【Ela · Mulher madura】
Tenho quarenta anos este ano. Esse número eu antes não ousava dizer em voz alta, mas agora posso confessá-lo — porque a confissão é o começo de toda esta história. Quarenta anos, catorze de casamento, filho no internato, marido que toda noite chega, liga primeiro a televisão, depois a geladeira e, por último, distraído, solta um «como foi hoje», sem sequer esperar a minha resposta. Nosso quarto há muito não tem a luz acesa. Não por romance, mas porque nenhum de nós quer enxergar com clareza aquele cansaço resignado no rosto do outro.
【Ela · Mulher madura】
Não é que eu não tivesse tentado. Três anos atrás comprei uma camisola vermelho-escura e fiquei um bom tempo em frente ao espelho do banheiro ensaiando como sair sem parecer constrangida. Na noite em que saí, ele já estava dormindo, o celular ainda aceso, a tela de fundo era a foto do confraternização da empresa. Tirei a camisola, dobrei-a e a enfiei no fundo do armário, e nunca mais a tirei de lá. Naquele instante não senti tristeza, mas algo mais frio — percebi que o meu corpo, dentro desse casamento, tinha se tornado uma bagagem que ninguém reclamava.
【Ela · Mulher madura】
Ir à academia também foi um ato de teimosia. Aquelas setas apontando para cima no exame médico me feriram, e pensei: pelo menos este corpo ainda é meu, sempre posso fazer algo por ele. No primeiro mês me escondia na máquina elíptica no canto mais afastado, de boné e cabeça baixa, como se tivesse feito algo errado. O suor pingava sobre os pedais e eu fitava aquelas veias que começavam a se destacar nas costas das minhas mãos de quarenta anos, pensando em que momento, exatamente, a minha juventude tinha escorrido embora, por qual fresta, sem fazer um único ruído.
【Ele · O homem desconhecido】
A primeira vez que reparei nela foi porque ela se esforçava demais para fingir que não existia. Não faltam mulheres na academia, a maioria vem para ser vista — o ângulo diante do espelho, a postura tensa, os olhares que passam por você de propósito ou não. Ela era diferente. Encolhia-se no canto, a aba do boné bem baixa, os movimentos comportados como os de uma aluna com medo de errar. Mas o corpo dela não mentia: aquela fartura própria das mulheres de quarenta anos, alimentada pelo tempo, a cintura ainda contida, mas os quadris já abertos com o peso de mulher. Quanto mais tentava se esconder, mais chamava a atenção. Observei-a por três dias antes de me aproximar.
【Ela · Mulher madura】
Quando ele se aproximou, primeiro senti o cheiro — não era perfume, era um cheiro limpo de homem, de suor impregnado e depois seco ao sol. Ergui a cabeça, e o pescoço quase teve que se inclinar todo para trás. Ele era muito alto, os ombros tão largos que tapavam a luz do teto, a pele escura, daquele escuro saudável, lapidado por longos anos de sol. Não era daqui, o sotaque tinha uma cadência arredondada e arrastada. Ele disse: «Do jeito que você segura a barra, vai machucar o pulso.» Abri a boca, mas não consegui dizer nada.
【Ele · O homem desconhecido】
A reação dela foi curiosa. Não era a cautela nem o encantamento de uma mulher que se sente cortejada, mas sim uma espécie de — pânico de ter sido desmascarada. Como se alguém tivesse subitamente aberto a cortina atrás da qual ela se escondia havia muito tempo. Não tive pressa. Mulher de quarenta anos não cai na investida atrapalhada de um moleque, elas querem é ser vistas de verdade. Estendi a mão, bem devagar, e a cobri sobre as costas da mão dela que segurava a barra, corrigindo o ângulo. A mão dela, sob a minha palma, tremeu uma vez. Só naquele tremor, eu entendi tudo.
【Ela · Mulher madura】
No instante em que a mão dele cobriu a minha, a minha respiração se desordenou. Aquela mão era grande e quente, o calor da palma atravessando as costas geladas da minha mão como uma queimadura. Fazia tempo demais que eu não era tocada assim por um homem — não o toque negligente de quem passa de raspão, mas o toque intencional de quem coloca toda a atenção em mim. Fitei as nossas duas mãos sobrepostas, a minha parecendo tão pequena, tão branca sob a palma dele. Meu rosto começou a arder, do lóbulo da orelha até o pescoço. Eu sabia que deveria retirar a mão. Não retirei.
【Ela · Mulher madura】
«Relaxa», ele disse junto ao meu ouvido, a voz bem baixa, «você está tensa demais.» Falava da barra, mas a frase parecia carregar outro sentido, caindo bem no lugar dentro de mim que estava vazio havia dez anos. Obedeci, os dedos afrouxando aos poucos, o suor da palma secando com o calor dele. Ele me conduziu até o fim daquela série, sem uma palavra a mais, mas cada vez que a mão dele apoiava minha cintura, meu cotovelo, minhas costas, era como imprimir em mim uma marca escaldante atrás da outra. Terminei a última repetição quase ofegante, e não era só de cansaço.
【Ele · O homem desconhecido】
Não pedi o número dela, não naquele dia. Só disse, quando ela estava se preparando para ir embora: «Você vem todo dia nesse horário?» Ela assentiu, rápida como uma criança flagrada fazendo algo errado. Eu ri. Mulher de quarenta anos, uma vez que decide se entregar, é mais resoluta do que qualquer um, porque sabe bem como o tempo funciona, sabe bem que certas janelas, uma vez perdidas, se fecham para sempre. Tudo o que eu tinha a fazer era ficar diante daquela janela e deixá-la enxergar o céu lá fora.
【Ela · Mulher madura】
No caminho de volta para casa, não parava de tremer. Diante do sinal vermelho olhei o meu rosto no retrovisor — corado, os olhos brilhando, um rosto que eu não via havia muito tempo. Disse a mim mesma que não era nada, apenas um instrutor de academia sendo prestativo. Mas o meu corpo não concordava. Meu coração ainda não tinha se acalmado, o calor da palma dele ainda persistia nas costas da minha mão e, lá embaixo, tenho que admitir com vergonha, já estava tudo molhado. Em quarenta anos nunca soube com tanta clareza como naquela tarde: eu ainda estava viva, eu ainda desejava, eu estava quase enlouquecendo.
【Ela · Mulher madura】
Naquela noite, meu marido, como sempre, ligou primeiro a televisão e depois a geladeira. Sentei-me na outra ponta do sofá, olhando aquele homem com quem dormia havia catorze anos e do qual, no entanto, me separava um oceano inteiro, e pela primeira vez não senti a menor culpa. Só pensava no dia seguinte. Naquele horário, naquele canto, naquele homem desconhecido tão alto que tapava a luz do teto. Eu era como uma prisioneira que finalmente juntou coragem suficiente para fugir, contando as últimas horas antes de a porta da cela se abrir. Sabia que ia cruzar uma linha. E já tinha até começado a ansiar por cruzá-la.