A Calcinha Ficou em Casa

Capítulo 1叠好,塞进夹层

Andarilho · 2034 palavras · Português

【Ela · Protagonista, Lin Suqiu】

Quando o despertador tocou pela segunda vez, eu já estava em pé diante do guarda-roupa havia dez minutos. Na mão eu apertava aquela calcinha de renda bege, a ponta do dedo percorrendo repetidas vezes o anel de acabamento em festonê delicado ao longo da borda. Vinte e nove anos — havia muito passara da idade de hesitar diante de uma calcinha. E, ainda assim, eu de fato hesitava. Não sobre qual usar, mas sobre usar ou não. Aquela ideia que eu havia revirado a noite inteira sob as cobertas não se dissolvera com a alvorada como eu supunha; ao contrário, ficara mais nítida, mais concreta, mais coceguenta. Ela se agachava fundo no meu baixo-ventre, chamando por mim uma vez após a outra.

【Ela · Protagonista, Lin Suqiu】

Dobrei a calcinha ao meio, depois de novo ao meio, num quadradinho pequenino — como quem dobra uma carta que ninguém jamais enviará. Então abri aquele bolso mais interno do forro da minha bolsa de trabalho, o que nem eu costumava me dar ao trabalho de usar, enfiei-a ali e fechei o zíper. Só esse único gesto — silencioso, ágil, em menos de três segundos. E, no entanto, ouvi meu próprio coração falhar uma batida e, em seguida, recomeçar a contar num ritmo atrapalhado e excitado. No instante em que o forro da minha saia lápis encontrou minha pele, prendi a respiração. Nada nos separava. O tecido deslizou centímetro a centímetro sobre meu traseiro, sobre o alto das minhas coxas e, por fim, na junção entre minhas pernas, roçou de leve — frio, escorregadio, direto. Segurei-me na porta do guarda-roupa e fiquei ali três segundos antes de ousar dar um passo.

【Ela · Protagonista, Lin Suqiu】

A mulher no espelho estava, como sempre, perfeitamente decente. A blusa passada sem um único vinco, abotoada até o segundo botão, o cabelo preso num coque impecável, o batom naquele tom de rosa-nude que ninguém olharia duas vezes. Meus colegas me chamavam em segredo de o livro-texto — postura padrão, emoções padrão, até o almoço comido de modo padrão. Mas, sob a saia do livro-texto, neste momento, não havia nada, nem uma única coisa a mais. Faço depilação com cera há três anos, uma vez a cada quatro semanas, sem nunca pular, e ali embaixo é liso como porcelana esmaltada, sem poupar sequer o mais fino dos pelinhos. Hoje, essa lisura, pela primeira vez, não tinha nada a cobri-la. No instante em que uma brisa atravessava a barra da saia, eu conseguia sentir, claríssimo, minhas duas dobras carnudas, cheias e levemente revertidas, coladas ao forro, abrindo e fechando conforme eu andava, como uma boca respirante e úmida escondida ali.

【Ela · Protagonista, Lin Suqiu】

O metrô estava lotado, corpo contra corpo. De costume, é essa distância íntima que eu mais detesto, ser espremida por estranhos, mas hoje uma calma absurda brotou em mim — nenhum deles sabia. Bem ao lado dos cotovelos deles de terno, na borda de sua visão enquanto rolavam o celular de cabeça baixa, estava uma mulher completamente nua sob a saia. Esse segredo era como uma roupa de baixo invisível, mais íntima do que qualquer peça, envolvendo-me de dentro para fora, justa por todo o corpo. O vagão sacudiu, minhas pernas fraquejaram e, no instante em que apertei as coxas uma contra a outra, aquelas duas dobras carnudas foram comprimidas pelas próprias coxas e deixaram escorrer um pouco daquela lubrificação morna. Meu rosto ardeu num rompante e logo fixei o olhar no meu próprio semblante plácido e sem ondulações no vidro do vagão — veja, que serenidade. Serena como se nada estivesse acontecendo.

【Ela · Protagonista, Lin Suqiu】

Entrar na empresa significava passar o crachá, cruzar a recepção, acenar e sorrir bom dia para três pessoas. Fiz cada parte disso, a voz gentil, a curva do sorriso precisa. “Bom dia, dona Lin.” O estagiário, o pequeno Zhou, carregando uma pilha de documentos, deu passagem de lado para eu entrar primeiro no elevador, todo cortesia. Sorri para ele e disse obrigada. As portas do elevador se fecharam, restando só eu, o sorriso ainda pendurado no rosto, enquanto eu pressionava a mão de leve no baixo-ventre — ali embaixo, pulsava quente, batida após batida. Nunca havia sentido meu rosto decente e o corpo sob essa decência tão distantes um do outro, e ao mesmo tempo tão colados.

