Lin Wan era uma menina criada por regras. Os pais a mantinham sob mão firme: nada de chegar tarde enquanto estudava, nada de roupas reveladoras depois que arranjou emprego, e a própria palavra namoro era quase proibida na casa dela. Nasceu em noventa e nove, e ao chegar aos vinte e poucos os tais romances que tivera não passaram do dar as mãos. Media um metro e setenta e três, ombros e costas retos e firmes, mas aquela silhueta não se escondia por mais que ela se pusesse — o busto era um taça E sólido e honesto, que abria uma fresta entre dois botões até por baixo da camisa de trabalho mais comum; a cintura afinava, e abaixo dela avultava um par de nádegas redondas e pesadas que faziam o tecido balançar a cada passo. Ela mesma se achava chamativa demais e vivia de roupas de jardinagem largas, embrulhando o corpo toda recatada.
Ela trabalhava de jardineira. O dia inteiro agachada nos canteiros, terra preta entranhada sob as unhas, os joelhos fincados na terra úmida, curvando-se para podar as trepadeiras. Quando se curvava, a calça de jardinagem repuxava, desenhando as duas nádegas pesadas numa curva cheia, e a fenda afundava num sulco raso sob o tecido; os operários que passavam deixavam os olhos grudarem ali antes de desviá-los às pressas. As coxas também eram cheias, a carne espremendo-se para os lados quando ela se agachava, esticando a boca da calça. Ela se acostumara àqueles olhares, e a fingir que não os via — era uma mulher com um lar, uma mulher recatada que antes do casamento fora quase uma página em branco.
Dois anos antes, ela se casou. O marido, Zhou Yu, era um homem sólido, e o casamento dos dois foi feito com dignidade. Nos primeiros meses de casada ela provou pela primeira vez o gosto daquele ato, desajeitado, tímido, mas doce também. Aquele corpo dela, mantido sob rédea tão curta, era como um quarto trancado por muitos anos, enfim empurrado numa fresta. Mas antes que ela tivesse tempo de realmente entrar naquele quarto, a fresta lentamente tornou a se fechar — Zhou Yu assumiu um grande projeto.
[Zhou Yu · Marido] Aquele projeto era a chance que eu esperava havia anos. Mergulhei de cabeça, saindo cedo e voltando tarde, um jantar de negócios atrás do outro. Muitas vezes chegava em casa passava da meia-noite, o cheiro de bebida ainda em mim, e caía direto no sono. Eu sabia que estava negligenciando a Wanwan. Não era que eu não quisesse tocá-la — quem não quereria? Eu sabia muito bem que tipo de mulher havia desposado, aquela silhueta, aquele par de seios, aquela bunda, justamente as coisas que meus irmãos invejaram em segredo. Mas quando um homem está exausto até o osso, aquele impulsozinho não resiste ao sono. Eu vivia me dizendo que ficaria tudo bem quando esse trecho do projeto passasse. Pensei isso o tempo todo, um mês, dois meses, meio ano.
[Zhou Yu · Marido] Às vezes, no meio da noite, sonolento, eu virava e roçava nas costas dela. A pele dela era tão macia, tão quente. Eu estendia um braço e a puxava, e ela se aconchegava em mim, aquele par de seios pesados e macios pressionando meu braço. Meu peito também se aquecia. Mas se naquele dia eu tinha bebido até o estômago revirar, com a cabeça ainda remoendo o contrato do dia seguinte, aquele calorzinho não durava dez minutos. Eu lhe dava tapinhas, dizia outro dia, dizia que estava cansado. Disse outro dia vezes demais. Nunca me ocorreu que o outro dia de uma mulher pode se acumular e fermentar.
