Meu Antigo Mestre Voltou

Capítulo 1群里那个人回来了

Andarilho · 3764 palavras · Português

[Ela · Voz Interior]

Tenho vinte e oito anos este ano, um metro e sessenta e cinco, quarenta e sete quilos e meio, casada há três anos. Ninguém acredita quando digo, mas quando era jovem eu brincava muito pesado — não do tipo beber e ir à balada, mas do tipo em que você entrega o próprio ser inteiro, em que abre mão até do direito de gritar “pare”. Depois conheci meu marido atual — estável, atencioso — e tranquei aquela porta por dentro, joguei a chave fora, proibi-me até de pensar nisso. Três anos. Achava que tinha largado. Naquela noite caía aquela chuva fria típica de perto do Qingming, e eu estava encolhida no sofá mexendo no celular quando um grupo antigo, há muito silenciado e coberto de pó, de repente piscou uma mensagem não lida. Abri, e no instante em que vi aquele avatar, as pontas dos meus dedos que seguravam o celular esfriaram um passo antes de mim. Era ele. Meu antigo Mestre.

Ele enviou apenas uma linha, seis caracteres: “Ainda se lembra de mim.” Sem ponto de interrogação. Ele nunca usa ponto de interrogação — as palavras dele não são perguntas, são afirmações, ordens. Fiquei encarando aqueles seis caracteres, a luz fria da tela no meu rosto, o coração batendo contra as costelas até doer. Eu podia sair do grupo, podia bloqueá-lo, podia fingir que não tinha visto — mas meus dedos pareciam não me obedecer, digitando e apagando, apagando e digitando na caixa de texto, e no fim não enviei nada. E, no entanto, aquela única linha, sem começo nem fim, já havia arrancado da medula dos meus ossos algo que eu julgava ter enterrado por três anos.

Nós nos conhecemos na internet uns anos atrás, num grupo de um certo círculo; nos entendemos, então o adicionei. Naquela época eu ainda não era casada, morava sozinha em outra cidade, e me entreguei a ele, vez após vez — aprendi a ajoelhar, aprendi a chamá-lo de Mestre, aprendi a gozar dentro da minha própria vergonha. Aqueles dias eram loucos, e eram reais. Depois conheci meu marido atual, achei que era hora de sossegar, e lhe disse que ia me casar, ia viver a vida de uma pessoa normal. Ele não me impediu; apenas disse, com brandura: “Você vai voltar.” Na hora eu ri com desprezo, achei-o arrogante. Três anos. Achava que tinha usado um casamento para provar que ele estava errado. Mas agora, encarando aqueles seis caracteres, com as pontas dos dedos geladas, finalmente entendo que ele nunca esteve errado — apenas podia se dar ao luxo de esperar.

[Antigo Dom · S]

Não preciso que ela responda. Vejo aquela mensagem repousando quietinha no grupo, ninguém a retoma, ela também não aparece, mas sei que está olhando. Alguém que já criei — mesmo através de uma tela consigo farejar aquele pânico familiar. Três anos atrás foi ela mesma que implorou para ir embora, disse que ia se casar, viver uma vida normal, e eu a soltei — não por relutância, mas porque sei de uma coisa: um corpo como o dela, uma vez que foi de verdade dominado, nunca mais volta ao chamado normal. Os dias estáveis só vão alimentar a fome dela, alimentá-la até que, numa certa noite de chuva, uma linha minha faça o corpo inteiro dela se molhar antes de qualquer outra coisa. Não tenho pressa. Desta vez voltei sem trunfo nenhum, sem a menor intenção de ameaçá-la com uma só palavra. O que eu quero é que ela venha por conta própria — passo a passo, os olhos vermelhos, odiando a si mesma, e ainda assim incapaz de parar de vir. É isso que tem graça.

