Divorciada aos Trinta e Seis, a Ousadia no Banheiro Público

Capítulo 1离婚之后,身体没跟着签字

Andarilho · 2444 palavras · Português

【Ela · Divorciada jovem】

No dia em que saiu o certificado de divórcio, ela achou que fosse chorar. No fim, não chorou. Ao sair do cartório, o sol estava forte; ela ficou parada nos degraus, apertando os olhos, e sentiu só que os ombros tinham ficado mais leves, como quem tira uma mochila carregada por tempo demais, que havia muito já não lhe servia. Trinta e seis anos, virando gente sozinha de novo. Na hora ela pensou: ótimo, finalmente sossego.

O sossego era real. Um sossego como o de um apartamento recém-desalugado, com os móveis todos retirados, em que até os passos ecoam. Nos primeiros três meses ela viveu bem: horas extras, séries, sair para beber com as amigas divorciadas e xingar o ex-marido, a vida seguindo em frente. O verdadeiro problema começava de madrugada — não era sentir falta dele, ela não sentia a menor falta daquele homem. Era o corpo que sentia falta. O corpo não reconhecia aquele certificado de divórcio; ele nunca tinha assinado nada ali.

Nos últimos dois anos de casamento, ela e ele já não tinham mais nada; dormiam em camas separadas, cada um do seu lado, com preguiça até de se tocar. Ela chegou a achar que aquela parte dela havia secado de vez, que era terra ressecada. Só depois de se separar é que descobriu que não era nada disso. Ela estava prensada, prensada por aquela relação morta a ponto de não conseguir respirar, prensada a ponto de esquecer que ainda sabia desejar. Assim que a pessoa saiu de vez e a pedra que a prensava foi removida, tudo o que estava embaixo veio à tona, aflito e feroz, como uma respiração presa por tempo demais.

No começo ela se resolvia sozinha. De madrugada, trancava a porta do quarto — morando sozinha, ninguém iria bater, mas por hábito ela ainda trancava. Enfiava a mão, fechava os olhos e imaginava umas cenas vagas, sem forma. Resolvia, mas depois de resolver ficava ainda mais vazia. Nos segundos após o clímax, o apartamento ficava num silêncio assustador; deitada na sua metade vazia da cama, com a outra metade sempre fria, a coberta lisa e sem ninguém para amassá-la, ela encarava o teto e de repente entendia com toda a clareza: assim não dava para continuar. Não era falta de um clímax, era falta de outra coisa. Falta da sensação de ser vista, de ser desejada.

Ela começou a baixar aplicativos. De namoro, de relacionamento, os que fingiam ser sérios e os que claramente não eram — testou todos. Conheceu alguns. Alguns já vinham logo com mensagens explícitas, tão nojentas que ela sentia ânsia; outros bancavam o cavalheiro por um tempão e no fim o objetivo era sempre aquela mesma coisa, e tanto rodeio cansava ainda mais. Não era que ela não pudesse aceitar uma noite; era que não suportava a sensação de ser tratada como um buraco, uma ferramenta, uma solução — ela já tinha passado dois anos de um casamento sendo tratada como ar, e não queria cair da indiferença de um homem para o desdém de outro.

O que realmente a fisgou foi o Twitter. No começo era só rolar o celular sem sono, e o algoritmo, sabe-se lá como, lhe empurrou um post — as costas de uma mulher, a roupa meio caída, parada num canto de um lugar claramente público, com uma única frase de legenda: «Hoje quase fui descoberta; meu coração até agora não parou de bater.» Nas centenas de comentários abaixo, dava para sentir a empolgação através da tela. Ela ficou olhando por muito tempo, o dedo pairando sobre o curtir, e no fim não curtiu, deslizou para longe. Mas naquela noite ela se revirou sem conseguir dormir, a cabeça toda naquele «quase fui descoberta».

Na semana seguinte, ela ficou como que enfeitiçada. Seguindo aquele post, ela se enfiou num círculo. Eram todos perfis anônimos, com fotos que ou eram partes de corpos borradas, ou uma luz e sombra ambíguas. Uns postavam num terraço deserto, outros num estacionamento vazio de madrugada, outros na cabine de um banheiro depois de a sessão de cinema esvaziar. Sem rostos, só corpos, só aquele frêmito de «se expor onde não se deve». Ela ia rolando post após post, rolou até o celular esquentar na mão, rolou até aquele ponto no peito ficar dolorido e formigando — então não era só ela que era assim. Então havia um canto secreto inteiro capaz de acolher esse desejo que não podia ver a luz.

Ela criou um perfil-fake para si. Foto vazia, bio vazia, nenhum seguidor. No primeiro post não teve coragem de publicar nada; só seguiu algumas dezenas de gente do círculo e depois se deitou na cama, sentindo como se tivesse empurrado às escondidas uma porta, e o vento que entrava pela fresta era frio e perigoso, provocando-a até os pelos se arrepiarem. Naquela noite ela não se masturbou; só de pensar «eu entrei», lá embaixo já estava molhada.

