[Ela - Voz Interior]
Faço trinta e quatro este ano, meço um metro e sessenta, peso oitenta e cinco jin e trabalho como supervisora administrativa numa empresa nem grande nem pequena. As pessoas que me conhecem são estranhamente unânimes ao me descrever: correta, educada, doce, mas fria. As meninas da recepção me chamam de Bela de Gelo pelas costas, dizendo que quando eu sorrio meus lábios são doces, mas meus olhos não têm calor. Sei como elas me veem — uma mulher de maquiagem leve, blusas passadas sem um único vinco, uma voz que nunca sobe nem desce, como um copo de água fervida à temperatura exata e ainda assim sem sabor algum. Ninguém sabe o que há por baixo dessa casca. Nem meu marido. Estudei nos Estados Unidos, passei uns bons anos sozinha lá fora, e nesses anos soltei tudo o que havia de regrado em mim, peça por peça, até não sobrar nada. Depois que voltei, recolhi tudo de novo, peça por peça, e vesti outra vez essa casca correta. Mas aquele poço por baixo da casca nunca secou, nem uma única vez.
Quando exatamente o poço começou a vazar, não sei dizer. Provavelmente depois dos trinta, quando os dias ficaram planos como uma folha de papel em branco. Meu marido ocupado, eu ocupada, e éramos como duas linhas paralelas que nunca se perturbam, educados como colegas de apartamento dividindo o aluguel. Foi numa dessas madrugadas de insônia que vi pela primeira vez aquelas palavras — morte social — num grupo anônimo na internet que não tinha nome, só uma sequência de códigos.
Ninguém no grupo usava nome real; os avatares eram blocos de cor aleatórios, mas as coisas que se falavam eram cada uma mais estarrecedora que a outra. Alguém disse que o mais excitante não é fazer, é quase ser pego. Alguém postou uma descrição própria: enviar sua foto mais íntima àquela pessoa da lista de contatos que jamais deveria vê-la — um colega, um chefe, um antigo colega de escola com quem não fala há anos — e então cancelar o envio no segundo antes de a pessoa abrir. Se o cancelamento der certo, nada aconteceu; mas naquela fração de segundo, a sua vida inteira fica pendurada à beira de um penhasco. Eles chamavam isso de jogo da morte social. Fiquei encarando aquele bloco de texto, os dedos gelados, mas o coração batendo como um tambor de guerra contra as costelas. Eu sabia que não devia estar lendo aquilo, mas não conseguia desgrudar os olhos de uma única palavra.
[O Estranho - Aquele que Dá as Ordens]
Há bastante mulher no grupo, indo e vindo, a maioria só testando as águas, se assustando com si mesma, e depois nunca mais aparecendo. Ela era diferente. Ficou espreitando por muito tempo, sem dizer uma palavra, mas estava lá. As que espreitam são as mais tentadoras — quem de fato guarda algo por dentro nunca tem pressa de falar. Naquele dia alguém puxou o assunto do jogo da morte social, e reparei numa conta silenciosa de avatar cinza que ficou pairando sob aquela mensagem por muito, muito tempo, tanto que o balãozinho de digitação surgia e recuava, uma vez após a outra. Não fiz nada além de enviar uma mensagem privada: “Você quer tentar, mas não tem coragem, não é.” Nenhuma resposta por muito tempo. Depois, cinco palavras: “Como você sabe disso.” Eu ri. Jogo isso há muitos anos e, mesmo através de uma tela, consigo farejar aquela fominha nos ossos de uma mulher que nunca foi saciada. As como ela, quanto mais compostas e impenetráveis de dia, mais bonitas ficam quando o fio arrebenta. Não tenho pressa; tenho toda a paciência do mundo, e fio por fio vou puxá-la para fora daquele poço fundo.
[Ela - Voz Interior]
Aquela frase que ele me mandou na mensagem privada foi como uma agulha, cravando com precisão exatamente no ponto que eu não ousava mostrar a ninguém. “Você quer tentar, mas não tem coragem.” — e era verdade. Eu segurava uma xícara de chá havia muito frio, sentada na sala escura como breu, meu marido dormindo profundamente no quarto, a respiração cadenciada atravessando a porta. Encarei aquele código estranho na tela, os dedos trêmulos digitando, apagando e digitando de novo. Disse a mim mesma que era só fechar, sair do grupo, bloquear, ir trabalhar amanhã como sempre e ser meu copo de água insossa. Mas não fiz isso. Respondi a ele. Como se algo que eu tivesse segurado por muitos anos finalmente encontrasse uma saída.
Ele não me exigiu nada de imediato. Só perguntou. Perguntou meu nome — eu disse que me chamasse do que quisesse. Perguntou minha idade, o que eu fazia. Respondi cada coisa, como uma confissão. Ele perguntou: “Quem você é durante o dia?” Encarei aquela pergunta por muito tempo e então digitei: “Correta. Educada. Ninguém sabe o que penso.” Ele respondeu: “E de noite?” Meus dedos congelaram no ar, o coração acelerado a ponto de me deixar aflita. Quem era eu de noite? Não tive coragem de responder. Ele também não pressionou, apenas disse, sereno: “Tudo bem, vamos com calma. Primeiro, me mostre você mesma.”