[Marido · Sem Saber]

Naquela noite ela estava sentada na outra ponta do sofá mexendo no celular enquanto eu, na cozinha, fervia o mingau de feijão-vermelho que ela adora. A panela borbulhava e chiava; virei-me para olhá-la, e sob a luz ela estava de cabeça baixa, os cílios longos, o rosto um pouco pálido. Achei que estivesse cansada — a empresa dela anda com muita hora extra ultimamente. Levei uma tigela e a pousei ao lado da mão dela, e ela estremeceu como se tivesse se queimado antes de voltar a si, depois sorriu para mim. O sorriso era doce, mas eu sempre sentia que algo estava um pouco diferente, como se houvesse uma fina camada de névoa entre nós. Não pensei muito nisso. Casados há três anos, eu me gabava de ser quem melhor a conhecia. Ela pegou a tigela e bebeu, em pequenos goles, os cílios abaixados, e eu não conseguia distinguir a agitação nos olhos dela. Se eu tivesse feito só mais uma pergunta naquela hora.

[Ela · Voz Interior]

O mingau de feijão-vermelho era doce, mas eu não sentia o sabor. Ele estava sentado ao meu lado — o calor do corpo, o cheiro, aquela solidez do dia a dia que me tranquiliza, tudo ainda ali. Mas a tela do meu celular escurecia e se acendia de novo, e aqueles seis caracteres grudavam na minha retina como um ferro em brasa. Enquanto tomava o mingau, eu me xingava por dentro: você é casada, tem um marido tão bom, você enlouqueceu? A razão me puxava para trás com toda a força, mas a outra mão, pendida sobre o joelho, cravava inconscientemente as unhas na palma — aquele pequeno gesto que eu só tinha antigamente, ajoelhada, esperando por ele. O corpo lembra com mais clareza do que a cabeça. Achava que tinha esquecido. Na verdade, não tinha esquecido nem um centímetro.

Naquela noite, depois de deitar, meu marido adormeceu rápido. Fiquei de olhos abertos, ouvindo a respiração regular dele, mas minha cabeça não parava. Escorreguei a mão bem devagar para dentro do edredom e me toquei por cima da calça do pijama — já estava molhada, só porque minha mente reproduzia sem parar aqueles seis caracteres. Recolhi a mão como uma ladra, o coração disparado, envergonhada e assustada. Ao meu lado deitava a pessoa que me é mais querida, e no entanto eu estava assim de molhada por causa de outro homem. Virei o rosto para a parede, e as lágrimas jorraram de uma vez. Disse a mim mesma que estar molhada não significava nada, que amanhã ficaria bem, que eu apagaria a mensagem, sairia do grupo, e tudo voltaria ao normal. Mas eu não conseguia sequer executar o gesto de apagar. Apertei o celular firme na palma da mão, como quem aperta algo que não ousa admitir que deseja.

[Antigo Dom · S]

No dia seguinte mandei uma mensagem privada para ela. Sem gentilezas, apenas uma linha: “Deixe-me ver como você está agora.” Sei o quanto isso ultrapassa os limites — ela é casada, faz três anos que não nos falamos. Mas a minha aposta é que ela não vai recusar — não que não ouse, mas que não queira. Se ela tivesse mesmo largado, esta mensagem deveria afundar como pedra no mar. Passou muito, muito tempo, tanto que achei que tinha perdido a aposta, quando acima da caixa de diálogo surgiu “digitando…”, e parou, e voltou, repetidamente. O que enfim entrou não foi uma foto — foram três palavras: “Não faça isso.” Eu sorri. “Não faça isso” não é “Não quero”. É ela implorando que eu lhe dê uma saída — ela quer ser forçada a avançar, mas não quer admitir que é o que ela própria deseja. Esse joguinho, nós já jogamos vezes demais. Respondi: “Sexta à noite, aquele hotel de sempre, oito horas. Se você vem, é você quem decide.” Depois virei o celular para baixo e não olhei mais. A escolha — sempre a dei a ela em abundância, porque sei como ela vai escolher.

