. Girei diante do espelho e vi minhas duas nadegas redondas e firmes marcadas por um sulco fundo, as coxas longas e claras, tonificadas por anos de pilates, com um toque de maciez. A mulher no espelho era estranha ao ponto de me corar: nao era a engenheira Su, a mais firme do dia; era uma mulher esperando, com fome, para ser tomada por um estranho.

De pe diante do espelho, estendi a mao e apertei os seios por cima da renda; os bicos endureceram na hora, apontando pequenos releva atraves da camada fina. Nao resisti e desci a mao; a ponta dos dedos mal tocou aquele lugar liso e depilado e ja estava tudo encharcado. Assustada, recolhi a mao depressa, Jiang Zhi nao me deixava tocar. Mas quanto mais era proibido, mais fundo ia aquela coceira, tao fundo que de noite eu me revirava sem parar, so podia entrelacar as pernas e imaginar como aquele estranho me abriria sem a menor piedade. Nunca havia desejado, de forma tao lucida e premeditada, uma queda.

【Jiang Zhi - Marido】

Escolher o homem me deixou mais fora de mim do que eu imaginava. Postei um pedido vago num pequeno circulo adulto e discreto e logo filtrei alguns. Um veio de cara todo cheio de labia, apagado. Um perguntou se dava para gravar algum material, bloqueado na hora, esse era meu limite intransponivel. No fim escolhi um homem chamado Cheng Yue, uns trinta e tantos, corpo solido, anos de academia, com um frio na conversa que sabia medir o ponto. Enviei a ele as regras, sobretudo a da palavra de seguranca, enfatizando repetidas vezes: ao ouvir apagao, tudo para na hora; se voce ousar cruzar a linha, eu me viro contra voce na hora. Ele respondeu direto: Entendido. Chegando essas duas silabas, eu paro antes de voce. Foi essa frase que me fez fecha-lo.

Fui mais uma vez ate aquele apartamento nos suburbios; escolhi de proposito um com isolamento acustico otimo, cuja janela do chao ao teto dava para uma paisagem noturna sem ninguem. Percorri mentalmente o trajeto: por onde ela entra, onde Cheng Yue espera, em que canto escuro eu me sento para enxergar cada centimetro da expressao dela. Como quem faz a vistoria de uma etapa de obra, verifiquei as tomadas, as cortinas, a porta de saida, uma a uma; ate coloquei naquele canto escuro a cadeira individual, sentei-me nela e ajustei o angulo repetidas vezes, ate confirmar que, quer ela fosse prensada contra a janela, quer fosse imobilizada na cama, eu conseguiria enxergar o rosto dela. Feito isso, sentei-me na beira daquela cama que eu ia entregar a outro homem e, de repente, uma aflicao sem motivo: eu ia mesmo ver, com meus proprios olhos, ela ser tomada. Mas no segundo seguinte a aflicao, fiquei duro, duro a ponto de doer. So entao entendi de vez: eu ha muito nao estava satisfazendo a ela, estava satisfazendo aquela minha fera que nunca ousei mostrar a ninguem.

【Su Yan - Esposa】

Na vespera do dia marcado, eu quase nao dormi. Deitada ao lado de Jiang Zhi, eramos como dois cumplices; nenhum de nos dizia nada, mas no escuro ambos estavamos acordados. Estendi a mao, segurei a dele e perguntei: Voce tem certeza? Me ver sendo tomada por outro... voce realmente aguenta? Ele apertou de volta, com forca, e disse: Nao sei se aguento ou nao. Mas eu quero ver. Fez uma pausa e acrescentou, a voz abafada: Lembre-se, nao sou eu quem te manda embora. Voce esta lucida, pode voltar a qualquer momento. Grite apagao, e eu estarei ali.

Enterrei o rosto no ombro dele, e os olhos de repente esquentaram: entao a confianca mais profunda e ousar, diante de voce, entregar a versao mais degradada de si mesma, sabendo que voce com certeza vai me amparar. Na palma da mao dele, repeti mentalmente aquele acordo mais uma vez: a palavra de seguranca e apagao, o gesto e abrir os cinco dedos e crava-los, seja em que ponto estiver, ao gritar tudo para, e ele e o primeiro a agir. Depois de contar essas barreiras uma a uma na cabeca, aquele ultimo resto de medo dentro de mim foi sendo alisado aos poucos, e em seu lugar veio uma expectativa quase devota. Quanto mais firmes as barreiras, mais eu ousava ficar a beira do abismo. Naquela noite nenhum de nos tocou o outro, mas nunca estivemos tao proximos como entao.