Ele nunca mandava duas seguidas

Capítulo 1四个月,一次都没有

Quietude Distante · 260 palavras · Português

Quero deixar isso bem claro, porque até hoje me parece um pouco inacreditável: nos quatro meses em que ficamos em contato, ele nunca, nem uma vez, antes de eu ter respondido, mandou duas mensagens seguidas. Nem uma vez. Não aquele “ah, e também—” de complemento, não um link que lhe ocorreu depois, não um “deixa pra lá, esquece que eu perguntei”. Nada. Ele mandava uma mensagem, e então esperava; se eu não respondesse, da próxima vez que eu tivesse notícias dele seria um ou dois dias depois, um assunto completamente novo, sem uma palavra sobre a mensagem anterior que ficara sem resposta.

Na primeira vez que percebi, achei que era educação. Na segunda, achei que era proposital. Na quinta, eu já estava quase enlouquecendo. No instante em que eu via uma mensagem dele, algo se apertava no meu peito — um leve aperto que eu não era bem capaz de admitir. Às vezes eu adiava de propósito a resposta, só para ver se ele iria atrás. Ele nunca ia atrás. E era justamente o fato de ele nunca ir atrás que me fazia querer responder mais depressa. Se aquilo era uma tática, era a tática mais discreta que eu já tinha visto.

Eu voltava sempre à mesma lógica: um homem não vai atrás ou porque não está interessado, ou porque é confiante o bastante para não precisar. E todo o resto nele — quando estava presente, estava de verdade presente — dizia que não era indiferença. O que deixava só a outra possibilidade. Contei isso a uma amiga, e ela disse: “Isso é só ter limites, não é?” Eu disse que, pela lógica, sim, mas não parecia limite, parecia estratégia. Ela disse que talvez fosse as duas coisas. Eu quis rebater, e não consegui.

O que aquilo fazia comigo é um pouco constrangedor dizer em voz alta: fazia cada conversa parecer um acontecimento. Quando você sabe que a outra pessoa não vai acrescentar nada, cada troca ganha uma sensação de completude — uma frase foi dita, você respondeu, aquilo era real, e depois vinha o silêncio. Nada daquela rolagem de madrugada em que alguém pega o celular e joga em você um monte de pensamentos soltos. Eu me flagrava relendo nossas conversas repetidas vezes, procurando o que ele de fato queria dizer, procurando a fresta entre o que foi dito e o que ficou por dizer.