Meias Pretas, um Sinal e Aquele Estranho

Capítulo 1定下暗号那天

Andarilho · 2983 palavras · Português

[Ela - a auxiliar de escritorio de dia]

De dia eu sou o tipo de mulher que senta numa baia dentro de um edificio de escritorios e tem medo ate de arrastar a cadeira para nao incomodar alguem. Vinte e nove anos, faco trabalho de papelada numa empresa mediana da cidade; meus colegas nao conseguem lembrar da minha voz, porque eu sempre a mantenho baixa. Prendo o cabelo no rabo de cavalo mais discreto possivel, visto a roupa de trabalho mais correta, e cada documento que entrego e tao impecavel que nao ha um defeito a ser encontrado. Ninguem sabe que uma mulher assim, que nem sequer ousa se atrasar, guarda dentro de si uma fera que ha tanto tempo passa fome que esta enlouquecendo.

Essa fera fui eu mesma que engordei, aos poucos. Meio ano atras, uma amiga que brinca muito fundo me puxou para um circulo pequeno - nao em nenhuma plataforma publica, sem letreiro; para entrar era preciso um rosto conhecido apadrinhando voce, e uma vez dentro, ate um print de tela era pecado capital. As pessoas ali tinham cada qual sua identidade respeitavel de dia, mas de noite se rasgavam umas as outras em texto e em audio. No comeco eu so assistia, assistia os outros escreverem como eram imobilizados no chao, como perdiam a dignidade diante de estranhos; meu coracao dava um solavanco a cada leitura, e quanto mais eu lia, mais aquela coisa se erguia da arquibancada da plateia, caminhava ate mim e perguntava: e voce, voce ousa.

Eu nao queria admitir, mas meu corpo confessou primeiro. Deitada sozinha no meu quarto alugado altas horas da noite, eu erguia o celular acima da cabeca e passava aqueles textos, passava ate ficar umida entre as pernas e quente nas costas, passava ate ter de enterrar o rosto no travesseiro. O que eu queria nao era ternura, nao era ser amada - tudo isso eu ja tivera em relacionamentos serios, e ha muito me enjoara. Eu queria o oposto: ser reconhecida por alguem que eu nao conhecia de forma alguma, ser tratada como algo que nem vale a pena mencionar e pisoteada ate o lugar mais baixo, ter olhos estranhos que talvez passassem vendo minha vergonha, e entao, dentro daquela vergonha extrema, provar um sabor que eu nunca provara na vida inteira.

[Ela - a auxiliar de escritorio de dia]

Na noite em que falei, fiquei encarando a caixa de texto por muito tempo. Meus dedos tremiam; apagava, digitava, digitava, apagava. No fim terminei aquela frase e, de olhos fechados, apertei enviar - eu disse, quero ser reconhecida por um estranho ao ar livre, num lugar onde talvez haja pessoas, e dominada por ele. No instante em que saiu, meu coracao saltou para a garganta e eu quis desfazer na hora, mas nao desfiz. Foi a primeira vez que soltei essa fera da jaula com minhas proprias maos.

Quem me respondeu tinha um avatar muito frio. Ele nao se aqueceu de imediato, nada daquela conversa fiada oleosa; ele so me fez algumas perguntas, muito detalhadas, muito firmes, perguntando onde ficavam meus limites, o que estava absolutamente fora de questao, como pedir para parar se algo desse errado. Definimos duas palavras como palavras de seguranca e delineamos as fronteiras uma a uma. Foi precisamente essa calma que me fez confiar mais nele - ele nao era um lunatico querendo se aproveitar, era alguem que de fato entendia toda essa coisa. E quanto mais assim, mais eu tinha medo, e mais eu ansiava. Bem no fim ele disse uma coisa: ja que voce quer a sensacao de um estranho, entao vamos nao nos encontrar antes, nao mostrar o rosto um ao outro; vamos usar um sinal.

