Número Quarenta e Três: Um Manual de Convivência

Capítulo 1搬进来那天

Andarilho · 3326 palavras · Português

[Ele - Namorado]

A chave deslizou na fechadura e girou meia-volta; aquele estalo tênue ele guardou por muito tempo. Aquele apartamento de um quarto na periferia da cidade tinha iluminação medíocre e a pintura das paredes um pouco velha, mas o aluguel cabia nos salários de dois recém-formados, e a varanda dava para um empreendimento imobiliário que nunca fora concluído. Ele largou a última caixa de papelão no chão e virou-se para olhá-la — ela estava na ponta dos pés pendurando as cortinas na haste, a barra da camiseta branca subindo com o movimento e revelando uma faixa de cintura. Ele treinara atletismo por seis anos; não havia um grama de carne sobrando em seu corpo, ombros e costas esculpidos em linhas duras pela pista e pela barra, magro o bastante sob a roupa para se contarem as divisões do abdômen. Mas ele sabia muito bem que o que de fato a impedia de partir nunca fora esta estrutura magra — era a coisa embaixo desta estrutura magra, a coisa que a fez corar na primeira vez que a viu e da qual depois não conseguiu mais abrir mão.

[Ela - Heroína]

Ela media um metro e sessenta e oito, o peso mantido em pouco mais de cinquenta quilos, o corpo daquele tipo bem proporcionado que muita gente já elogiara dizendo que tinha “ótimas proporções”. A cintura era fina, mas logo abaixo se abria abruptamente numa curva cheia — aquele bumbum empinado que deixava os bolsos traseiros da calça jeans esticados, as coxas se tocando quase sem folga entre elas, carnudas e ao mesmo tempo firmes. De pé, as pernas eram longas e esguias; agachada, a carne macia da parte interna das coxas se comprimia num monte. Enquanto pendurava as cortinas, ela sentia o olhar dele escorrer como água morna por sua cintura e por seu bumbum, e aquele olhar a fez perceber tardiamente — a partir de hoje não havia colegas de quarto, não havia desculpa de voltar cada um para a casa de sua família; neste apartamento havia apenas os dois, e uma porta que, ao se fechar, isolava do mundo inteiro.

[Ela - Reflexões Sobre uma Vida de Cadela]

Mais tarde ela reviveria incontáveis vezes aquela tarde da mudança, sem nunca conseguir precisar o exato instante em que uma namorada de dois anos, séria e correta, foi, centímetro a centímetro, se tornando a “Número Quarenta e Três” da boca dele. Talvez tenha sido no som daquela porta se fechando atrás dela pela primeira vez. Aquele estalo tênue era como uma linha divisória, cortando de forma limpa a versão de fora — aquela que corava, que se mantinha correta, que endireitava as costas diante dos colegas — da versão de dentro, aquela disposta a se ajoelhar, disposta a enterrar o rosto no cheiro de suor dele, disposta a ser levantada a qualquer momento. Naquela hora ela ainda não percebia que estava, com as próprias mãos, soltando a segunda versão de si mesma do lugar mais fundo que havia.

[Ele - Namorado]

Com as coisas mais ou menos arrumadas, o céu escureceu. Ele não acendeu a luz do teto, deixando apenas a do abajur da cabeceira. Ela saiu do banho vestindo uma camiseta larga que ia até a raiz das coxas, o cabelo ainda pingando, os pés descalços sobre o assoalho. Ele a puxou para junto de si, fazendo-a ficar de pé entre suas duas pernas, e a mão dele deslizou por baixo da barra daquela camiseta — embaixo não havia nada. De manhã ela ainda usava calcinha; agora não havia coisa alguma. Ele ergueu uma sobrancelha, e as pontas das orelhas dela ficaram vermelhas de imediato. “A partir de hoje”, disse ele, a voz baixa e contida, “nesta casa, você não usa isto.” A palma da mão dele cobriu aquela porção lisinha, cuidada com tanto esmero que não restava um único fio, singela e fechada como lábios finos, e o dedo médio pressionou de leve ao longo daquela fenda rasa; o corpo inteiro dela amoleceu pela metade, e uma das mãos agarrou o pulso dele.

