A Recompensa do Ala

Capítulo 1陪衬的人

Andarilho · 1973 palavras · Português

【Eu·Homem Mais Novo】

Kai fez parecer que esse jantar era uma coisa importantíssima. Ele estava atrás de uma garota e precisava que eu fosse seu ala—palavra dele, ala, dita como se eu devesse me sentir honrado. “Você só senta do meu lado, faz o contraste,” disse ele, ajeitando a gola no elevador, “deixa ela ver que tipo de gente são meus amigos, e isso me realça como o protagonista.” Eu disse tudo bem. Sempre digo tudo bem—é provavelmente por isso que sou sempre o chamado pra ser o ala.

A sala reservada ficava no segundo andar de um restaurante antigo no bairro velho da cidade, a soleira de madeira desgastada e reluzente. Su Qing já tinha chegado primeiro. Era dois anos mais velha que nós—um dado que Kai fazia questão de repetir, como se a idade fosse um muro que ele tivesse de escalar. Mas no instante em que ela se levantou para nos cumprimentar, aquele muro parecia estar mais do meu lado. Vestia um vestido azul-marinho com um decote nem fundo nem raso, exatamente o suficiente para você dar uma olhada e ter de desviar os olhos, e então se pegar olhando de novo. O ar dela era o de quem fala com muita firmeza, mas entre as sobrancelhas e os olhos pairava algo difícil de nomear—não sensualidade, e sim maturidade, a naturalidade de uma mulher que sabe que é bonita e sabe que você está olhando. Kai depois a descreveu para mim como “meio marcada pela vida”. Na hora quis discordar, mas depois entendi que ele não estava a diminuindo—estava fisgado justamente por aquele algo, só não achava palavra melhor.

Só depois de nos sentarmos percebi que ser ala não é trabalho fácil. Kai fala sem parar quando está nervoso, sem parar e sem ponto de pouso, carregando o assunto sozinho de carros para relógios e para onde ele foi esquiar no ano passado. Su Qing escutava, ria de vez em quando, mas aquele riso era educado—educado a ponto de eu, sentado ao lado, sentir aperto no peito por ele. O que de fato deu vida à mesa foram as poucas coisas que ela disse virando-se para mim. Perguntou o que eu fazia, o que eu costumava ler—nada profundo, mas cada frase caía exatamente no ponto, e ao terminar de responder você sentia que suas palavras haviam sido genuinamente acolhidas. É um talento muito perigoso. Ela era como uma ouvinte boa demais, do tipo que engana quem fala fazendo-o achar que é interessante.

【Su Qing·Irmã Mais Velha】

Kai é um bom garoto—caloroso, esperto—seu defeito é querer demais ser visto como bom. Já vi muitos homens assim; tratam um jantar como uma entrevista de emprego, tensos o tempo todo, apavorados de que uma resposta errada lhes custe pontos. Não desgosto dele, apenas não sinto nada—e sentir, isso não é algo que se conquista com esforço.

O ala que ele trouxe, porém, era um pouco interessante. Mal falou a noite toda, aparava as arestas por Kai, descascava camarão para mim, enchia meu copo sem alarde quando esvaziava, olhos limpos—olhava para mim também, mas depois de olhar recolhia o olhar, não grudava na gente como certos homens, sem querer ir embora. Homens mais novos costumam ser afobados; ele não. Quando eu perguntava algo, ele respondia devagar, e nessa lentidão havia medida. Admito que fiquei um pouco curiosa—curiosa se ele sabia que fora escalado de coadjuvante, e curiosa por que, escalado de coadjuvante, ele me dava mais vontade de olhar duas vezes do que o protagonista. À mesa passei-lhe umas deixas a mais do que devia; Kai não notou, mas ele notou—as pontas das orelhas ficaram um pouco vermelhas, e ele fingiu que nada. Esse pequeno constrangimento me deu mais vontade de rir do que toda a atuação de Kai.

【Eu·Homem Mais Novo】

A bebida Kai despejou goela abaixo sozinho. Ele provavelmente achou que o clima não estava quente o bastante, brindando um copo atrás do outro, até que a língua enrolou e ele começou a se repetir. Su Qing o repreendeu duas vezes; ele não ouviu, fazendo questão de provar que tinha estômago de sobra. Na hora de encerrar já mal se firmava, um braço jogado sobre meu ombro, a outra mão ainda tentando pagar—o cartão foi recusado duas vezes, e no fim quem pagou fui eu. Neste jantar em que fui o ala, a conta também o ala fechou.

