【Ela · Esposa】
Meu nome não importa. Meus alunos me chamam de Sra. Shen; leciono artes no ensino médio, vinte e nove anos. Sei que tipo de mulher sou — na aula de desenho de modelo vivo explico anatomia aos alunos, a curva da clavícula até a linha do seio, o peso do osso do quadril, explicando tudo sem corar e sem perder o ritmo. E, no entanto, a caminho de casa, quando o vidro do metrô reflete o meu próprio contorno embrulhado no vestido de tricô, de repente me lembro do contorno da virilha de algum homem que passou por mim, imaginando como aquela coisa seria se fosse de verdade, se fosse grande. O pensamento é como pigmento penetrando no papel de arroz — quanto mais se lava, mais fundo assenta. Por meio ano simplesmente parei de usar calcinha no trabalho: nada por baixo do vestido, sentada na cadeira giratória do escritório, só eu sabendo que estava vazia, escancarada, e essa devassidão que ninguém percebia me deixava andando molhada o dia inteiro.
Por isso, quando mais tarde lhe contei a coisa toda — a primeira vez que outro homem me tocou, entregue pelas próprias mãos do meu marido — sem rodeios, e o vi endurecer diante das palavras “usar os chifres do corno,” eu não deveria ter ficado tão surpresa. O que me surpreendeu foi o processo. O que me surpreendeu foi que uma mulher pudesse ser enganada a tal ponto pela pessoa em quem mais confiava, ao longo de quatro anos, com uma única venda.
Antes de casarmos eu não fazia ideia de que ele tinha esse fetiche. Ele era refinado, engenheiro, de fala mansa; quando me cortejava só ousava segurar a minha mão por cima do suéter. Só aos poucos, depois do casamento, aquilo veio à tona. Primeiro, na cama, ele gostava de perguntar: “E se fosse outro — você gozaria mais forte?” Achei que era só picância e ri, tapando a boca dele. Depois vieram os filmes. Ele começou, na calada da noite, a passar coisas no projetor; a princípio achei que fossem comuns, mas dois minutos depois percebi que todos seguiam uma mesma linha — uma esposa conduzida pelo marido diante de outro homem, o marido assistindo de lado, até ajudando.
Na primeira vez que vi esse tipo de filme, meio de brincadeira lhe dei uns tapas: “Você aguentaria? Aguentaria ver sua esposa sendo fodida por outro?” Esperei que ele corasse, que desligasse o filme e dissesse que estava me provocando. Ele não fez isso. Só deu um pequeno sorriso — um sorriso que lembro até hoje, morno, carregando uma expectativa que eu não conseguia ler, como uma criança que enfim tira um doce que escondera por muito tempo para lhe mostrar. Ele disse: “Eu só quero você.” Na hora não entendi quanto peso aquela palavra “quero” carregava.
【Marido · O Corno】
Admito que tramei fundo — tão fundo que às vezes até eu tinha medo de mim mesmo. Mas vocês precisam antes entender uma coisa: não é que eu não a ame. É justamente que a amo demais, a um grau que os outros nunca vão captar — eu queria vê-la amaciada até o osso por outro homem, vê-la perder o controle gritando sob outro pau, e então virar a cabeça, os olhos molhados, procurando ainda a mim. Essa sensação — fodida por outro e com o coração ainda enraizado em mim — é mais viciante do que qualquer exclusividade. Escondi esse pensamento metade da vida, escondi de uma ex-namorada, escondi até o casamento, e só então ousei experimentá-lo, pouco a pouco, nela.
Antes do casamento não ousava dizer uma palavra. Ela era tão respeitável — professora de artes, os pais dos alunos todos a chamando educadamente de Sra. Shen. Eu tinha medo de espantá-la. Só depois de casados comecei, muito devagar, muito de leve, como quem esboça o desenho de base numa tela esticada, uma fina camada de linhas quase invisíveis. Os filmes foram o primeiro passo. Eu não clicava ao acaso; tinha ordenado tudo — do mais brando, em que o marido só é chifrado, até aqueles em que o marido, com as próprias mãos, aperta a esposa sob outro, cada um mais pesado que o anterior, com dez dias ou meio mês entre eles, para que ela achasse que era o próprio gosto dela mudando sozinho.