Não era que Lin Wan nunca tivesse se sentido decepcionada. Nas primeiras vezes em que ela se chegava ao marido, só para ser empurrada de volta por aquele outro dia cansado, o rosto lhe ardia por um instante, e então ela apenas se virava e engolia sozinha. Mas o corpo não aguenta como a cara aguenta. Naquele meio ano depois do casamento ela era como um fogo recém-aceso, no auge, sem ninguém para alimentar as chamas. À noite, deitada sozinha na cama larga, aquele lugar dentro dela que acabara de ser aberto ficava inexplicavelmente vazio, tão vazio que coçava, e quanto mais ela tentava não pensar nisso, mais nítido ficava.
[Lin Wan · Íntimo] A primeira vez que comprei aquela coisa, fiz o pedido escondida no banheiro. As mãos tremiam. No dia em que chegou, fiquei encarando a caixa da encomenda na porta por um longo tempo antes de ousar abri-la, furtiva como uma ladra. A primeira era bem pequena, cor-de-rosa, e ao usá-la fiquei com tanta vergonha que enterrei o rosto no travesseiro, com lágrimas escorrendo — não de tristeza, mas daquele prazer estranho que eu nunca conhecera, de me empurrar mais alto pouco a pouco, e me assustou. Uma pessoa que antes do casamento raramente deixava alguém sequer segurar sua mão, e ali estava eu na calada da noite, sozinha numa cama vazia, fazendo uma coisa dessas.
[Lin Wan · Íntimo] Mas a pequena logo não bastou. O corpo é uma coisa de memória boa demais; ele lembra como é ser de verdade preenchido, e depois disso se recusa a se contentar. Fiz outro pedido, subi um tamanho. Mais tarde, as caixas ficaram cada vez maiores, e o lugar onde eu as escondia passou da gaveta para uma caixa de sapatos no fundo do armário. Toda vez que abria uma caixa nova eu me dizia que era a última, mas toda vez que gozava em convulsão e ficava mole na cama ofegando, aquele lugar continuava vazio — o que ele queria nunca foi plástico, mas uma pessoa viva, que respirasse, que se deitasse sobre mim, que chamasse meu nome.
Foi justamente numa dessas ocasiões que ela o conheceu. Foi num treinamento do ramo, sobre cuidado de jardim no estilo novo. Ela sentava na última fila, tomando notas com afinco. No intervalo, o homem sentado ao lado puxou conversa, entrou no assunto de certa doença de uma trepadeira, e conversaram com facilidade. Antes de o treinamento acabar, os dois trocaram contatos, dizendo que seria bom se consultarem em questões profissionais dali em diante. Ela de fato pensou assim na hora. Uma mulher casada e recatada adicionando um colega de ofício — nada mais natural.
[Gu Shen · O Homem da Internet] No dia do treinamento eu a avistei de relance. Última fila, vestida tão sóbria, mas a sobriedade não conseguia abafar aquela silhueta — ela abaixava a cabeça para anotar, e aquela fresta na gola da camisa, eu fiquei olhando a tarde inteira. Cheguei perto e comecei por doenças, por adubo, toda a conversa mais banal e séria que há. Quanto mais uma mulher se embrulha apertado e se senta ereta, mais em geral traz reprimido por dentro. Quando ela adicionou meu contato, o tom era todo cortês, todo assunto de trabalho. Eu sorri. Mulheres de assunto de trabalho, já vi muitas. É só ir devagar.
No começo era mesmo só consulta. Ela fotografava uma folha doente e mandava, e ele respondia depressa, com clareza e ordem, e ainda perguntava os detalhes. Ela foi aos poucos se acostumando a trocar algumas palavras com ele todo dia. Ele entendia do ramo, e era engraçado, falava com comedimento mas sempre pisava de leve bem na beira desse comedimento. Por exemplo, quando ela mandou uma foto de trabalho dela agachada no canteiro, enquadrando só as flores, ele disse: "Aquele vaso atrás de você está florindo tão bem — você mesma deve ser bem agradável aos olhos também." Ela encarou aquela frase por um longo tempo, apagou três respostas, e no fim mandou de volta só uma carinha sorridente.