[O Estranho - Aquele que Dá as Ordens]
O primeiro passo é sempre o mais difícil, e também o mais decisivo. Não quero que ela fotografe o rosto, não quero que fotografe aquelas coisas obviamente bem arrumadas — esse tipo de foto é para os outros, é a casca. Quero que fotografe uma que pertença a ela, a que se esconde por baixo da casca. Enviei: “Sem rosto, sem pose. Do jeito que você está agora, assim mesmo.” Depois de muito tempo, chegou uma foto. Luz fraca, uma mulher sentada na beira da cama, vestindo uma camisola fina de algodão de cor lisa, de alcinha, ombros estreitos, clavículas bonitas. Aquela camisola era muito fina, fina o bastante para dar para ver que ela não usava nada por baixo — não uma provocação proposital, mas hábito, o jeito verdadeiro e relaxado de quando se está sozinha. Os seios dela não são grandes, o tecido da camisola caindo frouxo, mas justamente por ser fino, porque por baixo estava vazio, as duas pontinhas empurravam o tecido em dois biquinhos discretos, mas impossíveis de esconder. Encarei aquela foto e já sabia. Essa mulher valia o meu tempo.
[Ela - Voz Interior]
Quando tirei aquela foto, minha mão não parava de tremer. Eu não usava sutiã — em casa quase nunca uso; meus seios são pequenos, e usar só aperta e incomoda. Quando estou sozinha, já me acostumei a buscar o conforto. Aquela camisola era a mais comum, cor de creme, macia de tanto lavar, mas naquele instante era como se simplesmente não existisse. Apontei a lente para mim e apertei o botão, e a mulher na tela me era muito estranha: não a Bela de Gelo do dia, mas um eu que nunca deixei ninguém ver — sentada sob a luz fraca, nada por baixo de uma camisola fina, dois pontos empurrando o tecido no peito. Enviei a foto quase de olhos fechados. No segundo em que enviei, a vergonha subiu como água quente, ardendo do rosto até o pescoço, mas ao mesmo tempo algo lá no fundo do meu ventre se contraiu de leve, sem que eu pudesse controlar.
Ele respondeu bem devagar, tão devagar que quase pensei que ele me achasse pouca coisa e fosse embora. Bem quando eu estava prestes a desmoronar, chegou uma linha: “Você não usa sutiã em casa.” Não era uma pergunta. Encarei aquelas palavras, o rosto ardendo ainda mais. Como ele sabia — claro que dava para perceber, aquela camisola não escondia nada. Admiti: “Hum.” Ele respondeu: “Boa menina. Este é o verdadeiro você. Aquela casca correta do dia não serve para nada aqui comigo.” Não sei por quê, mas ao ser desmascarada por uma frase assim de um homem totalmente desconhecido, não só não tive vontade de fugir, como senti, ao contrário, um relaxamento perigoso, o de finalmente ser vista.
[O Estranho - Aquele que Dá as Ordens]
Domesticar alguém não depende de forçar, e sim de ir devagar. Primeiro deixei que ela se acostumasse a tirar a casca diante de mim, a expor seu eu verdadeiro para eu ver. Ao longo de alguns dias, as coisas que ela me mostrava foram ficando cada vez mais — a camisola sem sutiã, o cabelo molhado enrolado na toalha recém-saída do banho, o jeito como ela se enroscava no cobertor no meio da noite. Comentei cada uma, sem elogiar nem menosprezar, só apontando o que ela mesma não havia notado: “Aqui na sua clavícula há uma pintinha.” “Seus seios são pequenos, mas a cor das suas aréolas é tão limpa — você sabia disso.” “Quando você não usa sutiã, o peito balança ao caminhar — já reparou.” Descrevi para ela, centímetro a centímetro, esse corpo que ela mesma achava plano demais, descrevi melhor do que ela própria o conhecia. Mulher nenhuma resiste a isso. Quando um homem entende o seu corpo melhor do que você, você já começou a querer entregar esse corpo. E só então trouxe à tona o jogo da morte social.
[Ela - Voz Interior]
Quando ele trouxe à tona o jogo da morte social, a corda dentro de mim se retesou com um zumbido. Ele quis que eu enviasse uma foto que eu tinha acabado de tirar — justamente aquela em que eu não usava nada por baixo da camisola fina, com os pontos empurrando o tecido no peito — a um conhecido real e existente na minha lista de contatos, e então cancelasse o envio antes de a pessoa abrir. Ele disse: “Você não queria saber quem é de noite? Com essa única jogada, você vai saber.” Recusei, disse que teria de estar louca para fazer isso, que sou uma pessoa com trabalho e família, e que, se o cancelamento falhasse, minha vida inteira estaria acabada. Ele não se irritou, apenas respondeu: “É justamente por isso que é excitante. Naquela fração de segundo em que você aposta até a própria vida, você renasce. Fazer ou não, você mesma decide.”
