Uma Camada de Distância, e Nenhuma

Capítulo 1雨把路截断了

Andarilho · 1677 palavras · Português

【Eu · Solteiro】

A chuva começou mais ou menos na hora em que o jantar terminou. É assim mesmo que Jiangcheng fica no fim do verão — de um azul ofuscante durante o dia, e então o sol se põe e as nuvens desabam, como se alguém tivesse despejado uma bacia de água suja sobre a cidade. Meu parceiro A-Ze foi chamado de última hora para fazer hora extra no escritório, e antes de sair me deu um tapa no ombro e disse, mano, é no teu caminho, leva a Lin Lan pra casa, não deixa ela pegar táxi sozinha. Eu disse claro. Saiu tão fácil, tão fácil que nem pensei duas vezes — A-Ze e eu nos conhecemos há mais de dez anos, já vi a esposa dele dezenas de vezes, dar uma carona é a coisa mais natural do mundo. Nada de mais.

O carro não tinha andado dois quilômetros e a chuva já estava mais forte do que os limpadores davam conta. O para-brisa virou um lençol de água corrente, as luzes traseiras à frente derretendo em manchas vermelhas. Lin Lan sentada no banco do passageiro, abraçando a bolsinha, o perfil varrido por luz e sombra pelos postes lá fora. Ela vestia um vestido claro naquela noite, alças bem finas, e quando sentou a barra subiu um pouco, deixando à mostra um pedaço do joelho. Tentei manter os olhos na estrada, mas o canto da minha visão vivia escorregando pra aquele lado no retrovisor. Sinceramente, eu também não fui grande exemplo de comportamento depois de casado — uns anos atrás tive um caso ou outro com uma mulher casada ou uma esposa jovem mais ou menos da minha idade, e de vez em quando ia a um lounge com uns colegas mais velhos e conhecidos do trabalho pra relaxar. Mas isso é tudo fofoca velha, não vale mais que uma linha de passagem. Naquela noite minha cabeça só tinha a estrada e a chuva.

O carro chegou a um viaduto onde as luzes de alerta piscavam por toda a fila e um guarda de trânsito gritava num megafone. O túnel estava alagado e bloqueado, e o desvio estava em obras, então o GPS me enfiou direto num emaranhado de becos sem saída. Encostei o carro, os pingos martelando o teto como alguém jogando feijão seco lá em cima. Eu disse, Lin Lan, não tem como passar esta noite — a tua casa fica pelo menos quarenta minutos de volta, e mesmo assim pode não estar liberado. Ela olhou pela janela, depois pra mim, e perguntou, e agora.

Minha cabeça fez as contas rápido. O lugar mais perto daqui era o meu quarto alugado — dois cruzamentos adiante, uns poucos metros a pé. Hesitei antes de falar: que tal… a gente esperar a chuva passar lá em casa primeiro, e eu te levo assim que amainar? Mal as palavras saíram e já me arrependi pela metade, achando que soavam com segunda intenção. Mas ela só assentiu e disse, com toda a naturalidade, tá bom, a gente ia ficar só esperando dentro do carro mesmo.

【Lin Lan · Esposa do Parceiro】

Aquele meio segundo em que ele hesitou, eu peguei. Os homens acham que as mulheres não entendem, mas a verdade é que nós sabemos melhor do que ninguém o que se esconde nesse meio segundo. E eu não denunciei — até deu vontade de sorrir. Sentada ali no banco do passageiro dele, respirando aquele traço tênue de cigarro e loção pós-barba nele, alguma parte de mim já andava inquieta havia tempo. Aquela frase que A-Ze soltou ao sair — “deixa o meu mano te levar” — com que leveza ele disse. Provavelmente nunca parou uma única vez pra pensar no que poderia dar, entregar a própria esposa nas mãos de um homem ainda bem jovem, ainda com um quê de interessante.

