Aquele Drinque, Dez Anos Depois

Capítulo 1散场以后

Andarilho · 1909 palavras · Português

【Zhou Min · A Esposa】

Os lustres de cristal do salão de banquetes brilhavam de um jeito ofuscante. O apresentador ergueu o microfone e gritou: “Dez anos de formatura — um brinde à juventude que nunca mais teremos de volta”, e a mesa inteira acompanhou na algazarra e bebeu junto. Zhou Min também ergueu a taça, sorrindo exatamente como todos ao redor dela. Ela estava com trinta e dois anos; ainda dava para reconhecer no rosto dela a moça que ria com tanta facilidade, só que agora o riso parava seco nos cantos da boca, como uma máquina que bate o ponto na hora certa. Ela olhou para baixo, para o celular: no grupo da família, o marido tinha mandado “você assinou a lição do mais velho?”, seguido de uma foto dos dois filhos transformando a sala numa zona de desastre. Ela virou o celular para baixo sobre a mesa e pegou a taça para mais um gole. Tudo o que ela guardava desses anos vinha com o nome de outra pessoa — dos dois filhos, da empresa, do marido. Quando chegava à coluna que deveria ser a dela mesma, estava em branco.

Na verdade, ela quase não veio. Tirar folga, arrumar alguém para buscar as crianças, deixar o jantar do marido pronto de antemão — só arrancar a si mesma daquela esteira que nunca para lá de casa por uma única noite já lhe custou metade da vida. Mas quando alguém no antigo grupo do dormitório a marcou e disse “o Aqiao também vem”, o dedo dela hesitou por um instante na tela, e então ela respondeu “ok”.

Aqiao. Esse nome ela já fazia anos que não pronunciava em voz alta dentro da própria cabeça. Nos quatro anos de faculdade eles viviam praticamente grudados — mesmo departamento, duas turmas, sempre a mesma fileira de assentos na biblioteca. As outras garotas caçoavam delas, “mais casal do que um casal de verdade”, e ela nem se dava ao trabalho de rebater. Aqiao entendia cada um dos silêncios dela — bastava ela franzir a testa e ele já sabia se era a menstruação ou uma bronca do orientador; bastava um olhar perdido e ele já sabia se devia passar o chá com leite ou simplesmente calar a boca. No ano em que se formaram, ele foi para o sul, ela ficou nesta cidade do interior, e um quase-algo nunca declarado foi esfriado à força por dois mil quilômetros. Depois cada um se casou, cada um afundou na própria vida, e nem curtidas nas redes um dava mais ao outro.

【Aqiao · O Melhor Amigo】

Aqiao chegou bem na marca da meia hora depois do começo. Ele não gostava muito desse tipo de ocasião, uma sala cheia de gente comparando quem tinha vencido mais na vida, quem tinha filho na escola mais cara. Ele varreu o salão com os olhos, e o olhar parou em Zhou Min — ela tinha mudado o penteado, usava um vestido azul-marinho, sentada tão empertigada como se estivesse numa reunião de pais, o sorriso pendurado no rosto sem nunca chegar aos olhos. Dez anos depois, os outros tinham mudado de aparência; só ela, ele reconheceu de relance, junto com aquele cansaço escondido debaixo da compostura.

Ele não se apressou em ir até ela. Primeiro apertou a mão de alguns colegas antigos, trocou amenidades, foi obrigado a virar duas doses. Só depois que todos se espalharam para visitar outras mesas é que ele, de taça na mão, foi devagar até o lugar vazio ao lado dela e se sentou. “Representante de turma,” chamou-a pelo apelido de antigamente, “o lugar está ocupado?” Zhou Min ergueu o rosto, e naquele instante a luz nos olhos dela foi algo que ele guardou por muitos anos — de fato brilhou por um segundo, e não do jeito social. “Aqiao,” disse ela, a voz meio tom mais baixa do que a que usava com os outros, “você continua sabendo cronometrar a entrada.”

Conversaram muito leve, como se tivessem voltado aos vinte. Ele perguntou do trabalho dela; ela disse que ia indo, e riu de si mesma assim que falou, porque ele ouviu na hora que “ia indo” era mentira. Ele perguntou dos dois filhos; aquela luzinha nos olhos dela tornou a esmaecer, e ela disse que o mais velho era um capeta e o mais novo grudento, que ela não parava os pés um minuto o dia inteiro. Ele não disse nenhuma palavra bonita, apenas encheu a taça dela e disse: “Deve ser duro para você.” Só essas palavras, e a mão que segurava a taça tremeu uma vez, os olhos dela esquentando de uma vez. Ele virou o rosto e fingiu não ver, mas por dentro havia uma corda que fazia muito tempo que ninguém tocava, e que essa noite fez soar de novo.