[Ela · Voz Interior]

“Se você vem, é você quem decide” — é justamente essa frase, a mais cruel. Se ele me ameaçasse, se usasse alguma coisa do passado para me forçar, eu poderia, ao contrário, odiá-lo e recusá-lo de consciência tranquila. Mas ele teve de enfiar a decisão inteira, intacta, de volta nas minhas mãos, sem me deixar ninguém para culpar. Faltam três dias para sexta. Nesses três dias fiquei como que enfeitiçada: de dia, na minha mesa, encarava as planilhas sem absorver um único número; de noite, deitada ao lado do meu marido, ouvindo a respiração regular dele, de olhos abertos até o amanhecer. Levantava no escuro para beber água, parada na sala às escuras, e de repente percebia que minhas mãos tremiam — aquela região na parte interna das coxas, só de pensar na palavra “sexta”, ficava tão quente que me envergonhava. Afinal, o que era que eu esperava? Encostei a testa na porta gelada da geladeira e disse a mim mesma: não vou, de jeito nenhum vou.

[Marido · Sem Saber]

Naqueles dias ela dormia mal. Ao me virar no meio da noite, várias vezes tateei o lado ao lado e o encontrei vazio, com um farfalhar vindo da sala. Levantei para ver, e ela estava de pé junto à janela bebendo água, as costas magras. Abracei-a por trás, perguntei o que havia, se a pressão do trabalho estava grande. O corpo inteiro dela enrijeceu por um instante nos meus braços, e só então amoleceu, recostando-se no meu peito, e disse que não era nada, só que estava com um pouco de insônia. Apoiei o queixo no alto da cabeça dela, aspirando o cheiro familiar do xampu no cabelo, pensando em levá-la ao campo no fim de semana para caminhar e espairecer. Eu tinha até pesquisado uma pousada nas montanhas. Como eu poderia imaginar que, no exato fim de semana em que eu tramava tirá-la da pressão, ela tramava no coração uma outra coisa da qual eu nada sabia.

[Ela · Voz Interior]

No instante em que ele me abraçou por trás, quase chorei. Um homem tão bom, um par de mãos tão limpas, cingindo minha cintura, perguntando se eu estava cansada. Recostei-me nos braços dele, aspirando o cheiro de sabão no corpo dele, e metade de mim queria virar e abraçá-lo, apagar da mente aquela noite de chuva, aqueles seis caracteres, aquele hotel, tudo; mas a outra metade de mim, abraçada por ele com tanta ternura, percebeu ainda mais claramente — ele não pode me dar aquilo. O que ele dá é estabilidade, ser querida, ser carregada como um tesouro com cuidado. Mas aquele poço lá no fundo do meu corpo só borbulha água quando alguém me pisa, me humilha, me controla. Não é justo — não é justo com ele, e é um tormento para mim também. Fechei os olhos, e as lágrimas escorreram em silêncio sobre as costas da mão dele. Ele achou que era sono; na verdade, era eu travando comigo mesma uma batalha que eu já tinha perdido há muito.

Naqueles dias, no banho, eu ficava encarando o espelho, distraída. O vapor embaçava o espelho com uma película branca; eu a limpava com a mão e via meu próprio corpo no espelho — um metro e sessenta e cinco, quarenta e sete quilos e meio, cintura fina, mas quadris redondos, o bumbum erguendo-se numa curva bonita, coxas proporcionais e claras, e entre as pernas aquela região que eu sempre mantenho limpinha e lisa, fechada numa fenda nua. Meu marido abraça este corpo todo dia, e no entanto parece que ele nunca foi de fato aceso. Encarava a mim mesma no espelho e de repente me lembrava de como eu ficava quando ele me treinava antigamente, e o rosto pegava fogo num átimo; aquele calor subia pela espinha até o baixo-ventre, e até os mamilos no espelho enrijeciam sem que eu pudesse controlar. Apressada, apontei o chuveiro para mim e me joguei água fria, mas aquele fogo — a água fria não o apagava.

