O Clique do Nono Andar

Capítulo 1一个戴墨镜的账号

Andarilho · 1504 palavras · Português

[Wei · A Esposa]

As rodinhas da mala do meu marido rolaram sobre os ladrilhos da porta, um som que eu ouvia havia sete anos, e toda vez significava que pelos três a cinco dias seguintes este apartamento de cento e quarenta metros quadrados seria só meu. Ele se virou no vestíbulo e me beijou, os lábios secos, com gosto do café solúvel que engolira antes de sair. “Volto assim que fechar o negócio de lá. Não vire a noite.” A porta fechou, o trinco estalando no lugar. Fiquei muito tempo parada atrás daquela porta, ouvindo minha própria respiração ecoar pela sala vazia. Trinta anos. As pessoas elogiam como me conservei bem, a pele firme, o corpo cheio, mas ultimamente ninguém se dava ao trabalho de olhar de verdade nada disso.

[Wei · O Fotógrafo]

Passei duas semanas vasculhando as fotos dela na rede social. A foto do perfil era de perfil, com a maior parte do rosto escondida, mas a linha do pescoço e dos ombros não mentia — pescoço longo, clavículas fundas, ombros arredondados afunilando para baixo, o tipo de mulher por quem uma lente se apaixona. Nas fotos do dia a dia ela sempre se vestia com recato, gola alta, mangas compridas, barra abaixo do joelho, embrulhando-se toda. Quanto mais apertada a mulher se embrulha, mais bonita fica quando a lente a desembrulha. Mandei minha primeira mensagem e a assinei apenas com um emoji de óculos escuros — profissional, contido, sem leviandade. Conheço a arte de marcar um ensaio; a primeira frase jamais pode parecer ansiosa.

[Wei · A Esposa]

A mensagem dizia assim: “Perdoe o atrevimento. Sou fotógrafo de retratos; trabalho com moda praia artística. Vi sua presença e você seria perfeita para uma série em que estou trabalhando, chamada ‘A Beleza dos Anos Maduros’. O pagamento é generoso, as imagens são só para você, jamais divulgadas.” Encarei a tela, meu primeiro impulso foi bloquear. Quem acredita nessa conversa? Mas meu dedo não se moveu. Aquelas três noites eram longas demais, tão longas que nem no contador de passos do meu aplicativo havia mais alguém para me dar um joinha.

[Wei · A Esposa]

Respondi: “Sou casada.” Três palavras, como fechar uma porta para mim mesma ver. No instante em que enviei, até senti alívio — ótimo, agora ele deve ir embora, e eu não terei de encarar aquele friozinho na barriga que eu não tinha o direito de sentir.

[Wei · O Fotógrafo]

“Sou casada.” Ver aquelas palavras me fez sorrir. Toda mulher que faz questão de frisar isso não está de fato tentando recusar; está buscando um motivo para continuar. A mulher que realmente pretende recusar simplesmente some. Não pressionei. Esperei meia hora antes de responder: “Compreendo. Uma foto de arte e uma vida particular são coisas distintas. Basta a aliança não entrar no quadro. Posso fotografar só do pescoço para baixo também — o rosto é totalmente decisão sua. O pagamento é em dinheiro, na hora.” Digitei o valor: a maior parte das despesas de um mês dela.

[Wei · A Esposa]

Quando aquele número apareceu, meu coração deu um pulo. Não pelo dinheiro — não nos falta essa quantia. Foi aquela frase, “o rosto é totalmente decisão sua”. Ele devolvia a escolha às minhas mãos, como se entendesse do que eu tinha medo. Inventei cem desculpas para mim mesma: pense nisso como deixar uma lembrança para mim, enquanto ainda não estou velha. Enquanto ele… está fora de casa. Digitei uma linha e apaguei, apaguei e digitei de novo, e o que finalmente enviei foi: “Só fotos. Nada mais.”

[Wei · O Fotógrafo]

“Só fotos. Nada mais.” — Tirei um print daquilo. A experiência me diz que toda mulher que estabelece regras de antemão está guardando essas regras para quebrá-las ela mesma depois. Mandei-lhe um endereço: um velho prédio comercial no antigo distrito fabril, nono andar, o estúdio lá no fundo. Havia um motivo para eu ter escolhido aquele prédio — isolado, sem ninguém no andar inteiro à noite, com bom isolamento acústico, e quando o vento sopra as janelas chocalham, convenientemente abafando outros sons. Acrescentei uma linha: “Amanhã às sete da noite. Deixarei as luzes ajustadas de antemão. Estarei esperando.”

[Wei · A Esposa]

O distrito fabril ficava nos arredores da cidade, e conforme o táxi entrava, os postes iam ficando mais escuros um após o outro. Os ladrilhos da fachada do velho prédio comercial haviam caído em sua maioria, expondo o concreto de um cinza baço. Apertei a alça da bolsa, a aliança cravando na palma. O elevador era daqueles antigos, com a porta de ferro que se puxa à mão, e quando subiu ao nono andar deu um solavanco com um estrondo, e meu coração deu um solavanco junto. No fim do corredor uma luz amarela e quente vazava pela fresta de uma porta, como a única coisa viva naquele prédio morto inteiro. Fiquei parada à porta, respirei fundo e disse a mim mesma: só fotos, uma hora, pego o dinheiro e vou embora.

[Wei · O Fotógrafo]

No instante em que a porta se abriu, a primeira coisa que vi foram os olhos dela — desviando, mas sem conseguir deixar de espiar para dentro. Estou na casa dos quarenta, com uns fios brancos nas têmporas, e aos olhos delas isso soa como estabilidade, segurança. O estúdio era pequeno, uma parede de tijolos como fundo, dois softboxes lançando um brilho âmbar, um sofá velho no canto, vinho quente aquecido e duas taças sobre a mesinha de centro. Não me apressei em tocar no ensaio; primeiro ofereci o vinho: “O caminho é longo, sente-se e aqueça-se um pouco. Não fique nervosa. Toda mulher na minha lente, eu primeiro a acalento até ficar à vontade, e só então a foto sai bonita.”

[Wei · A Esposa]

A voz dele era baixa e lenta, como dedos alisando o pelo. Peguei a taça de vinho, os dedos roçando sem querer os dele, e nenhum de nós se afastou. O aquecimento do ambiente estava no máximo, e o sobretudo que me embrulhava toda de repente pareceu supérfluo. Havia algumas fotos de amostra impressas presas à parede, todas costas e perfis de mulheres maduras, luz e sombra de fato refinadas, sem o menor traço de algo sórdido. A corda tensa dentro de mim afrouxou um ponto. Só um ponto. Mas eu jamais imaginei que um ponto fosse o bastante.