【Ela · esposa】
No dia em que o marido partiu, ela o ajudou a dobrar a última camisa dentro da mala. Ele disse que seria no máximo um ano, que voltaria assim que a coisa se estabilizasse na empresa. Ela concordou na hora, achando que um ano não era nada. Tinha trinta e quatro anos, seis de casada, a vida como uma estrada estendida bem reta — ela nunca imaginou que a estrada de repente ficaria com um trecho enorme vazio.
【Ela · esposa】
Um ano e quatro meses. A estação das chuvas dessa cidade ao sul do rio veio e foi embora, e o apartamento é tão grande que dá para ouvir o eco. Ela se acostumou a comer sozinha, a deixar a TV ligada só para ter algum som no quarto, a acordar de madrugada e esticar a mão até o lado gelado e liso da cama — o edredom dobrado com perfeição, como se nunca tivesse havido uma segunda pessoa ali dormindo. Nas chamadas de vídeo, o fundo dele estava sempre em outro fuso horário; ele falava cada vez mais como um colega de trabalho, e aquele «durma cedo» no fim soava tão chapado quanto um carimbo. Ela desligava, e o quarto ficava tão silencioso que dava para ouvir as próprias batidas do coração — e, embaixo delas, aquela coisa abafada, impossível de dizer em voz alta.
【Ela · esposa】
Não é que nunca a tenham cantado. O rapaz da loja de conveniência embaixo do prédio a olhava um pouco a mais; um ex-colega mandava figurinhas ambíguas — ela fingia não ver nada. Cumpria as regras, cumpria a ponto de achar risível de si mesma — guardava-se por um homem que voltava nove dias por ano, e que quando voltava estava tão cansado que caía no sono na hora. Mas o corpo não obedece à razão. Nas madrugadas ela se revirava, e aquela comichão vazia na parte interna das coxas era algo que nenhuma razão conseguia conter. Ela se virava de costas, mordia o travesseiro e se resolvia às pressas com a própria mão, mas depois se sentia ainda mais vazia do que se não tivesse feito nada. O que ela precisava nunca foram aqueles dois toques rápidos — era de alguém que a preenchesse por inteiro.
【Ela · esposa】
A amiga não aguentou ver aquilo e a arrastou para um clube de badminton. «Se você continuar assim tão abafada, vai criar mofo.» O ginásio ficava na zona leste da cidade, com janelas do chão ao teto e, do lado de fora, uma linha de água do rio; tudo iluminado, muita gente. Fazia tempo que ela não se exercitava; na primeira partida ficou ofegante, o cabelo suado grudado no rosto, o top esportivo marcando o suor — mas aquela satisfação de gastar toda a força a fez sentir, depois de muito tempo, que era uma pessoa viva. Ela riu alto, e até se assustou consigo mesma — então ela ainda sabia rir assim.
【Irmão】
Ele frequentava esse círculo havia alguns anos e enxergava de imediato quem vinha de fato jogar e quem vinha respirar. Aquela mulher nova era do segundo tipo. Não jogava lá muito bem, as bolas caíam sem controle, mas quando ela erguia a raquete o corpo inteiro se abria; ao recolhê-la, encolhia-se de volta numa casca, como se temesse ser desvendada. Ele já vira muitas assim — não lhes falta dinheiro nem respeitabilidade; falta alguém que de fato as toque. Ele não tinha pressa. Esse tipo de peixe, quanto mais você apressa, mais foge. Ele apenas, quando ela saiu da quadra ofegante, lhe estendeu uma garrafa de água e comentou de passagem: «Quando o jogo se solta, a gente relaxa.»
【Ela · esposa】
O homem que lhe estendeu a água tinha por volta de quarenta anos, vestia-se com esmero, tinha ruguinhas no canto dos olhos ao sorrir; falava sem leviandade, ao contrário, com uma serenidade que fazia a gente relaxar. Todos o chamavam de Irmão. Só depois ela soube que mais da metade dos encontros do ginásio eram organizados por ele — jantares, torneios amistosos fora da cidade, viagens curtas em feriados. Ele nunca falava demais, mas com ele presente a mesa inteira ficava à vontade. Ela não sabia explicar o que era aquilo — uma sensação firme de ser cuidada, justo o que mais lhe faltara nesse mais de um ano.
【Irmão】
Ele administrava esse círculo como uma rede macia. Na superfície, eram parceiros de badminton; por baixo, havia outra camada — alguns casais, algumas mulheres solteiras ou meio solteiras como ela, alguns homens que conheciam as regras, sabiam calar a boca e tinham nível. Quem podia entrar naquela camada da rede, ele avaliava com uma balança interior: tinha de estar solitária, tinha de ser respeitável, tinha de saber se conter e ainda — ele reparou naquela pontinha de hesitação nos dedos dela ao devolver a garrafa vazia — no fundo já ter cedido por dentro. Era ela. Ele não revelava nada; apenas a puxava uma camada para dentro. Primeiro um jantar, e ela veio; depois um karaokê, e ela ficou até a segunda metade; a cada passo ela deixava uma margem de recuo, mas a cada passo não recuava.
【Ela · esposa】
No jantar, alguém, meio de brincadeira, perguntou pelo marido, e ela sorriu e disse que ele estava destacado no exterior. A mesa inteira trocou um olhar que ela não entendeu, e então o assunto deslizou levemente para outro lugar. Ninguém insistiu, ninguém fez aquela cara de «coitada de você»; ao contrário, havia um relaxamento tácito, como se todos soubessem do vazio dela e nenhum achasse aquilo motivo de vergonha. Pela primeira vez ela sentiu que dizer as palavras «estou sozinha» podia não ser tão pesado.
【Irmão】
Antes do feriado do Primeiro de Maio, ele mandou uma mensagem no grupo: montar um encontro para o feriado, numa mansão na encosta da montanha, dois dias e uma noite, com tudo incluído, comida e hospedagem, só gente conhecida, para curtir a paz e relaxar. Mandou uma mensagem separada só para ela: «Você também vem, muda de ares, não fica se sufocando sozinha.» Não disse mais nada, mas sabia que algumas coisas, ditas com clareza demais, viram vulgaridade. O verdadeiro convite nunca está no que se escreve, e sim nos vãos. Se ela entendesse, entenderia por conta própria; se fingisse não entender, então ainda não era hora.
【Ela · esposa】
Ela fitou aquela mensagem por muito tempo. Mansão, dois dias e uma noite, só gente conhecida. A razão lhe dizia que por baixo daquelas palavras podia haver algo escondido — ela não era uma garotinha ingênua. Mas foi justamente por adivinhar vagamente que o coração disparou de forma anormal. Foi até a janela do chão ao teto e olhou as milhares de luzes acesas lá embaixo, cada janela guardando a agitação alheia. Lembrou-se do lado gelado da cama, do «durma cedo» chapado como carimbo do marido, do vazio ainda mais fundo depois de morder o travesseiro. Os dedos pairaram sobre a tela por muito tempo, e por fim ela digitou duas palavras: «Tá bom.» No instante em que enviou, o rosto ardeu com força, mas aquele ponto no peito, sufocado por tempo demais, de repente se abriu numa fresta — como se um vento tivesse entrado.