É de rir, na verdade. Em todos esses anos casada com A-Ze, ele foi ficando cada vez mais parecido com um colega de quarto que só sabe de hora extra e videogame. Passei dos trinta há pouco, bem na idade em que o corpo sabe melhor o que quer, e é raro o mês em que ele me toca sequer uma vez. A chuva desta noite parece quase o céu cortando a estrada por mim — recusando-se a me deixar voltar pra aquela casa oca e vazia, me mantendo ao lado do homem que passou a noite inteira varrendo os olhos por mim na mesa do jantar. Eu segurava a bolsinha, as pontas dos dedos meio frias, mas o peito ardendo. Eu disse “tá bom”, e a minha voz saiu mais calma do que eu esperava — tão calma que assustou até a mim mesma.

【Eu · Solteiro】

O quarto alugado fica no último andar de um conjunto antigo, sexto andar, sem elevador. Disparamos do carro sob um único guarda-chuva, uns poucos metros, a chuva batendo de lado — o guarda-chuva não ajudava em nada. Quando chegamos ao prédio ela estava meio ensopada, o vestido claro grudado nas pernas, traçando uma curva molhada e escorrendo. Desviei o olhar, a mão meio trêmula ao procurar a chave. Subindo, a luz com sensor de som da escada estava quebrada, tudo escuro, e estendi a mão pra trás pra buscá-la, dizendo cuidado com os degraus — e a mão dela simplesmente pousou nas costas da minha, fria, macia, mandando um arrepio por mim mais agudo que a chuva.

Lá dentro acendi a luz. O lugar é pequeno, um quarto e uma sala, mantido razoavelmente arrumado. Fui à varanda pegar uma toalha seca, e quando me virei ela estava de pé no meio da sala, cabeça baixa, torcendo a água da barra, algumas mechas de cabelo molhado coladas na lateral do pescoço. A luz vinha por trás dela, e aquele vestido claro tinha ficado meio transparente, o contorno por baixo aparecendo de leve. Estendi a toalha, a garganta meio seca, e disse se enxuga primeiro, vou te servir uma água quente. Quando ela pegou a toalha, não segurou direito — ou melhor, de propósito não segurou direito — e as nossas mãos simplesmente se tocaram assim, nenhum dos dois recuando na hora.

【Lin Lan · Esposa do Parceiro】

Ele estendeu a toalha e eu estiquei a mão pra pegar, as pontas dos dedos roçando as dele. Admito que aquele toque foi de propósito. Eu queria ver como ele reagiria — se recolheria a mão às pressas feito um cavalheiro respeitável, ou se aproveitaria o momento e daria um passo à frente. Ele não recuou. Só ficou ali parado, os olhos fixos em mim, o pomo de adão rolando uma vez, pra cima e pra baixo. O quarto estava tão silencioso que não restava nada além da chuva do lado de fora da janela. Ergui a cabeça, tão perto dele, perto o bastante pra distinguir as gotinhas de água presas nos cílios dele. Não disse uma palavra — só me inclinei pra frente e deixei o corpo encostar de leve no dele.

A mão dele contornou minha cintura, tateando a princípio, pousada frouxa e oca, como se temesse se queimar. Então empurrei o corpo um pouco mais fundo nos braços dele, pra ele saber que não foi sem querer — eu queria aquilo. A respiração dele ficou pesada num instante. Fiquei na ponta dos pés, os lábios encontrando primeiro o queixo dele, depois mais acima, achando a boca dele. O primeiro toque foi leve, de teste, e provei o traço fraco de bebida no hálito dele. Então de repente ele apertou os braços, esmagando-me inteira contra o peito dele, os lábios e a língua invadindo, enroscando-se na ponta da minha língua. Deixei escapar um gemido abafado, o vestido encharcado prensado entre nós dois, e mesmo através daquela camada de tecido não dava pra conter o fogo no peito dele. A chuva lá fora caiu mais forte. E aquela frase no meu coração finalmente se assentou, firme e certa — esta noite, ninguém precisa voltar.