O Provador de Veludo

Capítulo 1台下的那盏射灯

Andarilho · 1123 palavras · Português

【Ela · Estudante de Arte】

Dezesseis tempos antes de a cortina subir, Jiang Wan transferiu o peso para a ponta do pé esquerdo, ergueu a clavícula meio centímetro, para que aquele foco de luz caísse exatamente sobre seu pulso levantado. Tinha vinte e dois anos, bailarina principal do departamento de dança, e os olhares de esguelha de todos no salão de ensaio grudavam nela — este era o lugar que ela havia conquistado, e o lugar a que estava acostumada. Quando a música começava, onze pessoas atrás dela se moviam com a ponta dos seus dedos; onde os erguia, uma fileira de braços a seguia. No palco ela era precisa, contida, elegante como um objeto polido vez após vez pelas mãos alheias. Ninguém sabia que era justamente o peso daquelas centenas de olhos que fazia o calor subir por suas costas até a curva da cintura. Ela gostava de ser observada. Isso ela só admitia para si mesma.

No agradecimento final ela se curvou, os aplausos desabando, os olhos baixos numa modéstia fingida enquanto contava por dentro: aquele rapaz da terceira fila, o olhar dele nunca deslizara para longe dela. Só aquele tantinho de atenção que ultrapassava o limite já bastava para deixar seus passos flutuando no caminho inteiro de volta ao alojamento. E ainda assim tinha medo — medo de que um dia alguém a enxergasse de verdade, medo de que essa casca de erudita fria e distante lhe fosse arrancada diante de todos. Querer ser vista, mas temer ser reconhecida — essas duas forças se torciam numa só corda dentro dela, apertando cada vez mais, apertando até o coração doer, e apertando-a até o vício.

No dia seguinte ela não tinha aulas. Vestiu-se com um cálculo discreto e saiu: uma camisa branca um número menor do que deveria, abotoada só até o segundo botão, de modo que a gola se abria sozinha sempre que ela se inclinava para pegar algo; embaixo, uma minissaia evasê cuja barra se erguia e roçava as coxas se ela andasse rápido demais. Caminhou devagar pela rua de pedestres mais movimentada da cidade, não para comprar nada, apenas para fazer as pessoas que vinham em sua direção olharem duas vezes. Quando alguém se virava para olhar, seus passos ficavam um tom mais leves; quando ninguém olhava, ela se sentia estranhamente vazia, como o foco de luz se apagando no palco. Até ela achava esse hábito absurdo, mas ele a despertava mais do que qualquer ensaio.

Chegou ao shopping recém-inaugurado, cujo vidro do chão ao teto banhava de luz o fluxo de gente da rua inteira. Só pretendia se refrescar no ar-condicionado, mas os pés viraram sozinhos para a seção feminina. Ela nunca tivera a intenção de comprar um vestido — sabia disso perfeitamente; aquela coceira inquieta subira de novo, e precisava de um pretexto, precisava de uma pequena caixa onde pudesse se trancar com toda a justificativa e ser aberta a qualquer instante. O provador era essa caixa.

【Ele · Um Estranho】

Gu Yu foi levado pela barra daquela saia branca. Estava à espera, junto ao corrimão do terceiro andar, de um sócio eternamente atrasado, o rosto baixo passando o dedo no celular, e quando ergueu os olhos, uma garota na seção feminina do segundo andar estava na ponta dos pés alcançando uma arara alta. Um movimento tão comum quanto qualquer outro — e ainda assim a panturrilha dela desenhava uma linha limpa e tensa, a barra se abria ao ritmo do braço erguido e caía de novo — seu olhar se cravou ali sem motivo e não se moveu mais.

Ele era designer; ganhava a vida do visual e se orgulhava de estar entorpecido para as linhas do corpo. Mas esta garota era diferente. Cada movimento dela era preciso demais, como se ensaiado centenas e centenas de vezes — o giro, a inclinação da cabeça, o braço erguido, tudo carregando uma contenção que só existe no palco. E justo debaixo dessa contenção escondia-se algo mais: ao escolher um vestido, ela lançava um relance rápido ao redor, conferindo se alguém a observava, e aquele olhar não era cautela — parecia mais… expectativa. Essa única contradição o fisgou de imediato.

Ele não teve pressa de ir embora. O sócio ligou dizendo mais vinte minutos, então ele desceu pela escada rolante, fingindo dar uma volta pela seção masculina, mas mantendo-a no canto do olho. Ela escolheu um vestido preto de alcinhas, tecido fino, alças finas, nada a ver com a camisa branca e comportada que trazia no corpo. Ele a viu drapear o vestido sobre o antebraço e caminhar até aquela fileira de cortinas de veludo, os passos firmes, embora as juntas dos dedos que apertavam o cabide estivessem um pouco brancas. De repente ele quis muito saber no que ela se transformaria, sozinha lá dentro, depois que aquela pesada cortina de veludo se fechasse.