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Capítulo 1Capítulo 1: Ele disse que minhas pernas estavam afundando

Manhã Serena · 2444 palavras · Português (BR)

【Pei Rui · Ela】

Aula de natação de quarta, duas da tarde, raia três da parte rasa, e eu tinha acabado de afundar pela terceira vez. Engoli pelo nariz um gole de água com gosto de cloro e fiquei agarrada na borda tossindo, a touca escorregando para cima da orelha, enquanto o professor de educação física apitava da beira: “Pei Rui! As pernas! Para de deixar as pernas caírem!”

Meu nome é Pei Rui, tenho vinte anos. Fui mal no gaokao e passei um ano fazendo cursinho para prestar de novo, então sou um ano mais velha que todo mundo da minha turma. Faço Comércio Internacional num programa de parceria com uma universidade estrangeira, primeiro semestre do primeiro ano, tudo em inglês, e metade das matérias eu ainda acompanho na marra com aplicativo de tradução. Natação é obrigatória. A prova final é cinquenta metros. Reprovou, faz de novo.

Eu não sei respirar na água. É só abaixar a cabeça que eu entro em pânico, e é só entrar em pânico que minhas pernas afundam, até eu ficar em pé dentro da piscina, reta que nem o varal da sacada do alojamento.

“Your legs sink because your head is too high.”

A voz veio da raia do lado. Passei a mão no rosto e vi um cara muito alto em pé na água. A piscina tinha um metro e quarenta e só chegava nas costelas dele.

Era o Kofi. Mesmo curso, veio de Gana, vinte e dois anos, dois a mais que eu. Na apresentação em grupo da primeira semana ele ficou atrás de mim, e quando eu virei para falar meus olhos só chegavam na clavícula dele. As meninas da turma chamavam ele escondido de “Um e Noventa”. Quando se apresentou, ele disse que tinha ganhado colocação em campeonato de natação no país dele.

【Pei Rui · Ela】

Ele não veio até mim. Só falou comigo por cima da boia da raia. Um inglês lento, uma palavra de cada vez, com medo de eu não entender.

“Chin down. Look at the bottom. Ears in the water.” Ele fez o gesto de abaixar a cabeça e completou: “Vucê olha chão, não olha eu.”

Essa última parte foi em chinês, com os quatro tons todos errados. Não aguentei e ri alto, e engoli mais água.

Nos últimos vinte minutos da aula ele ficou na raia do lado me acompanhando. Eu me jogava para a frente, ele gritava “Breathe—now”, eu virava a cabeça para respirar e enchia a boca de água. Ele dizia tudo bem, de novo. Vinte minutos inteiros, e ele não encostou em mim nem uma vez.

【Kofi · Ele】

O nome dela era Pei Rui. Ele treinou três vezes até acertar aquele r.

A touca dela era rosa, o maiô era o azul-marinho que a faculdade distribuía, gola fechada até em cima, a parte da bunda brilhando de tão encharcada. Cada vez que ela afundava, as duas pernas brancas se debatiam na água, e cada chute fazia alguma coisa coçar dentro dele.

Ele não tinha pressa. Estava fazia dois anos naquele país e sabia que, com uma garota chinesa, primeiro você deixa ela achar que você é um cara legal.

【Pei Rui · Ela】

Na terceira semana, depois da aula, ele estava me esperando na porta do vestiário, ainda com gotas de água no cabelo, um QR code aceso na tela do celular.

“I have videos. Breathing drills. Eu te mando, você vê no alojamento.” A segunda parte ele disse em chinês.

Escaneei. A foto de perfil dele era ele de costas, na praia, com ombros tão largos que tapavam metade do sol. Mudei o nome do contato três vezes. No fim ficou “Kofi natação”.

Meu namorado se chama Shao Yang. Ele faz Ciência da Computação numa universidade da cidade vizinha, quarenta minutos de trem-bala. A gente começou a namorar antes do gaokao; ele não precisou repetir, entrou na faculdade um ano antes de mim. Veio me ver uma vez no feriado do Dia Nacional. Depois disso foi só “essa semana não dá pra sair do laboratório”, “semana que vem tem competição”, “amor, me espera terminar isso aqui”.

Fazendo as contas, fazia quase dois meses que a gente não transava.

【Pei Rui · Ela】

No começo a gente só falava mesmo de natação. Ele mandava vídeo, eu mandava vídeo meu no alojamento treinando abaixar a cabeça na frente do espelho, ele respondia com um joinha.

Depois começou a ser depois das dez da noite. Ele perguntava se eu já tinha jantado, por que chinês bebe água quente, aonde eu ia no fim de semana. Eu perguntei se fazia frio em Gana. Ele disse vem ver, o sol de lá te deixa da minha cor.