O sinal que ele me deu era um traje. Ele disse: naquele dia voce veste um vestido preto, ajustado, do tipo que desenha a cintura; nas pernas, meias pretas acima do joelho, nao daquelas tao finas que rasgam ao toque - devem ter algum peso, abracando a perna; nos pes, um par de sapatinhos de couro, engraxados. Ele disse: voce se veste assim e entra no parque que eu indicar, e eu vou reconhecer voce. Nao precisa fazer mais nada; vestir-se assim e entrar e voce dizendo sim - dizendo que hoje eu posso tratar voce como se voce nao fosse nada. Olhei para aquelas palavras, a garganta apertada. Aquilo nao era um combinado comum; aquilo era ele costurando o consentimento em cada coisa que eu ia vestir no corpo: bastava eu cruzar aquele portao vestindo, e era como se eu tivesse dito com minha propria boca, venha.

[O estranho - o homem no banco]

Estou nesse ramo ha alguns anos e ja vi gente demais que fala em querer brincar e recua no momento em que esta bem na frente. Ela era diferente. Quando aquela frase dela chegou, vinha com um tremor; eu conseguia ler nas frestas entre as palavras, mas ela nao desfez, apertou enviar sem apagar um unico caractere - esse e o tipo que de fato anseia, anseia o bastante para se entregar. Nao me apressei em avancar; primeiro perguntei os limites dela com clareza, um a um, cravei as palavras de seguranca. Isso nao e cortesia, e a regra: quanto mais duro voce pretende brincar, mais firme voce tem de segurar antes a outra ponta da corda, ou os dois se machucam.

O traje que defini para ela nao foi escolhido ao acaso. O vestido preto desenha a cintura dela, as meias acima do joelho tracam a linha das duas pernas ate embaixo da barra, combinadas com um par de sapatinhos de couro engraxados a ponto de refletir - esse traje vestido nela e por si so uma frase, uma frase que ela nao ousa dizer na minha cara mas esta disposta a vestir no corpo e caminhar para eu ver. Defini o sinal como isso justamente para que, a cada botao que ela fecha, a cada puxada nas meias, ela confirme a si mesma vez apos vez: estou aqui por minha propria vontade. Quando ela chegar, basta eu reconhecer esse traje para saber que ela concordou, e a intensidade que se segue e o que ela colocou nas minhas maos com as proprias maos.

Na noitinha que combinamos, cheguei cedo ao velho parque no sul da cidade. Eu tinha reconhecido o lugar - ao entardecer nao ha nem gente demais nem de menos, alguns passeando, alguns jogando xadrez, mas quem vira para as trilhazinhas fundo no bosque nao encontra basicamente ninguem. Escolhi um banco sob uma arvore velha e sentei, a aba do bone puxada para baixo, os olhos fixos na entrada. O ceu afundava aos poucos, os postes ainda nao acesos - aquela hora mais ambigua de todas. Eu nao estava nervoso; estava esperando - esperando aqueles sapatinhos de couro engraxados pisarem para dentro, saindo da luz da entrada.

[Ela - a auxiliar de escritorio de dia]

Na tarde do encontro, tirei meio dia de folga, voltei ao quarto alugado, tranquei a porta por dentro e fiquei muito tempo diante do guarda-roupa, aturdida. Entao, peca por peca, vesti as coisas que ele especificara. O vestido preto desceu, o ziper puxado ate embaixo, o tecido abracando a cintura, desenhando a silhueta que eu costumo esconder debaixo da roupa de trabalho - minha cintura nao e exageradamente fina, mas assim que esse vestido a apertou, a curva do traseiro saltou de vez, empinada, redonda, esticando o tecido ate ele brilhar. Girei meia volta diante do espelho, olhei aquele trecho de coxa que a barra cobria e de novo desnudava, e meu rosto corou primeiro.

As meias pretas acima do joelho eram a coisa mais fatal de todas. Sentada na beira da cama, eu as subia pelas pernas centimetro a centimetro, a malha preta trepando pelas panturrilhas ate acima do joelho, arrematando no meio da coxa, envolvendo toda a carnosidade e a linha das minhas pernas, e ainda deixando entre a barra e a boca das meias uma faixinha de branco - aquela tira de pele que aparecia e sumia acelerava o coracao mais do que estar toda a mostra. Estendi a mao e acariciei aquela camada de seda, o atrito fino chegando a palma, tracando ate a parte interna da coxa - que ja comecava a amolecer e esquentar. Por ultimo calcei aqueles sapatinhos de couro engraxados ate reluzir, levantei, e no espelho havia uma mulher que eu mal reconhecia: digna, refinada, mas so eu sabia que esse traje inteiro reunido era uma carta de consentimento escrita em roupa e entregue a um estranho.