“Você mesma decide” — são justamente essas palavras as mais cruéis. Se ele me forçasse, eu poderia recusar de consciência limpa. Mas ele empurrou a decisão de volta às minhas mãos, exatamente como estava, sem me deixar culpar ninguém. Naquela noite, enfiada no cobertor, folheei a lista de contatos, descendo nome por nome. Meu dedo parou num antigo colega de escola com quem eu quase nunca falava — um homem, com quem certa vez houvera um algo vago e incerto no ar; depois cada um constituiu família, e havia muito aquilo se dissipara. Encarei o avatar dele, o coração acelerado como se fosse saltar pela garganta. Abri aquela foto, anexei na caixa de conversa, a ponta do dedo pairando sobre “enviar”, pairando por muito, muito tempo. A razão gritava “não” na minha cabeça, mas minha outra mão já havia se esgueirado furtivamente para dentro do cobertor.
[O Estranho - Aquele que Dá as Ordens]
Não a apressei. Sabia que ela estava fazendo, porque de repente ela ficou sem som do lado dela — aquele silêncio de respiração suspensa é mais claro do que qualquer resposta. Sentei aqui do meu lado da tela, bem seguro. Uma pessoa como ela, tendo se contido por mais de trinta anos, uma vez que decide pôr o pé para fora do penhasco, não consegue mais recolhê-lo. Enviei só uma linha: “Lembre-se, um segundo antes de ele abrir. Não deixe a mão tremer.” E então esperei. Esperei que uma mulher impenetrável e correta de dia apostasse a vida inteira na mesa de jogo, na calada da noite, por aquela fração de segundo de descontrole. Isso me deixa mais duro do que qualquer foto de nu. O que eu quero nunca foi algo tão simples quanto o corpo dela; o que eu quero é ver ela arrancar aquela casca com as próprias mãos, camada por camada, e me mostrar.
[Ela - Voz Interior]
Apertei enviar. Aquela foto disparou com um zunido, e a mensagem que “eu” enviara surgiu na caixa de conversa, a miniatura minúscula, mas eu sabia o que havia nela. Aquela fração de segundo — nunca na vida vivi uma fração de segundo assim. O tempo se esticou infinitamente; eu ouvia o próprio sangue rugindo nos ouvidos, sentia o coração batendo dolorido a cada golpe, e a vista até escureceu um pouco. Bem no ponto crítico em que eu estava prestes a sufocar, apertei com força aquela mensagem — “cancelar envio”. Uma linha de texto cinza saltou na tela: “Você cancelou o envio de uma mensagem.”
Deu certo. Nada aconteceu. O avatar dele estava apagado, não aberto, não lido. Desabei na cama, tremendo por inteiro como uma peneira, o suor frio encharcando a camisola, mas lá embaixo — de tanta vergonha eu queria chorar — lá embaixo eu já estava encharcada havia muito, encharcada de um jeito absoluto, tudo por causa daquela fração de segundo de descontrole quase mortal. Eu nunca soube que o medo pudesse virar prazer de forma tão direta. Quase por instinto levei a mão para baixo e me toquei por cima da camisola fina, e ali já estava um lamaçal indescritível. Contei isso a ele. Ele respondeu: “Agora, ponha a mão para dentro. Você só para quando eu mandar parar.” Obedeci. Naquela noite, sob as ordens frase a frase de um estranho através de uma tela, entreguei-me por completo pela primeira vez.
Ele me fez abrir as pernas. Fez-me usar dois dedos, deslizando devagar desde aquela pérola pequenina e já inchada lá em cima, descendo até aquele lugar que eu sempre mantinha limpinho e lisinho, fechado na fenda. “Sentiu,” ele digitou, “como você está aí embaixo agora.” Eu estava envergonhada demais para falar, mas ele não me permitia o silêncio, obrigando-me a descrever para ele palavra por palavra — molhado, quente, escorregadio ao menor toque, as duas pétalas finas afastadas pela ponta do dedo, a água brotando de dentro. Eu nunca havia dito tais coisas a ninguém, nem ao meu marido. E, no entanto, a um estranho do outro lado da tela cujo rosto eu nem conhecia, confessei o meu eu mais vergonhoso, nas palavras mais explícitas, frase por frase.
Ele controlava o meu ritmo. Quando ia rápido demais, mandava eu parar, tirar a mão e deixá-la de fora, deixá-la até que lá embaixo ficasse tão vazio e ansioso que meus quadris se erguiam sozinhos contra o ar; quando ia devagar demais, mandava eu apertar mais. Foi assim, através da tela, que ele segurou o meu clímax na palma da mão, apertando e soltando à vontade. No fim, digitou só três palavras: “Pode agora.” Como uma condenada recebendo o perdão, meus dedos se moveram freneticamente, e aquela dormência retida por tempo demais explodiu do lugar mais fundo, disparando por todo o corpo. Enfiei o rosto no travesseiro e mordi com força a fronha para não soltar um grito — no quarto ao lado, meu marido dormia pesado. Passado o clímax, desabei sobre os lençóis encharcados, as lágrimas escorrendo sem som. Não sei se eram lágrimas de vergonha ou de alívio. Só sei que aquele eu que trancafiei por tantos anos foi, esta noite, libertado deste corpo correto por um estranho.