[Ela - Heroína]

Claro que ela sabia o que o “não usa” dele significava. Não era para o conforto dela — era para a conveniência dele: para que, em qualquer instante que ele quisesse, por trás, de lado, a partir de qualquer posição em que ela estivesse — lavando louça, cozinhando, assistindo a uma série —, ele pudesse levantar a barra e enfiar direto, sem ter de esperar que ela tirasse aquela camada incômoda de pano. Essa compreensão a deixou envergonhada e afobada, mas o que mais a afobava era que, no exato momento em que o dedo dele pressionou, aquela fenda rasa que antes estava comportadamente fechada já começara a rezumar uma umidade morna, escorregadia, deixando a ponta do dedo dele afundar e deslizar para fora, vez após vez. O corpo dela era muito mais honesto do que a boca — ela ainda não havia consentido, e lá embaixo já respondera por ela.

[Ele - Namorado]

Ele a ergueu para a cama, mas não teve pressa de subir. Apoiou-se sobre ela e expôs, uma a uma, as regras que pretendia estabelecer, o tom tão calmo quanto quem lê um contrato que ambos teriam de assinar. Regra um: nada de calcinha em casa, nem para dormir, sempre mantida num estado em que ele pudesse usá-la. Regra dois: se a primeira coisa ao acordar de manhã fosse ele estar duro, ela ficaria encarregada de tomá-lo na boca e acordá-lo, o que se chamava a “tarefa matinal”. Regra três: o cesto de roupa suja era todo por conta dela, incluindo as regatas, meias e cuecas encharcadas de suor com que ele voltava do treino todos os dias; antes de lavar, ela devia levar cada peça até a ponta do nariz e cheirá-la, e só depois jogá-la na máquina. Ela o encarou de olhos arregalados, os lábios se moveram, mas no fim não disse as palavras “por que eu deveria”.

[Ela - Heroína]

Por que ela deveria? Claro que essas palavras giraram em seu peito. Mas quando ele terminou a terceira regra, puxou aqueles pés brancos e limpos dela, fê-la olhar para ele e, sem pressa, tomou um dos dedos do pé dela na boca, todos os “por que eu deveria” se dissolveram naquela onda de formigamento. Enquanto lambia o peito do pé dela, os vãos entre os dedos, ele lhe dizia que as regras valiam para os dois, que ele também a serviria — ele lamberia os pés dela, lamberia até ela querer gritar, como retribuição por ela ser a cadela dele. Essa coisa — querê-la de joelhos e, ao mesmo tempo, dispor-se a ajoelhar-se por ela — era dez mil vezes mais perigosa do que uma simples ordem. Fazia a submissão parecer ser mimada, fazia-a entregar os joelhos de bom grado.

[Ela - Reflexões Sobre uma Vida de Cadela]

Só muitos anos depois ela conseguiu desmontar e entender: o que ele tinha de temível nunca fora aquela coisa de tamanho assombroso, mas essa receita de “céu e inferno”. Ele misturava a incumbência mais humilhante e o carinho mais minucioso na mesma colherada e a dava de comer a ela: fazia-a se ajoelhar e tomá-lo na boca, e quando ela terminava a recolhia nos braços e beijava-lhe a testa; fazia-a cheirar meias sujas, e quando ela terminava baixava a cabeça e lambia aquela porção macia dela até fazê-la tremer como se estivesse se urinando. Uma pessoa não consegue se manter de pé num desnível assim. Você nunca consegue distinguir se está sendo pisoteada sob os pés ou acolhida no peito, então acaba assumindo as duas coisas — é esse o verdadeiro anzol da domesticação: não a dor, mas a dor embrulhada em doçura.