Por baixo do vestido eu vestia bem pouco. Ele nao dissera de forma explicita, mas eu entendia - sob esse traje-sinal escondia-se um desejo particular meu. Toquei o peito; o forro tipo tomara-que-caia empurrava meus seios bem para cima, o colo cingido numa linha funda pelo decote; e mais abaixo, aquele lugar que eu deliberadamente mantivera liso e limpo estava agora comprimido contra uma fina camada de tecido, roçando a cada movimento. Apaguei a luz e sai, entrei na rua do entardecer, os saltos batendo na calcada como saltos altos, toc, toc, toc, cada passo me empurrando um pouco mais para perto daquele parque. No metro alguem me olhou duas vezes; abracei a bolsa contra o peito, o coracao batendo como um tambor guardado dentro de mim - eles nao sabiam que essa funcionaria comportada estava a caminho de se entregar.

De pe no vagao balancante do metro, segurando a alca, eu conseguia sentir aquele vestido justo subindo centimetro a centimetro com o balanco do carro, desnudando aquela faixa de carne da coxa na boca das meias, de um branco que doia nos olhos. Baixei a cabeca, olhei meu proprio par de sapatinhos de couro reluzentes juntos, acima dos tornozelos a malha esticada, e acima da malha o lugar mal coberto pela barra - liso e limpo e umido. De repente pensei: agora, de todas essas pessoas no vagao com a cabeca baixa sobre o celular, quem poderia adivinhar o que esse meu traje digno escondia por baixo. No momento em que esse pensamento surgiu, aquele lugar entre minhas pernas se contraiu de novo - entao era assim, ate ser varrida por um olhar casual podia me fazer isso. So entao entendi de verdade: o que eu ia encontrar era um vicio que eu contivera por meio ano e que enfim nao conseguia mais segurar.

[Ela - a auxiliar de escritorio de dia]

Cheguei ao parque. O ceu ja escurecera, os postes tinham acabado de acender, a luz amarela e turva se derramando sobre o caminho de lajes. Fiquei parada no portao um minuto inteiro, as pernas um pouco bambas, aquela eu diurna gritando na minha cabeca para dar meia-volta - voce esta louca, voce nem sabe a cara desse homem, o que voce pensa que esta fazendo entrando vestida assim. Mas outra voz, a fera que eu soltara com as proprias maos, sobrepujou-a: entre, voce esperou meio ano por este dia. Puxei um folego fundo e cruzei aquele portao. Do momento em que meus sapatinhos de couro pisaram na primeira laje, eu soube que o sinal havia entrado em vigor.

Fui caminhando para dentro pela rota que ele me dera, evitando os pontos iluminados, virando para aquela trilhazinha fundo no bosque. Cada vez menos gente, ate que o ultimo velho passeando com o cachorro se afastou, restando so a sombra das arvores e um ceu cada vez mais escuro. Meu coracao batia tao rapido que doia, minhas maos todas suadas, mas la embaixo eu ardia com forca, aquele lugar dentro das meias ja umido numa mancha, roçando a cada passo, roçando ate minhas pernas parecerem flutuar. Esse sabor de estar ao mesmo tempo com medo e ansiando, corpo e razao inteiramente rasgados, foi a primeira vez que provei na vida inteira - num instante tao assustada que queria chorar, no seguinte tao excitada que mal conseguia me manter de pe.

Ali no fim da trilhazinha, sob aquela arvore velha, um homem com a aba do bone puxada para baixo ergueu-se devagar do banco. Ele era mais alto do que eu imaginara, e mais corpulento, largo de ombros e costas, e no instante em que se levantou havia um ar opressor nele. Ele nao olhou meu rosto; o olhar caiu direto nos meus pes - no meu par de sapatinhos de couro engraxados, e entao trepou centimetro a centimetro para cima, varrendo as pernas envoltas nas meias, a barra que desenhava a linha do traseiro, o decote que cingia o colo. Ele olhava tao devagar, tao naturalmente, como quem avalia algo que ha muito lhe pertencia. Congelei no lugar, cravada por aquele olhar, sem conseguir dizer uma palavra. Ele enfim falou, a voz tao grave que soava abafada: "E voce." Duas palavras, o sinal batia, o jogo comecara.