[Lin Wan · Íntimo] Eu sabia que havia algo errado. Uma mulher casada, conversando com outro homem noite adentro, esperando as mensagens dele até o coração acelerar, isso estava errado. Mas eu não conseguia controlar. Zhou Yu quase não parava em casa naquele trecho; eu tinha de pensar um tempão só para lembrar a última vez que estivéramos juntos. E a pessoa do outro lado da tela, cada frase dele pousava no meu coração, pousava naqueles cantos que ninguém atendia. Ele perguntava se eu estava cansada naquele dia, lembrava de algo que eu dissera da última vez. Essas coisinhas, meu marido havia muito não tinha mais espaço para elas. Eu era como uma planta seca havia tempo demais — quem me desse uma única gota, eu me curvava para ele.
[Gu Shen · O Homem da Internet] A gente sabe sozinho quando o ponto está no jeito. Uma noite conversamos até tarde, e eu tateei, guiando a conversa para aquele rumo — perguntei se ela ficava entediada sozinha em casa. Ela ficou calada um longo tempo, tão longo que achei ter pisado no vazio. Então ela respondeu uma linha: "Fico." Só isso. Eu soube que estava feito. Quando uma mulher se dispõe, na calada da noite, a admitir para você que "fica entediada", o que ela admite é mais do que tédio. Não me apressei a avançar. Recuei e falei de outras coisas, de flores, do tempo. Deixei que ela virasse e revirasse aquele "fico" sozinha. Quem está com fome há muito tempo — você não precisa alimentá-la, só precisa deixar que descubra por si mesma o quanto está faminta.
[Lin Wan · Íntimo] Depois de mandar aquele "fico" naquela noite, não dormi bem a noite inteira. Eu não parava de pensar, mas o que é que eu estou fazendo. Peguei da caixa de sapatos o mais novo e o maior de todos e o usei no escuro, mas dessa vez fiquei menos satisfeita do que em qualquer outra vez. Porque pela primeira vez havia um rosto concreto, uma voz concreta na minha cabeça. Eu usava uma coisa fria, mas pensava num homem vivo. Ao terminar, fiquei deitada ali, com as lágrimas escorrendo para dentro das orelhas. Só então entendi que comprar aquelas caixas cada vez maiores tinha sido, o tempo todo, a minha maneira de arranjar desculpa para um pensamento que eu não ousava admitir.
[Zhou Yu · Marido] Naquele período eu até achei que a Wanwan tinha ficado mais dócil do que antes. Ela não se chegava mais no meio da noite, não me olhava mais com as palavras engolidas pela metade. Eu até me senti aliviado, achando que ela compreendia o quanto eu estava ocupado. Um dia, raramente cheguei cedo e a vi sorrindo para o celular. Perguntei quem era, e ela às pressas virou a tela para baixo e disse que era um colega de ofício, perguntando algo profissional. Eu acreditei. Por que não acreditaria? Ela era a Wanwan que eu desposara, recatada a ponto de tranquilizar um homem. Fiz um carinho na cabeça dela e disse que ela vinha se esforçando muito, que eu não tinha tido tempo para ela ultimamente. Ela deu um "mm", os olhos não em mim. Na hora eu apenas a tomei por cansada.
A conversa deles foi ficando cada vez mais explícita. Ele perguntava como ela se aliviava quando estava sozinha; a princípio ela não queria dizer, mas atraída linha por linha, acabou até digitando e mandando com o rosto vermelho. Ele ficou sabendo daquelas caixas, ficou sabendo que elas iam ficando cada vez maiores. Ele disse do outro lado da tela: "Por maior que seja uma coisa de plástico, continua fria." Ela encarou aquela linha, as palmas todas suadas. Ela sabia o que ele queria dizer, e sabia que já não lhe restava muita retirada. Naquela noite, ele mandou uma linha: "Que tal eu ir até aí ver as flores que você cultiva?" Ela segurou o celular e ficou sentada no escuro por um longo, longo tempo, e no fim respondeu uma única palavra: "Pode."