As pessoas do círculo eram mais conversadoras do que ela imaginava. Uma mulher com o apelido «Xiaoman», vendo que era um perfil novo, mandou mensagem por conta própria, perguntando havia quanto tempo ela brincava daquilo. Ela respondeu com sinceridade que tinha acabado de entrar, que ainda não tinha postado nada. Xiaoman mandou uma sequência de risadas e disse: «Eu entendo, no começo eu também era assim, só olhava sem coragem de brincar.» As duas conversavam sem pressa, das respectivas situações a como tinham caído naquilo. Ela não contou que estava divorciada, só disse: «Moro sozinha, é muito sufocante.» Xiaoman respondeu na hora: «Morar sozinha é o melhor; brinca do jeito que quiser, ninguém controla.»

Xiaoman foi a guia dela. Foi Xiaoman quem lhe disse para não começar já com coisa grande, mas sim por «sair de casa vestida com menos» — por exemplo, sem nada por baixo, só um sobretudo por cima; andando na rua ninguém sabe, mas ela sabe, e aquela sensação do segredo colado à pele vicia. Ela obedeceu. A primeira vez foi descer para pegar uma encomenda, sob o sobretudo só a lingerie, uns curtos duzentos metros; o coração dela batia como o de um ladrão, e ao voltar para casa e fechar a porta, encostou nela ofegante, molhada a ponto de dar para torcer a calcinha. Uma coisinha à toa daquelas a excitou a noite inteira.

Dali em diante foi um sem-volta. Os lugares em que se expunha ficavam cada vez mais ousados, os limites cada vez mais para cima. Ela tirava fotos de si, só do corpo, jamais do rosto, e postava no perfil-fake, colhendo, de estranhos, um «tô louco pra ver mais» atrás do outro. Aquelas palavras eram baratas, diretas, de gente que ela nunca tinha visto, mas eram justamente elas que preenchiam aquele pedaço que ficou vazio no casamento — ser desejada, ser observada, ter alguém que, através da tela, ofegando, dissesse «que safada você é». Ela sabia que aquilo não era saudável, sabia que era absurdo, mas tinha trinta e seis anos, tinha desperdiçado os seus melhores anos num casamento errado — com que direito não podia enlouquecer uma vez por si mesma?

A incitação veio aos poucos. Primeiro foi Xiaoman, depois outros do círculo, que, vendo-a cada vez mais solta, começaram a atiçá-la. Uns diziam que através da tela não bastava, que era preciso brincar no espaço real, que o risco era o tempero. Outros, meio de brincadeira: «Amiga, com esse corpão, desperdiçar no seu próprio banheiro é um pecado.» E havia o mais atrevido de todos, que jogou uma frase que fez o coração dela pular uma batida — «Você tem coragem de brincar num banheiro masculino? Isso sim é emocionante. Um banheiro masculino vazio, brincando e escutando se vem alguém lá de fora; te garanto, você nunca mais esquece na vida.»

As palavras «banheiro masculino», como uma agulha, se cravaram num lugar dela que nunca tinha sido tocado. A primeira reação foi de absurdo, de impossível, de «isso é doentio demais». Mas foram justamente essas duas palavras que ficaram girando na cabeça dela a noite inteira, girando cada vez mais brilhantes, e quanto mais ela pensava, mais molhada ficava. Deitada na cama, enfiou a mão para dentro, e pela primeira vez não imaginou um homem concreto, e sim um banheiro público vazio, com eco, de azulejos brancos e mórbidos; imaginou-se de pé, quase toda nua, num lugar daqueles; imaginou que, do lado de fora da porta, a qualquer momento pudessem soar passos — ela tremia tanto que quase não se segurava, e o clímax veio rápido e feroz, tão rápido que a assustou.

No dia seguinte ela ficou olhando o calendário. Quarta-feira, dia de folga; muitas repartições fechavam. Aquela região dos arredores da cidade por onde ela já tinha passado de carro algumas vezes ficava quase deserta de dia, com uns banheiros públicos isolados, vazios como se o mundo os tivesse esquecido. Ela repetia para si mesma que não iria, e vez após vez abria o mapa para olhar aqueles pontos. A voz dentro dela dizia: vai, só dá uma olhada, só olhar, se te der medo você vai embora na hora. Ela sabia bem demais que aquilo era mentira para si mesma. Mas mesmo assim, na manhã de quarta, foi parar diante do guarda-roupa.

Escolheu por um bom tempo. A peça que acabou tirando era um conjunto comprado depois de entrar nessa brincadeira, que ela nunca tinha tido coragem de usar de verdade na rua — uma coleira vermelha estreita, presa no pescoço, e quando a afivelou pela primeira vez as mãos tremiam; um casaquinho branco fino, que podia ficar aberto ou envolvê-la, a última camada de recato que ela guardava para si; por baixo, lingerie preta de renda, cujo babado no peito ela corava só de tocar; embaixo, uma meia-calça preta que embrulhava as pernas de lustroso e escorregadio; nos pés, um par de chinelos macios cor-de-rosa, para trocar por outro sapato ao sair. Diante do espelho, ela olhou para aquela outra: trinta e seis anos, o corpo ainda muito bem cuidado, cintura fina, pernas retas, pele clara. A mulher no espelho tinha o olhar brilhando, como quem passa fome havia tempo demais. Mandou para Xiaoman uma foto de espelho com o rosto encoberto e só três palavras: «Estou saindo.»