Depois começou a ser depois da meia-noite.

Numa quinta de novembro, o Shao Yang mandou às dez e meia “boa noite amor, amanhã aula às oito” e sumiu. Eu estava deitada na cama de cima do beliche abraçada no celular quando o Kofi escreveu: “You looked good today. In the water.”

Fiquei olhando aquela frase um tempão antes de responder: “Aquele maiô é horroroso, o que é que pode ter ficado bonito.”

“Not the swimsuit. What’s inside.”

【Pei Rui · Ela】

Virei o celular com a tela para baixo no cobertor, o rosto quente demais para dormir. Cinco minutos depois peguei de novo. Ele tinha mandado outra: “Too much? Tell me and I stop.”

Digitei “um pouco” e apaguei. Digitei “para de falar besteira” e apaguei também. O que eu mandei no fim foi: “Não é demais.”

Naquela noite a gente conversou até as duas. Ele perguntou de quanto em quanto tempo meu namorado vinha me ver. Eu disse que fazia tempo que não vinha. Ele perguntou quanto tempo. Eu disse desde o Dia Nacional. Ele mandou um emoji de olho arregalado e escreveu: “Two months? If you were my girl, two days I can’t wait.”

Minha colega da cama de baixo se virou. Puxei o cobertor por cima da cabeça. Debaixo das cobertas eu estava apertando as pernas com força, e já tinha uma mancha molhada na calcinha.

【Kofi · Ele】

No chat ela era mais ousada do que pessoalmente.

Quando se cruzavam no corredor durante o dia, ela abaixava a cabeça e fingia não ver, as orelhas vermelhas até o pescoço. À noite ela mandava uma foto: só as pernas, tão brancas que brilhavam, os dedos do pé encolhidos, com uma legenda tipo “perna toda dolorida depois da natação hoje”.

Ele mandou uma dele de volta: moletom cinza, sentado na beira da cama, um volume enorme estufando a virilha. Sem legenda nenhuma.

Do lado dela o chat mostrou “digitando…”, parou, mostrou de novo, parou. Sete minutos inteiros depois, ela mandou só três palavras: “Que coisa grande.”

【Pei Rui · Ela】

Eu olhei mesmo por sete minutos.

Dei zoom, tirei o zoom, dei zoom de novo. O tecido cinza estava esticado, o volume indo da virilha até a lateral da coxa, dava para ver como era grosso, dava até para ver o formato da cabeça marcando. O do Shao Yang eu sei como é de olho fechado. Coloquei um do lado do outro na minha cabeça, e minha mão entrou na calça do pijama.

Foi a primeira vez no semestre que eu me toquei. Mordi a ponta do travesseiro para a menina de baixo não ouvir, enfiei dois dedos na minha buceta e fiquei mexendo até fazer aquele barulhinho molhado, e no fim gozei com as pernas tremendo, sem nada na cabeça além daquele volume cinza.

Na aula de natação do dia seguinte eu não conseguia olhar para ele. Ele nadou uma volta na raia do lado e, quando passou por mim, debaixo da água, encostou o peito do pé na minha panturrilha. Uma vez só.

【Pei Rui · Ela】

Sexta à noite ele mandou: “Saturday morning, new pool, 9:30. Nobody there. I teach you breathing. Properly.”

Depois do “Properly” tinha uma piscadinha.

Eu sabia o que ele queria dizer. Ele sabia que eu sabia.

O Shao Yang me ligou por vídeo às nove daquela noite, a câmera apontada para o monitor do laboratório: “Amor, fim de semana que vem eu vou com certeza, esse não dá mesmo.” Eu disse tá bom, disse tudo bem, disse você tá ocupado. Quando desligamos, abri o Taobao e paguei o biquíni preto que estava no meu carrinho fazia um mês. Entrega no dia seguinte, na mesma cidade.

Depois respondi o Kofi com uma palavra: “Tá.”

【Pei Rui · Ela】

Sábado, nove e vinte da manhã. O vestiário feminino da piscina nova estava vazio.

Vesti o biquíni preto na frente do espelho. Em cima, dois triângulos de alcinha; embaixo, cavado, com menos da metade do pano do maiô da faculdade. Olhei para mim mesma: os peitos segurados por dois triangulozinhos, os mamilos marcando duas pontinhas pelo tecido fino. Apertei com a mão. Não abaixavam.

Abri a porta que dava para a piscina e o cheiro de cloro veio na cara. No prédio inteiro só tinha um salva-vidas cochilando lá no fundo e um senhor nadando peito devagarinho na raia oito.

O Kofi estava de pé na borda da parte funda. Virou, me viu e soltou um assobio comprido.

“Come here, Rui.” Ele pulou na água e abriu os dois braços para mim. “I catch you.”