【Ela · Esposa】
No casamento, o primeiro a morrer não é o amor, é a temperatura. Ela entendeu isso de repente numa certa manhã de inverno — naquele dia ela fritara dois ovos, um para si, outro para ele, as gemas fritas até ficarem bem passadas do jeito que ele gostava. Ele sentou, comeu, pegou o celular e, do início ao fim, não ergueu a cabeça para olhá-la uma única vez. A luz da cozinha iluminava uma mancha de óleo no avental dela, e ela, ali de pé, subitamente sentiu que não era a dona desta casa, apenas uma coisa transparente, encarregada de colocar os dias sobre a mesa.
Ela tem trinta e quatro anos este ano, dá aula de língua no ensino médio, e os pais na escola dizem que ela "tem classe". Ela sabe o que isso significa — o cabelo sempre preso sem um fio fora do lugar, a blusa abotoada até o segundo botão, o sorriso com senso de medida impecável, sem nunca dizer uma palavra a mais. Recatada. Essas palavras são como um sobretudo passado a ferro, muito bem alinhado, que ela veste há muitos anos, a ponto de a pele já ter esquecido como é por baixo. Só na hora do banho, com a água quente descendo, ela ocasionalmente baixava a cabeça e olhava o próprio corpo: os seios ainda firmes, a cintura ainda fina, a pele reluzindo suavemente na névoa. Mas fazia muito tempo que ninguém realmente tocava esse corpo, tanto tempo que até ela mesma quase esquecera como era a sensação de ser desejada.
【Ele · Pai solteiro】
Ele foi chamado às pressas pela professora responsável para a reunião de pais. O filho está no segundo ano do ensino médio, notas medianas, um garoto calado, igual a ele. Nestes anos desde que a esposa partiu, ele criou o moleque sozinho, arcando um a um com mensalidade, tênis, o mau humor da adolescência. Habituou-se a se manter muito contido — um pai solteiro, o que menos deveria ter é fraqueza, então empurrava todas as emoções para o fundo do peito, deixando apenas um rosto sereno e tranquilizador para o mundo lá fora.
Naquele dia ele chegou cedo, sentou na última fileira da sala, na carteira do filho. A professora que estava à frente ele já vira uma vez, no corredor no começo do semestre. Naquele momento ela explicava, sob a luz, os avisos para o fim do período, a voz não muito alta, a dicção muito clara, e em certas palavras fazia uma pausa de meio segundo, como que pesando as coisas. Ele de repente notou um detalhe que os outros não notariam: ao falar, os dedos dela esfregavam inconscientemente a beira do estrado, de um lado para o outro, para lá e para cá, um pequeno gesto tenso, de quem quer se agarrar a algo. Essa mulher estava mais cansada do que aparentava. Ele percebeu num só olhar — conhecia bem demais aquela postura de se sustentar em pé.
【Ela · Esposa】
A reunião de pais terminou tarde. Os outros pais foram saindo aos poucos, restando apenas algumas pessoas esparsas na sala. Ela arrumava os materiais sobre o estrado, as pontas dos dedos um pouco geladas — o ar-condicionado estava quebrado, e pela sala pairava aquele frio seco típico de noite de inverno. Nesse instante, um copo de papel foi pousado suavemente sobre a mesa diante dela, ainda soltando vapor.
"É da máquina automática lá embaixo, não é lá essas coisas", a voz do homem baixa e firme, "mas você falou das sete horas até agora, a voz até ficou rouca." Ela ergueu a cabeça e cruzou com o olhar dele. Ele não estava, como os outros pais, com um sorriso bajulador empilhado no rosto, nem apressado em falar do próprio filho. Ele apenas a olhava com muita calma, e aquele olhar a via como uma pessoa, não como a função de uma "professora". Ela ficou aturdida um instante, agradeceu e segurou aquele copo de papel morno. A palma aquecida, e só então ela percebeu que estava gelada a noite inteira — e não só naquela noite.
【Ele · Pai solteiro】
Eles ficaram assim de pé, conversando algumas palavras. O que ele perguntou não foram as notas, mas se o moleque fizera amigos na escola, se não seria solitário demais. Ela provavelmente não esperava ser perguntada assim, o olhar amoleceu um instante, e ela lhe contou com seriedade um trecho que o filho escrevera na última redação — sobre alguém que à noite espera o pai chegar em casa, espera, espera e acaba adormecendo. Enquanto ela contava, os cílios baixaram, e a luz projetou uma pequena sombra sob os olhos dela. Ele olhava o perfil dela e de repente pensou: uma mulher assim, que sabe ser compreensiva com os outros, como foi tratada para acabar cansada desse jeito. Ele não perguntou. Apenas enfiou a mão no bolso do sobretudo e, de pé, contido, a um passo de distância dela, fechou melhor a janela por ela.
【Ela · Esposa】
No caminho de volta para casa, ela segurou aquela xícara de café nas mãos o tempo todo, sem terminar de beber e sem coragem de jogar fora. O estranho é que ela não conseguia se lembrar do sabor daquele café, mas se lembrava daquela pontinha de calor que o copo de papel transmitiu à palma da mão, e daquela sensação, quando ele disse "a voz até ficou rouca", de ser vista, de despertar dó em alguém, uma sensação que quase a fez marejar. Ao entrar, a casa estava escura, o marido já dormia, e na sala só restava uma luzinha acesa por obrigação. Ela trocou os sapatos, tirou o casaco, os movimentos leves ao extremo — já havia muito aprendera a ser, na própria casa, uma sombra que não incomoda ninguém.
【O marido dela · Contraste】
Na verdade ele não estava em sono profundo. Ao ouvir a porta, virou-se e um "chegou" passou pela sua cabeça, e logo em seguida achou que não havia nada a dizer. Casal de longa data, que assunto mais poderia haver. Ele não tinha insatisfação com ela, nem se poderia falar em amor — ela cuidava bem da casa, não tinham filhos, os dias corriam limpos e resolvidos, e isso bastava. Quanto ao resto... aquelas coisas de juventude, já deveriam ter sido guardadas há muito. Ele fechou os olhos e logo adormeceu de novo, sem perceber de forma alguma que a esposa voltara excepcionalmente tarde naquela noite, nem que, ao trocar de roupa, ela ficara muito tempo diante do espelho, pela primeira vez olhando com tanta atenção para aquela mulher no reflexo.
【Ela · Esposa】
Naquela noite ela teve insônia. Deitada na beira da cama, escutava a respiração calma do marido, um som que antes era segurança e agora era como um muro. Fechou os olhos, mas na cabeça surgia sem controle o rosto daquele homem — as veias azuladas leves no dorso da mão dele quando fechava a janela, o pomo de adão subindo quando ele falava, e aquele jeito dele de olhá-la, firme, sem esquivar. Seu coração acelerou inexplicavelmente, as bochechas um pouco quentes. Ela apressou-se a reprimir esse pensamento, xingando-se por dentro: ele é pai de aluno, você é professora, você é mulher casada. Mas quanto mais se advertia assim, mais aquela faísca acesa, tênue, ardia forte e brilhante no peito. Ela pousou a mão sobre o próprio coração, batia rápido ali, muito quente — afinal ele ainda não estava morto. Afinal ela apenas estava com fome havia muito, muito tempo.