[Ela·Su Wan] Quando as colegas de quarto me chamavam de “recatadinha”, eu sempre sorria e puxava a franja para baixo, cobrindo metade do rosto. Tenho vinte e um anos, curso o terceiro ano da faculdade, minhas notas nas matérias técnicas ficam sempre entre as cinco primeiras, nunca falto à aula, sento na primeira fila e faço anotações mais caprichadas que qualquer um. Essa é a Su Wan que eles enxergam — quieta, limpa, falando tão baixo como se tivesse medo de acordar alguém. Ninguém sabe que, sob essa casca, se esconde uma coisa que nem eu mesma tenho muita coragem de encarar de frente.
[Ela·Su Wan] Meu corpo não é normal, não é normal desde há muito tempo. Os outros sentem um toque e não reagem, eu não consigo. Quando o metrô está apinhado de gente e o braço de um estranho apenas encosta nas minhas costas por cima do tecido, uma onda de arrepio sobe por toda a minha coluna, uma pele de galinha invisível se levanta, e minhas coxas se apertam sem que eu queira. Num elevador cheio, de costas para um monte de olhares desconhecidos, meu rosto fica ardendo de vermelho, mas o mais vergonhoso é que — no ponto mais profundo do corpo, naquele lugar que não quero admitir, tudo se contrai discretamente e fica um pouco molhado.
[Ela·Su Wan] Alta sensibilidade — mais tarde encontrei essa palavra na internet, parecia me explicar e ao mesmo tempo me condenar. A sensibilidade dos outros é medo de cócegas, de barulho, de frio. A minha é — quanto mais inadequada a situação para reagir, mais o corpo me traí. Quanto mais silenciosa a biblioteca, quanto mais séria a ocasião, quanto mais olhares de estranhos, mais aquela parte de baixo desobedece. Guardei isso a sete chaves, guardei por tantos anos, transformei num segredo que só ouso abrir à noite.
[Ela·Su Wan] Depois que saí do alojamento e aluguei um quarto individual fora do campus, o segredo finalmente ganhou um quarto só dele. Era uma quitinete voltada para o oeste; à tarde a luz do sol entrava de viés e deixava a parede inteira reluzente. Comprei um espelho quase da minha altura e o encostei na parede. Na primeira vez em que me despi diante dele até ficar só de roupa íntima, fiquei encarando a mim mesma no espelho por muito tempo — aquela Wan recatadinha havia sumido, e no espelho estava uma mulher que eu não reconhecia, mas que era estranhamente familiar.
[Ela·Su Wan] Comecei, nas tardes em que não havia ninguém, a vestir aquilo que eu jamais ousaria em outra hora. Uma saia plissada tão curta que mal cobria a linha das nádegas; bastava me inclinar um pouco e no espelho já se via aquela curva perigosa na barra da saia. Lá embaixo eu me mantinha sempre bem limpa, sem um único pelo, lisa como um jade macio e morno; ao vestir uma calcinha clara, dava para adivinhar aquela fenda delicada e fechada. Eu me virava devagar diante do espelho, imaginando que não estava num quarto vazio, e sim caminhando por uma rua cheia de gente — a saia levantada por uma ponta pelo vento, e o olhar de um homem desconhecido grudado na base nua da minha coxa, subindo aos poucos.
[Ela·Su Wan] Bastava imaginar aquele olhar para minha respiração se perder. Eu sentia claramente o interruptor dentro do corpo ser acionado: os bicos dos seios endurecendo dentro do top fininho, empurrando para fora dois pontinhos; lá embaixo começava a esquentar, a umedecer, os dois pedaços de carne lisos aos poucos ingurgitando, inchando de leve, abrindo uma frestinha. A vergonha e o prazer subiam ao mesmo tempo; metade de mim queria imediatamente vestir uma roupa grossa e voltar a me esconder na casca, e a outra metade desejava, avidamente — e se alguém realmente visse, como seria?