A primeira vez que ela me perguntou “você aguentaria?”, endureci tanto que quase me denunciei ali mesmo. Me contive e só lhe respondi: “Eu só quero você.” Essa frase era a chave. Depois disso, toda vez que ela entrava no clima do filme comigo, eu acrescentava mais uma coisa no ouvido dela: você é tão jovem, seu corpo é tão bom — mostrá-lo só para mim é um desperdício. Enquanto ainda pode, deixe outro ver também como você é linda, pode ser? — eu nunca forçava. Forçar é a coisa mais burra. Eu só deixava essa frase, como uma gota d’água, cair uma gota por dia no ouvido dela.
【Homem Sozinho】
Sou o cara que foi chamado só depois; a primeira metade da história não tem nada a ver comigo. Mas quando o mano me achou, abriu o jogo, e só então soube há quanto tempo esse esquema rodava. Disse que a esposa era uma professora direita, de pele fina, que tinha de ir devagar, que passara quase dois anos preparando o terreno. No começo eu não acreditava muito — dois anos? Por uma noite? Depois acreditei, porque no dia em que a conheci em pessoa, aquele jeito dela — querendo e com medo ao mesmo tempo — não dava para fingir. Era algo criado numa pessoa, aliciado pouco a pouco.
O mano tinha me mostrado uma foto dela, o rosto borrado, só o corpo à mostra — não alta, cintura fina, carne mole sobre os quadris, na cara o tipo de figura normalmente embrulhada bem apertada, o tipo que só se descobre quão sedutora é depois de despida. Ele me martelou dois pontos vezes sem conta: primeiro, ela não podia, em momento nenhum, saber que o homem tinha sido trocado — essa era a linha entre os dois, e se fosse rompida acabava tudo; segundo, naquela noite eu tinha de aguentar — ele disse que ele mesmo gozaria em dez e poucos minutos, mas a noite que ele queria que ela lembrasse não podia ser tão curta. Eu disse tudo bem. Nesse quesito pode ficar tranquilo — dezesseis, comprido o bastante, duradouro o bastante. Ele riu ao ouvir e disse que era perfeito: o dele era quatorze, ela não conseguiria distinguir, e mesmo cravando fundo ela só ia achar que eu estava em ótima forma.
Então, se formos de fato contar, aquela noite inteira, do início ao fim, quem a fodia nunca foi o marido dela — nem uma vez. O que ela pôs na boca, o que tomou pelo do marido, é que era do marido. Mas isso são águas passadas.
【Ela · Esposa】
Ele me trabalhou por muito tempo. Usou tanto o suave quanto o duro. No suave, me abraçava e dizia coisas que me punham o rosto em brasa; no duro, era na cama, onde me punha a venda — nem lembro mais quando começou, mas o fato é que depois, ao fazer amor, ele sempre gostava de me tapar os olhos. Dizia que, quando você não vê, o corpo é o mais honesto. De venda, bem à beira do gozo, ele apertava minha cintura e me obrigava a falar, me obrigava a gritar “quero o pauzão de outro homem,” “quero mais.” Eu morria de vergonha, e ainda assim gritava mesmo, e no instante em que saía da minha boca eu gozava mais forte que o normal. Ele dizia: escuta — é isto que você quer. Eu não tinha como discutir, porque o corpo já tinha confessado por mim.
Na noite em que cedi a ele, na verdade não houve nenhuma virada de arrasar. Tínhamos acabado mais uma vez; eu estava deitada ofegante contra o peito dele, e ele trouxe o assunto de novo, dizendo que seria só uma pessoa olhando de lado, só olhando você, mais nada, sem tocar de jeito nenhum, prometo, vou estar bem do seu lado e não vou me afastar um único passo de você. Eu tinha ouvido essa frase — “só olhar, não tocar” — vezes demais, e naquela noite, sem saber por quê, dei um leve murmúrio de sim. O corpo inteiro dele enrijeceu por um instante, e então me abraçou tão apertado que quase não conseguia respirar. Achei que era ele me estimando. Agora penso que era uma mão que esperara muito tempo, enfim se fechando.