【Zhou Min · A Esposa】

Quando o banquete se desfez, um bando barulhento quis emendar num karaokê. Zhou Min deveria ir embora — ela tinha calculado o último trem-bala, calculado chegar em casa bem na hora em que as crianças pegassem no sono. Mas Aqiao ficou por último, ajeitou o casaco dela pendurado no encosto da cadeira e disse baixinho: “Você não terminou de dizer o que tinha para dizer hoje.” Ela não rebateu essa frase, apenas seguiu o fluxo de gente porta afora, e diante do pequeno bar do outro lado da rua, ainda com as luzes acesas, sem combinar nada, os dois diminuíram o passo.

“Só uma,” disse ela, como se estivesse dando uma saída a si mesma, “depois que a gente conversar eu corro para o trem.” Aqiao sorriu e empurrou a porta. “Uma.” Ao entrar, descobriram que o lugar era silencioso demais, luz amarela quente, reservados de madeira, um isolamento tão bom que dava para ouvir a respiração um do outro. Uma dose virou duas, duas viraram uma garrafa. Ela despejou de uma vez tudo o que tinha engolido sem ter onde falar nesses anos: as noites em que os filhos ardiam de febre e ela velava sozinha até o amanhecer enquanto o marido roncava do lado; as demissões na empresa, em que ela temia todo dia ser a próxima; os pais envelhecendo, a ponto de até voltar para a casa deles ter virado um luxo. Aqiao não a interrompeu, apenas pousava a mão sobre as costas da mão dela na mesa toda vez que ela não conseguia continuar. Aquela mão era muito quente. Ela ficou fitando aquela mão por muito tempo — tempo suficiente para o horário do trem passar sem que ela percebesse.

O álcool queimava suas bochechas, e ainda assim a mente dela estava estranhamente lúcida. Ela sabia que devia ir embora, e sabia que não queria ir. Do lado de fora da janela, as luzes do último trem riscaram o longe; ela não se moveu. Aqiao perguntou: “Ainda dá tempo?” Ela balançou a cabeça, a voz tão baixa que quase não se ouvia: “Não dá mais.” Ele a olhou, sem dizer nada, apenas apertou a mão que cobria a dela. Alguma coisa no ar mudou de lugar com um clique suave. Pela primeira vez em trinta e dois anos, uma fresta se abriu nos dias dela, e do outro lado da fresta estava o caminho que ela não terminara de percorrer aos vinte.

【Aqiao · O Melhor Amigo】

Ele já tinha reservado um quarto de antemão. Naquela meia hora antes de a festa esvaziar, ele havia reservado sem alarde, pelo celular, o hotel no fim daquela rua, com a desculpa de “vai que alguém bebe demais e precisa de um pouso”. Ele não ousou imaginar mais do que isso — e não era que não tivesse ousado imaginar. Neste momento ela estava sentada à frente dele, olhos brilhando, bochechas ruborizadas pela bebida, a guarda descascando camada por camada, como a areia que aparece depois que a maré baixa. Ele sabia que, uma vez cruzada essa linha, não havia volta, mas sabia com mais clareza ainda que, se deixasse ela pegar aquele trem sozinha hoje, todos os “poderia ter sido” acumulados nesses dez anos ficariam devendo mais dez.

“Reservei um quarto,” disse ele, com toda a franqueza, sem rodeios. “Se não for confortável para você, eu te levo até um táxi.” Ele colocou a escolha nas mãos dela, de propósito não a pressionando. Zhou Min não respondeu de imediato. Ela olhou para baixo, girando a taça, as gotas de água na lateral escorregando uma a uma. Depois de um bom tempo, ela ergueu a cabeça, e nos olhos dela havia algo que ele nunca tinha visto — desistido de tudo e, ao mesmo tempo, aliviado como quem larga um fardo. “Aqiao,” disse ela, “hoje à noite eu não quero ser a esposa de ninguém, a mãe de ninguém.” O coração dele falhou uma batida. Ele se levantou e, com toda a naturalidade, tomou a mão dela. Os dedos dela se enrolaram uma vez dentro da mão dele e então se fecharam de volta em torno dele. A porta do bar fechou-se atrás deles, trancando a cidade que pertencia a Zhou Min — junto com seus dois filhos, seu marido, sua esteira que nunca para — do lado de fora.