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Álibi Depois do Expediente

Uma repórter investigativa do turno da noite e o diretor de segurança que traiu sua confiança precisam compartilhar um álibi — e uma sala de arquivo trancada — antes que uma gravação roubada destrua os dois.

Publicado 2026-08-03 · 10 min de leitura

Às 2h13 da madrugada, a redação estava vazia, a não ser por um telefone morto, um arquivo desaparecido e o homem em quem Elise prometera a si mesma nunca mais acreditar.

Tensão no trabalhoMistérioSegundas chances

01

Duas e treze

Elise Moreno sabia o minuto exato em que sua fonte silenciou, porque os números vermelhos do relógio da redação tinham se queimado em sua memória. 2h13 da madrugada. Às 2h14, a gravação criptografada capaz de derrubar um esquema de propina da prefeitura havia sumido de seu laptop, e o escritório ao redor não passava de monitores apagados e do zumbido de um prédio fingindo dormir.

— Você não devia estar aqui sozinha. — A voz veio do corredor, baixa e familiar o bastante para doer.

Jonah Reed estava parado na porta, com chuva no casaco e três anos de perguntas sem resposta no rosto. Diretor de segurança, agora. Um dia, o homem que decorara como ela tomava o café e depois deixara a cidade sem um adeus.

— Não estou sozinha — disse Elise, voltando-se para o laptop morto. — Estou com a única pessoa neste prédio capaz de ver cada passagem de cartão de acesso... o que faz de você meu álibi ou meu suspeito. Escolha rápido.

02

A sala de câmeras

As imagens contavam uma mentira bem-arrumada. Elise entrando sozinha na sala dos servidores à 1h58. Jonah chegando exatamente três minutos depois, sem nada além de um café pela metade. Quem roubara a gravação usara os antigos códigos de acesso dos dois — códigos que só duas pessoas no mundo haviam compartilhado — e incriminara ambos num único movimento elegante.

— Alguém quer nos amarrar um ao outro — disse Jonah, estudando as telas. — Nós dois, especificamente.

— Então fizeram a lição de casa — disse Elise. — Somos muito bons em destruir um ao outro. — Ela viu o maxilar dele se contrair e se recusou a sentir pena. Raiva era mais fácil de carregar num prédio escuro do que a outra coisa por baixo dela.

Seguiram os registros de invasão andar por andar, discutindo naquela voz abafada de quem lembra coisas demais — e, no quarto andar, ele segurou o pulso dela antes que ela pisasse num ponto cego de câmera que já não era cego. A mão dele era quente. Nenhum dos dois se moveu por um segundo a mais que o devido.

03

A sala de arquivo

A trilha terminava na sala de arquivo, e a porta se fechou atrás deles com um clique, numa fechadura que nenhum dos dois cartões abria. Prateleiras de matérias mortas. Uma única lâmpada engaiolada. Nenhuma câmera — a única sala do prédio sem elas, o que significava que quem os encurralara ali sabia exatamente o que estava fazendo.

— Quarenta minutos até a equipe de limpeza — disse Jonah, olhando o relógio. — Depois disso, viramos manchete.

— Por que você foi embora? — Saiu dela num tom seco e repentino, uma pergunta com três anos de fio cortante. Ele ficou imóvel. Depois, em voz baixa: — Porque o homem que ameaçou você me mandou a sua agenda. As suas fechaduras. O endereço da sua mãe. Ir embora foi o preço para que ele parasse de vigiar você — e desde então passei cada dia tentando encontrá-lo e comprar aquele adeus de volta.

A distância entre eles se fechou sem que nenhum dos dois decidisse. Ela o beijou primeiro — furiosa, inacabada — e ele respondeu como um homem que racionava desejo havia três anos. As costas dela encontraram as prateleiras; o casaco dele caiu no chão; os dedos dela abriram a camisa dele enquanto a boca dele mapeava o maxilar dela, a garganta, o vão sob a orelha que ele nunca tinha esquecido.

Ele tirou o suéter dela pela cabeça e parou — apenas olhou para ela sob a luz engaiolada, três anos de fome nus no rosto — até que ela o puxou de volta pelo cinto. — Não fique sentimental — avisou ela. — Tarde demais — disse ele, e se ajoelhou, arrastando o jeans pelas pernas dela, prendendo a coxa dela sobre o próprio ombro e lembrando-a com a língua exatamente por que ela nunca tinha conseguido odiá-lo direito. Ela mordeu o próprio pulso para ficar em silêncio e gozou mesmo assim, com força, os joelhos cedendo, as mãos dele a única coisa que a mantinha de pé.

Depois foi a vez dela de ser impiedosa. Empurrou-o contra a prateleira, abriu o cinto dele e o tomou na mão até a respiração dele se esfarrapar e a famosa calma do diretor de segurança rachar de ponta a ponta. Quando ele enfim a ergueu, as pernas dela enlaçando a cintura dele, e a desceu sobre si, os dois praguejaram com o encaixe — três anos, com força e em silêncio entre as matérias mortas, a poeira se desprendendo dos arquivos a cada estocada, os arquejos dela abafados contra o ombro dele, as mãos dele reaprendendo o corpo dela como quem reexamina uma prova.

Ela se despedaçou com o rosto enterrado no pescoço dele; ele veio segundos depois, prendendo os quadris dela para baixo com força suficiente para deixar marcas. Quando as pernas dela finalmente pararam de tremer, ele a manteve contra si sob a luz engaiolada, os dois destruídos e ofegantes — e a raiva tinha ido embora, e o que havia por baixo era pior, porque tinha sobrevivido a tudo.

04

O backup

Foi Elise quem se lembrou do servidor de backup esquecido — o rack-cemitério da redação, desconectado da rede havia anos, onde um antigo chefe de TI espelhara tudo por paranoia e nunca contara aos novos donos.

A gravação estava lá. O registro de invasão também, e o registro tinha um nome: o próprio diretor jurídico do jornal, guardião dos códigos de acesso antigos, pago generosamente para fazer o problema do prefeito desaparecer e incriminar dois fantasmas convenientes pelo roubo.

— Ele nos deu um álibi sem querer — disse Jonah, retirando o drive. — Ninguém finge ficar trancado numa sala que ele mesmo construiu.

— Guarde o romantismo — disse Elise, já escrevendo o lide de cabeça — mas a mão dela encontrou a dele no escuro e ficou ali até o elevador chegar ao andar da redação.

05

Edição da manhã

A matéria saiu ao amanhecer, com provas que dariam para duas assinaturas e um nome omitido. O de Jonah. Elise se recusou a transformar o homem que passara a noite inteira ao seu lado em dano colateral, resmungasse o que resmungasse o conselho de ética.

Lá fora, a cidade acordava molhada e dourada. Jonah esperava junto ao meio-fio com dois cafés e nenhuma promessa que não pudesse cumprir.

— Tem um lugar aqui na esquina — disse ele. — Sem câmeras. Doces horríveis. Eu queria te contar toda a verdade dos últimos três anos e, depois, queria nunca mais ir embora.

Elise olhou para o dia novo, depois para ele, e aceitou o café. — Comece pela verdade — disse. — Fique para o resto.

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