“Levá-lo para casa dá trabalho demais,” disse Su Qing, olhando Kai desmoronado num monte, e depois para mim. “Minha casa é aqui pertinho—venha desembriagar na minha primeiro, de qualquer forma a esta hora não se pega táxi nenhum.” Ela disse com tanta naturalidade que não tive razão para recusar. Amparei Kai enquanto ela guiava à frente, os saltos batendo nas lajes da rua antiga—toc, toc, toc—cada batida caindo no meu peito um pouco mais perto que a anterior.

【Su Qing·Irmã Mais Velha】

Trazê-los para casa foi uma ideia de momento. A desculpa eu já tinha pronta para mim mesma: não ficava tranquila mandando Kai de volta daquele jeito, e como a mais velha eu cuidaria dele. Soava perfeitamente decente—tão decente que eu mesma quase acreditei. Pus uma chaleira no fogo e fui ao quarto trocar de roupa—uma camisola fina, tecido do dia a dia, nada que se possa chamar de proposital, mas eu sabia muito bem que até o dia a dia tem suas escolhas do dia a dia. Para quem me troquei, eu mesma sei.

Quando trouxe as coisas para desembriagar, aquele rapaz mais novo visivelmente travou, o olhar correndo um círculo rápido pelo meu corpo antes de fugir às pressas, o pomo de adão subindo e descendo. Foi isso. Quanto mais ele tentava fingir que não tinha visto, mais honesta ficava aquela reação que não conseguiu esconder. Kai já estava morto para o mundo, escorregado no sofá. Os únicos de fato acordados naquela sala éramos ele e eu.

【Eu·Homem Mais Novo】

Quando ela saiu com a roupa trocada, eu não sabia onde pôr os olhos. O tecido da camisola era fino; sob a luz ficava translúcido, deixando ver o contorno do corpo por baixo, e me obriguei a encarar aquela xícara de caldo de desembriagar sobre a mesinha, encarando como se fosse furar a xícara. Ela sentou de frente e um pouco ao lado de mim, uma perna cruzada sobre a outra, e aquele trecho de panturrilha era de uma brancura ofuscante. Conversamos aos trancos—sobre que tipo de pessoa era Kai, sobre como nos conhecemos—e em algum ponto da conversa percebi que tinha esquecido que viera para ser o ala.

Kai tinha deixado o celular na sala reservada do restaurante. Ele dormia feito pedra, e eu, com medo de que o lugar fechasse e o perdesse, disse que pegaria um táxi de volta para buscá-lo. Su Qing me levou até a porta e de repente disse: “Vamos nos adicionar no WeChat—assim eu te abro a porta quando voltar, sem tocar a campainha e acordar ele.” Estendeu o celular, a luz da tela iluminando seu rosto. Meus dedos tremeram um pouco ao adicioná-la, e o “ding” quando ela aceitou o pedido soou especialmente nítido no vestíbulo silencioso.

【Su Qing·Irmã Mais Velha】

No intervalo em que ele foi buscar o celular, Kai acordou por um instante. O álcool lhe deu uma coragem meio confusa; ele agarrou minha mão e disse algumas coisas—nada além de que gostava de mim, que queria ficar comigo, que achava que combinávamos. Retirei a mão, de leve, mas com toda a clareza lhe disse: obrigada, mas eu não sirvo para isso. Ele travou ali, e naquele momento estava perfeitamente sóbrio—sóbrio o bastante para captar o peso daquelas palavras. Doeu-me fazer, mas doer não é razão. Sentir, como eu disse, não se conquista.

Depois de recusar alguém, abre-se antes um espaço dentro de mim. O celular estava aceso—era aquele WeChat que eu tinha acabado de adicionar, o avatar uma foto qualquer do céu. Fitei o nome por um tempo e de repente quis lhe mandar algo, e me contive. A noite era longa. Certas coisas não precisam de pressa; com pressa, perdem a graça. Servi-me de um copo d’água e voltei a sentar no sofá, esperando aquele rapaz que fez de ala para outro mas acabou guardado no meu coração voltar à minha porta carregando o celular de outro.