[Ela·Su Wan] Eu admiti. Naquela mesma tarde, diante daquela mulher no espelho cujo sexo já começava a exsudar umidade, admiti pela primeira vez, no fundo do coração, aquele termo: cadela do contraste. De dia quanto mais recatada, à noite mais devassa; diante das pessoas quanto mais puxava a franja para me esconder, atrás delas mais desejava ser desvendada, ser fitada naquela fenda lisa, ser avaliada e cobiçada. Esse reconhecimento foi como uma agulha cravada no ponto mais fundo da vergonha, mas o que ela furou foi um prazer dóce e formigante — no fim, o que mais me excitava era esse meu próprio contraste que não pode ver a luz.
[Ela·Su Wan] Sentei-me no tapete, bem de frente para o espelho, levantei a saia curta até a cintura e abri os joelhos devagar. No espelho, vi que aquela minha fenda delicada, antes fechada, já reluzia de umidade; os dois pedaços de carne tenros viravam-se de leve para fora, revelando no meio um pouco de vermelho mais profundo. Quando estendi a mão, os dedos tremiam — não de medo, mas daquela vergonha quase incendiária de fazer aquilo me olhando fazer. Na primeira vez em que a ponta do dedo tocou aquele pequeno botão intumescido de sangue, meu corpo inteiro deu um pulo como se levasse um choque, e da garganta escapou um gemido macio e viscoso, estranho até para mim.
[Ela·Su Wan] Enquanto esfregava aquele botãozinho cada vez mais rígido, eu não ousava fechar os olhos, obrigava-me a olhar no espelho. A olhar como a mocinha recatada se derretia em poça sob a própria mão. Os dedos rodopiavam, cada vez mais rápido; lá embaixo a água era tanta que já escorregava, produzindo um leve som molhado, pingando aos poucos na palma, no tapete. Minha cabeça estava cheia daquelas fantasias: a saia curta se abrindo, incontáveis olhares de estranhos, ser prensada por trás, ser cobiçada enquanto alguém dizia “então essa mocinha recatada é tão cadela lá embaixo”. Eu ardia de vergonha, os olhos quentes, mas o corpo, honesto, se convulsionava em ondas empurrando para cima.
[Ela·Su Wan] Tentei enfiar um dedo. Por dentro era quente e apertado, as paredes internas abocanhando cada junta do meu dedo, sugando assim que entrava, produzindo um som escorregadio ao ritmo dos meus movimentos. Eu nunca soube que por dentro eu podia ser tão molhada, tão macia, tão ávida por algo que a preenchesse. Enquanto entrava e saía com o dedo, com a outra mão eu apertava meu bico do seio, rígido a ponto de doer; a mulher no espelho tinha o cenho franzido, a boca aberta sem conseguir fechar, o rosto tão vermelho que parecia querer sangrar — aquela era eu, aquela sim era a verdadeira eu.
[Ela·Su Wan] Quando o áuge chegou, eu estava quase arqueada, chorando. Lá embaixo, uma convulsão súbita mordeu com força meu dedo, uma corrente quente jorrou e transformou minha palma e o tapete num lamaçal. Desabei diante do espelho, ofegante, o corpo inteiro ainda tremendo, olhando aquela mulher de roupas em desalinho, o sexo em completa bagunça, a fenda lisa ainda se abrindo e fechando — e o que subiu no meu peito não foi arrependimento, mas uma lúcidez quase de alívio.
[Ela·Su Wan] Depois daquele dia, tardes assim viraram meu ritual fixo. Fui ficando cada vez mais ousada — vestindo uma camisola tão fina que era translúcida, sem fechar as cortinas, de pé junto à janela, fantasiando que alguém no prédio em frente estava me olhando; apoiando o celular de frente para o espelho para ver meu rosto ruborizado e aquela fenda que se abria e fechava. Mas espelho é espelho, e fantasia é fantasia. Quanto mais eu brincava, mais alto gritava aquele vazio dentro de mim pedindo para ser preenchido: eu queria olhares de verdade, mãos de verdade, uma coisa de verdade, escaldante, capaz de me abrir por completo e me penetrar até o fundo. Eu sabia para onde estava indo, e sabia que era só uma questão de tempo.