【Ela · Protagonista, Lin Suqiu】

Sentar. Este foi o primeiro teste de verdade do dia. Como sempre, uma mão alisando a barra, a outra escorando a beirada da mesa, baixei-me devagar. Mas, desta vez, não havia aquela camada de tecido para me proteger a pele do assento. O frio do couro sintético se imprimiu direto em mim, com apenas o fino forro da saia entre nós, o que era quase o mesmo que nada. Enrijeci por um segundo, depois assentei devagar o peso. A carne macia foi comprimida e levemente aberta pelo meu próprio peso, rente ao assento. Apertei as pernas — ali embaixo puxou-se um fio invisível, viscoso, e então se rompeu. O dia inteiro eu teria de ficar sentada assim. Em reuniões, redigindo propostas, respondendo e-mails, fingindo ser a impecável Lin Suqiu. E essa boca ensopada sob minha saia me faria companhia, lembrando-me a cada segundo sem pausa: hoje, você não está usando nada.

【Ela · Protagonista, Lin Suqiu】

Não havia reuniões naquela manhã, então me preguei à minha mesa. Mas, quanto mais silêncio, mais nítida ficava a sensação. O ar frio do ar-condicionado subia pelo vão embaixo da mesa, indo direto para debaixo da minha saia, lambendo gelado aquela faixa de pele sem um único pelo para protegê-la. Minha pele se arrepiou e minhas pernas se juntaram sozinhas. Mas, quanto mais eu as juntava, pior ficava — a carne macia do lado interno das coxas se comprimia, e a fenda bem no meio era empurrada a fechar-se ainda mais apertada, as pétalas cheias coladas umas às outras, roçando, e aquele frescor que o ar-condicionado erguera era, num piscar, cozido pelo próprio corpo num calor viscoso. Eu encarava a planilha na tela sem absorver um único número, sentindo apenas que estava, pouco a pouco, silenciosamente, irremediavelmente ficando molhada.

【Ela · Protagonista, Lin Suqiu】

O celular vibrou uma vez na gaveta. Era aquele lugar anônimo — um círculo de exibicionismo com apenas uma sequência de codinomes, sem rostos e sem nomes, no qual eu tropeçara por acaso meio ano atrás e do qual nunca mais saíra. Ali dentro ninguém sabia quem eu era, e eu não sabia quem era ninguém. Nós simplesmente púnhamos, cruas, em palavras, aquelas partes de nós que não podiam ver a luz, observando uns aos outros, incendiando uns aos outros. Enfiei o celular no fundo da gaveta, o brilho da tela suficiente apenas para eu sozinha ver. “Hoje eu fiz mesmo”, digitei, a ponta dos dedos um tanto trêmula, “no trabalho, nada por baixo da saia.” A resposta veio quase na hora: “Sentada? Está molhada?” Encarei aquelas duas perguntas, a garganta se apertando. Do outro lado da baia, atrás do divisória, sentava-se a dona Wang do Financeiro, conciliando contas com um cliente ao telefone em voz macia, a menos de dois metros de mim. Apertei as pernas um pouco mais e respondi: “Na cadeira agora mesmo. Já molhada.”

【Ela · Protagonista, Lin Suqiu】

Depois de digitar aquela linha, mal ousei erguer os olhos. Mas, quando finalmente os levantei, o escritório ainda era o mesmo escritório — o teclar, o barulho da impressora, a batida leve de alguma garrafa de água na mesa, tudo como sempre. Ninguém olhava para mim, ninguém sabia. Era justamente esse “ninguém sabe” que puxou até o limite absoluto aquela corda no fundo do meu baixo-ventre, a que vinha sendo chamada o tempo todo. Virei o celular de bruços na gaveta, recoloquei as duas mãos comportadas no teclado, a coluna ereta, o sorriso de prontidão. Naquele instante compreendi de repente: a parte mais mortal deste jogo nunca foi tirar algo, e sim que, depois de tirar, ainda era preciso interpretar a impecável Lin Suqiu, sem falhar uma batida, até a hora de sair. E eu tinha apenas começado.