O Ponto Cego do Turno da Noite

Capítulo 1监控照不到的地方

Andarilho · 2115 palavras · Português

Uma da manhã, e no saguão só o lustre de cristal ainda brilhava, metade das luzes acesa. O brilho era colhido pelo chão de mármore polido e se espalhava num lago quieto, de um branco frio. Lin Man estava atrás da recepção, arquivando a ficha de registro do último hóspede a fazer o check-in, alisando a borda do papel com a ponta do dedo, cada gesto meticuloso. Naquela noite ela usava o uniforme azul-marinho de gerente do hotel, de corte justo ao corpo, que desenhava sua altura de um metro e setenta numa única linha vertical impecável; sob o blazer de cintura marcada havia uma camisa branca engomada e dura, com a gola abotoada até o segundo botão, sem um fio fora do lugar. Nascida em ’98, não era velha, mas ali, atrás daquela recepção, sua presença impassível bastava para esmagar qualquer um que pensasse em levar vantagem sobre ela.

O turno da noite fora ela mesma quem pedira. O plantão de madrugada de que os outros gerentes fugiam, ela cumpria havia meio ano sem parar. Os colegas diziam que a Gerente Lin era esforçada, que a Gerente Lin aguentava a solidão; só ela mesma sabia que o que ela aguentava nunca fora a solidão.

【Lin Man · Gerente da Recepção】

Ela ergueu o pulso e olhou o relógio: uma e sete. A auditoria noturna acabara de terminar, os hóspedes todos dormiam, o telefone da recepção não tocaria mais. Ela abriu o botão de cima do blazer e respirou fundo — e naquele fôlego havia uma expectativa oculta e vergonhosa, até para ela mesma, subindo aos poucos desde o lugar mais fundo do peito.

Ela conhecia cada canto daquele prédio bem demais. Onde ficavam as câmeras, qual lente estava quebrada e fora reportada para conserto mas nunca trocada, qual trecho de corredor era um ponto cego completo — as plantas e a realidade estavam gravadas em sua mente, tão a fundo que ela conseguia desenhar na cabeça toda a cobertura de vigilância do andar e então contorná-la com precisão. Esse era provavelmente o único ponto em que ela usava o cargo para algo fora de sua finalidade legítima.

Ela instruiu a moça do turno da noite a tomar conta do balcão, pegou o rádio comunicador e disse, naquele tom profissional sem uma ondulação de sentimento: “Vou dar uma ronda pelos andares.” A moça respondeu “Sim, Gerente Lin” sem sequer levantar a cabeça. Ninguém suspeitaria de uma gerente tão dedicada que fazia o plantão da madrugada havia meio ano e ainda ia pessoalmente rondar os andares na calada da noite.

Os saltos batiam no mármore, toc, toc, toc, o som firme, um passo e uma pausa, contido como a própria mulher. Mas só ela sabia que, a cada passo em direção àquele corredor, sua respiração ia silenciosamente perdendo o compasso.

【Lin Man · A Profissional】

Desde o primeiro dia neste hotel, Lin Man se transformara a si mesma numa peça de exposição.

Ela sabia como era. Um metro e setenta, cinquenta e dois quilos, ombros e costas eretos, andando com um vento atrás de si; a curva da clavícula e a cintura fina recolhida no uniforme eram parte do que ela mantinha de propósito — uma imagem profissional afiada como o fio de uma lâmina. Quando os hóspedes reclamavam, ela conseguia, sem um tremor no rosto, descascar a responsabilidade camada por camada; quando os funcionários erravam, ela não dizia uma palavra dura, bastava-lhe olhar quietamente e o outro corava por conta própria. As mocinhas da recepção a chamavam de “Iceberg” pelas costas; entre os hóspedes homens, os mais atrevidos que queriam cantá-la tinham as palavras empurradas garganta abaixo na metade por aqueles olhos calmos e sem uma ondulação.

Ela adorava essa sensação de controle. Adorava que todos a julgassem pura de desejo e sem uma única falha. Quanto mais perfeita era essa casca, mais o segredo escondido dentro dela a fazia tremer na calada da noite — o próprio contraste era a nota mais intensa de seu desejo.

