【Eu · Homem solteiro】Quinta-feira, quase onze horas, o celular acendeu num canto da mesa: «Irmão, está em Nanning?» Seis anos no meio, e o número de vezes que fui procurado no privado por um casal cabe numa só mão; endireitei o corpo quase que imediatamente. Abri o avatar: era o irmão P e a cunhada P, um casal viajante com alguma fama no meio, filmando por onde passam, e nas avaliações nenhuma dizia que os dois eram encenados. O irmão P disse que aterrissariam em Nanning amanhã e queriam achar alguém local para dar início a toda a viagem por Guangxi. Fiquei encarando aquela linha por um bom tempo antes de ousar responder um «Estou».
【Irmão P · Marido】Essa mensagem eu mandei escondido dela, que ainda estava secando o cabelo no banheiro. Escolher Nanning não foi ao acaso, foi porque observei esse irmão por meio ano — o que ele expõe não são conquistas, é bom senso, e nos comentários aquelas irmãs dizem que ele é «firme». Casado com ela todos esses anos, fui aos poucos entendendo que tipo de homem eu sou: gosto de vê-la se soltar nas mãos de outro homem, gosto daquela tensão de algo arranjado por minhas próprias mãos e, ao mesmo tempo, fora do meu controle. Depois de trocar fotos com ele, mandei um vídeo curto que ela gravou antes, os gemidos dela arrastando as notas finais. No instante em que apertei enviar, algo indefinível se revirou no meu peito, metade vaidade, metade uma amargura que eu nunca admito.
【Cunhada · Esposa】Quando ele me contou, eu estava diante do espelho enxugando a água do corpo. «Achei um homem solteiro em Nanning, amanhã.» O tom era casual, como quem diz que reservou tal restaurante. Fiz um «hum», mas o coração afundou meio compasso de repente. Ao ver a foto, aproximei bem o rosto — jovem, sorriso um pouco tímido, não daquele tipo oleoso que eu temo. Mas quanto mais assim, mais eu me apavorava: cidade estranha, pessoa estranha, um par de mãos estranhas, amanhã pousariam sobre mim. Apertei mais a toalha, as pontas dos dedos frias, mas a virilha esquentando sem controle, como se o corpo tivesse aceitado um passo antes de mim.
【Eu · Homem solteiro】No dia seguinte, no trabalho, não consegui absorver uma única palavra, trocando mensagens esparsas com o irmão P enquanto escolhia hotel, mudando localização, tipo de quarto e horário de check-in três vezes. Eles tinham combinado aterrissar às nove, mas o voo anterior atrasou, e só às dez e meia pegaram táxi no aeroporto de Wuxu. Fiz o check-in antecipado, apertei o segundo cartão do quarto na palma e sentei-me no sofá dos fundos do lobby à espera, o suor da palma esquentando o cartão. O primeiro encontro e o quebrar do gelo sempre são a parte mais saborosa desse tipo de arranjo — você não sabe quem vai entrar no instante em que a porta se abrir.
【Irmão P · Marido】O avião taxiou por muito tempo na pista, e ela ficou o tempo todo apertando minha mão, as unhas cravando na palma uma a uma, sem falar. Eu sabia que ela estava nervosa, e quanto mais nervosa, mais ardia aquele fogo dentro de mim — isso é algo que ninguém mais me dá. Saindo do aeroporto, de táxi, as luzes noturnas de Nanning recuavam pelo caminho, o cheiro de bambu fermentado e das barracas de lanche da madrugada entrando pela fresta da janela. Na porta do hotel, ela ajeitou a gola e respirou fundo. Carreguei a bagagem, meio passo atrás, olhando as costas dela seguirem à frente. Cada passo daqui em diante eu já tinha ensaiado na cabeça: primeiro deixar que se conheçam, eu recuo para o lado, entrego-a por um trecho, e depois a retomo no momento em que ela estiver mais satisfeita. Mas, chegado o momento, percebi que tudo o que ensaiei foi para conter aquela pontada de amargura.
【Cunhada · Esposa】No elevador, olhei a mim mesma no espelho, retoquei o batom duas vezes e ainda achei o rosto pálido. As portas se abriam e fechavam andar após andar, o corredor comprido sem fim. Ele passou o cartão na frente, eu meio passo atrás, os saltos altos sem fazer nenhum som no tapete, o que só fazia meu coração parecer bater mais alto. Ao chegar à porta do quarto, quase quis puxar a manga dele e dizer que deixasse pra lá — mas a porta abriu, a luz amarelo-quente, um homem desconhecido levantou-se do sofá. Ele também estava nervoso, percebi de imediato, e isso me deu alívio. Afinal, não era só eu tremendo.
【Eu · Homem solteiro】A fechadura fez «cliqui», o irmão P entrou primeiro, um tipo cavalheiro e afável, a palma seca ao apertar a mão, o sorriso deixando a gente à vontade, tão agradável de olhar quanto no vídeo. Levantei-me para cumprimentar, trocamos duas frases sobre o atraso do voo e sobre o trânsito, o clima mais brando do que eu imaginava. E então, a cunhada P. Um par de pernas longas, brancas e retas, sobre saltos altos, entrou passo a passo na luz. Por melhor que seja a foto, não se compara à pessoa de verdade diante de você. Mais bonita que na tela, aquele peso oculto sob o rosto juvenil impossível de esconder, os olhos formando duas meias-luas ao sorrir, acenou de leve para mim, como se já me conhecesse.
【Cunhada · Esposa】O jeito dele de se levantar tinha algo de desajeitado, e por isso mesmo era bonito. Acenei para ele, o sorriso genuíno — todo o pânico acumulado no caminho, no instante em que enxerguei bem seus olhos, de repente mudou de direção. Não que o medo tivesse sumido, mas naquele medo se misturou outra coisa: um formigamento de quem sabe muito bem o que vai acontecer e cujo corpo já começou a ansiar em segredo. Eu sentia as orelhas esquentarem, e da clavícula para baixo também começar a esquentar. Pousei a bolsa na mesa, o gesto lento, para que ele me olhasse por mais um instante — essa intenção surpreendeu até a mim mesma.
【Irmão P · Marido】Eu a via entrar na luz, via o jeito em que os olhos desse irmão, que eu encontrava pela primeira vez, ficaram cravados nela, e a vaidade voltou a subir no meu peito: esta é a minha esposa, fui eu quem a trouxe, fui eu quem fez tudo isso desta noite ser possível. Mas logo em seguida veio também aquela coisa sem nome — o arco do sorriso que ela deu a ele há pouco tinha um algo a mais que eu não conseguia decifrar, comparado ao sorriso que me deu no aeroporto. Pendurei o casaco, servi água aos dois, a voz firme, como um homem que arranjou tudo em ordem. A porta se fechou atrás de mim, «cliqui», e neste quarto de hotel de uma cidade estranha restaram só nós três adultos, e uma noite inteira. O estranho é que, neste momento, o que pesava mais no meu coração era, curiosamente, uma gratidão indizível por ele.