[Antigo Dom · S]

Quinta à noite, não fiz nada. Não cobrei, não perguntei, não mandei localização, não mandei uma só palavra. Esta é a última etapa — deixá-la sozinha, no silêncio, para enfrentar por si mesma o eu que já foi acendido. Se pressionasse demais, ela usaria o “fui coagida” como desculpa para fugir e ainda preservaria aquele resto de dignidade; mas se eu não faço nada, ela não tem desculpa, resta só o fato nu escancarado diante dos olhos: ela quer ir. Quer tanto que passa a noite inteira sem dormir, quer tanto que as coxas amolecem, quer tanto que odeia a si mesma e ao mesmo tempo anseia. Quanto mais três anos de estabilidade ela tem por trás, mais contido está esse fôlego. Sentei-me junto à janela do quarto do hotel, observando a chuva desfocar o néon da cidade inteira em poças de luz aguada, vermelha e amarela, bem seguro de mim. O que foi criado manso não foge; apenas, numa certa noite, de olhos vermelhos, volta por conta própria caminhando para dentro da jaula.

Lembro-me de como ela estava da primeira vez que se ajoelhou diante de mim. Naquela época ela tinha pouco mais de vinte, brincava de forma selvagem, trazia consigo um ímpeto de quem não liga para nada. A submissão das outras mulheres é arrancada delas sob o treino; a dela não era — ela nasceu querendo ajoelhar, só nunca tinha encontrado alguém disposto a segurá-la. Eu a segurei. Ensinei-a a pronunciar a palavra “Mestre”, ensinei-a a encontrar prazer dentro da própria vergonha, ensinei-a o quanto é reconfortante entregar o próprio ser inteiro. Uma coisa dessas, uma vez aberta, nunca mais se fecha. Ela pode se casar, pode ter filhos, pode viver dez anos de dias estáveis, mas basta eu dobrar um único dedo e acenar, e ela ainda, como hoje, não dorme, não espera, vem caminhando de olhos vermelhos. Não preciso ameaçá-la. Só preciso esperar.

[Ela · Voz Interior]

Naquela sexta, depois do expediente, fiquei muito tempo parada na chuva embaixo do prédio da empresa. O guarda-chuva estava aberto, mas eu ficava imóvel, olhando os faróis dos carros que passavam traçarem riscos vermelhos na água acumulada. A razão me listou cem motivos para não ir: sou casada; ele é o meu passado; meu marido está em casa esperando para jantar; isto é traição, é autodestruição, é pular numa cova de fogo. Cada motivo estava certo, cada um eu compreendia. E, no entanto, peguei o celular e mandei uma mensagem ao meu marido dizendo que voltaria tarde por causa de um jantar com os colegas — a mentira saiu tão fluida que me assustou. Depois de enviada, fiquei encarando aquela mensagem “entregue”, o estômago revirando. Eu sabia que, do segundo em que apertei enviar, eu já estava caminhando em direção àquele quarto. Não era ele que me forçava; ninguém me forçava. Era eu mesma, incapaz de largar. Essa constatação me envergonhava mais do que qualquer coisa, e me molhava lá embaixo mais do que qualquer coisa. Parei um táxi e disse o nome daquele hotel, a voz tremendo tanto que quase não se ouvia.

Aqueles vinte minutos sentada dentro do carro foram os vinte minutos mais longos da minha vida. Os limpadores varriam o para-brisa uma vez e outra, borrando o néon numa mancha de luz morna. Apertei bem a gola do meu sobretudo, mas não dava para conter o calor pelo corpo todo. Antes de sair eu tinha trocado de roupa íntima — um sutiã de renda cor-de-rosa nude e uma calcinha fina da mesma cor, ambos guardados no fundo da gaveta, nunca usados uma só vez em três anos de casamento. Ao trocá-los, disse a mim mesma que era só por impulso, mas no fundo eu sabia bem para quem os havia trocado. Baixei os olhos para as mãos cruzadas sobre os joelhos, e as unhas de novo tinham cravado, sem eu querer, na palma. A cidade do lado de fora da janela do carro escorria na chuva, e a cada cruzamento que eu avançava, eu ficava um pouco mais longe daquele lar estável, um pouco mais perto daquele eu que eu julgava ter enterrado. Não disse para parar. Eu até temia que o motorista dirigisse devagar demais.