Ela atravessou a passagem de funcionários e virou para o corredor no extremo leste. Aquele trecho estava à espera de reforma, os quartos todos vazios, e no fim ligava-se a um depósito abarrotado de suprimentos; a lente lá em cima quebrara dois meses atrás, e a ordem de serviço ela mantinha guardada na própria gaveta, sempre “esquecendo” de encaminhá-la. No fim do corredor não havia janela, só uma luz de emergência lançando um fraco brilho esverdeado e turvo. Aquele era o único lugar no prédio inteiro onde nenhum olho podia vê-la.

【Lin Man · Voz Interior】

Ela encostou as costas naquela parede gelada e fechou os olhos por um instante.

A Gerente Lin impecável do dia escorregou de seus ombros naquele instante como um casaco sendo tirado. Ela ergueu a mão e desabotoou o blazer por inteiro, puxou a barra da camisa para fora da cintura da saia, deslizou os dedos por dentro e primeiro, através daquela renda fina cor de creme do sutiã, cobriu o próprio seio. Seus seios não eram especialmente grandes, mas eram firmes, de forma bonita, e agora, erguidos e amassados por sua própria palma, o bico logo enrijeceu através da renda, esfregando até a ponta do dedo formigar.

Neste meio ano ela já se viciara. A primeira vez fora puro acaso — numa noite especialmente insuportável, ela se escondera ali só para tomar fôlego, mas a mão descera sem controle. Depois daquela única vez, o fim daquele corredor virou o lugar do qual ela não conseguia se livrar. Quanto mais compenetrada se mantinha de dia, mais precisava, à noite, naquele canto que ela nem ousava admitir, soltar por um instante aquela Lin Man verdadeira e faminta.

A outra mão levantou a saia do tailleur na altura do joelho, a ponta dos dedos subindo pela parte interna da coxa. Suas pernas eram longas e retas, com as linhas esbeltas e firmes de uma mulher dominadora, a carne rente ao osso, lisa e fria ao toque. A meia-calça ela já tirara antes de entrar no corredor e enfiara no bolso — até esse detalhe ela calculara nos mínimos pormenores. Enfim a ponta dos dedos passou a borda da calcinha e tocou a carne macia já quente e úmida de sua própria imaginação. Ali ela mantinha tudo bem cuidado, liso e despido, dois lábios singelos que agora se abriam e fechavam, viscosos de umidade.

【Lin Man · Voz Interior】

Ela mordeu o lábio inferior, engolindo com força o som ofegante prestes a escapar.

O dedo pressionou aquele ponto mais sensível e fez círculos, ondas e mais ondas de um formigamento dolorido disparando espinha acima. Sua mente fervilhava com as imagens que ela reprimira de dia sem um tremor — o jeito como certo hóspede de terno encarara sua clavícula, o jeito como certo colega não ousara sair da linha diante dela, aquele prazer de ser cobiçada enquanto ela controlava toda a cena — tudo isso convertendo-se agora na umidade sob a ponta dos dedos. Quanto mais perigoso o lugar, mais rápido ela ficava molhada. Mesmo dizendo a si mesma “só mais um minuto e eu volto,” empurrava os dedos mais fundo, a outra mão amassando o seio, as costas esfregando na parede gelada, uma vez após a outra.

Ela dobrou levemente uma perna e apoiou o pé no rodapé saliente junto à parede, abrindo o corpo numa postura mais conveniente para si, o traseiro erguido bem alto, comprimido contra a parede atrás dela. A luz de emergência esverdeada e turva iluminava essa sua imagem em sombras trêmulas — a Gerente Lin fria como um iceberg do dia agora se encostava sozinha na parede, a camisa aberta, a saia erguida até a cintura, uma mão enfiada por baixo de si, ofegando cada vez mais rápido. O contraste era obsceno demais; mesmo só de imaginar na cabeça, o rosto lhe ardia.

Ela estava absorta demais. Absorta a ponto de a entrega lhe drenar a razão aos poucos, absorta a ponto de aqueles ouvidos seus, que de dia não deixavam escapar o menor sussurro de movimento, pela primeira vez deixarem passar os passos levíssimos que se aproximavam da outra ponta do corredor.

O som de sua umidade ficava cada vez mais nítido no silêncio; ela inclinou o pescoço para trás, e o gemido que por tanto tempo contivera na garganta enfim não pôde mais ser trancado, escapando fino e trêmulo.

E logo depois daquele som, uma voz masculina grave, carregada de incredulidade, ergueu-se de repente a menos de três passos dela: “…Gerente Lin?”