[Ele - Namorado]

Ele por fim se virou e a pressionou por cima. No instante em que baixou o short esportivo, viu com clareza a respiração dela falhar num compasso — aquela coisa saltou, pesada, sob a luz amarelada e baça, formando um contraste quase absurdo com sua silhueta esguia: grossa, longa, com veias retorcidas, a ponta já rezumando um brilho. Ele não entrou de imediato; primeiro encostou-a naquela fenda rasa e escorregadia dela e esfregou para lá e para cá, espalhando por toda a fenda a água que ela mesma vertia, esfregando até o baixo-ventre dela se contrair em ondas, até as duas coxas longas e carnudas se abrirem para os lados sem querer, até o lençol sob o bumbum dela ser amassado em vincos por suas mãos. “Já quer?”, perguntou ele. Ela virou o rosto, recusando-se a responder, mas o quadril se ergueu de leve, indo ao encontro dele.

[Ela - Heroína]

Quando ele entrou, ela puxou o ar bruscamente. Aquela sensação de ser aberta e distendida era algo a que ela jamais conseguiria se acostumar — grande demais, rompendo centímetro a centímetro suas paredes internas úmidas e macias, enchendo-a por inteiro de dentro para fora, distendendo-a até uma leve dor surda, e naquela dor surda erguendo-se um formigamento denso e miúdo. Ele entrou bem devagar, deixando-a tomá-lo, apertá-lo e adaptar-se a ele centímetro a centímetro, até o ponto mais fundo ser alcançado por aquela ponta redonda e romba, e um gemido preso engasgou na garganta dela enquanto as unhas se cravavam nas costas esguias dele. A razão dela ainda resistia — era só o primeiro dia, elas mal haviam acabado de estabelecer aquelas regras absurdas; com que direito ela ficara molhada tão depressa, tão mole? Mas o corpo dela já havia desertado um passo antes, as paredes internas apertando e sugando em ondas, engolindo aquela coisa para ainda mais fundo.

[Ele - Namorado]

Ele se inclinou e, ao mesmo tempo que investia devagar, disse aquele apelido em voz alta pela primeira vez junto ao ouvido dela. “Número Quarenta e Três.” Ele cerrou os dentes sobre as palavras. “Guarde este número. De agora em diante, nesta casa, você é a minha Número Quarenta e Três.” Ele não sabia por que atribuíra assim, de improviso, um código desses; talvez só quisesse dar a esta versão tão diferente dela, dentro da porta, um nome que pertencesse apenas aos dois. Mas quando aquelas palavras caíram no ouvido dela, ele sentiu com clareza as paredes internas dela se contraírem de repente, o corpo inteiro como se algum interruptor tivesse sido acionado, apertando com tanta força que ele quase se rendeu ali mesmo. Aproveitando esse aperto, ele acelerou o ritmo das investidas, e o estrado da cama começou a bater na parede num compasso regular.

[Ela - Heroína]

Número Quarenta e Três. Aquela alcunha absurda, que a coisificava num objeto numerado, deveria tê-la enfurecido, mas no instante em que penetrou seu ouvido ela sentiu apenas um calor no baixo-ventre, molhando-se ainda mais forte. Ela por fim entendeu que tipo de mercadoria era — não fora obrigada; fora alimentada com isto até criar vício. As investidas dele ficavam cada vez mais pesadas, cada uma recuando até a entrada e então cravando com força até o fundo, o som de água ressoando onde os dois corpos se uniam num estalar viscoso e contínuo. Ela mordia o ombro dele, lágrimas fisiológicas rezumando dos cantos dos olhos, e o último resquício de vergonha do “é só o primeiro dia” foi despedaçado pelas estocadas.

[Ele - Namorado]

Ele ergueu uma das pernas dela e a apoiou na dobra do braço, mudando para um ângulo que o deixava entrar mais fundo. Aquela coxa dela era longa e carnuda, e escancarada e erguida daquele jeito, aquela fenda rasa se abria por completo diante dele, abrindo e fechando ao ritmo das investidas. Ele baixou a cabeça e mordeu um dos mamilos trêmulos dela, ao mesmo tempo que punha força no quadril, moendo fundo para dentro. O corpo inteiro dela estava dobrado numa postura de quem recebe, o peito empurrado para dentro da boca dele, os dois montes macios dos seios estremecendo a cada impacto. Ele gostava de vê-la assim — o pouco de recato que ela mantinha na boca durante o dia agora despedaçado centímetro a centímetro por suas estocadas, restando apenas a mais honesta entrega.

[Ela - Heroína]

No instante em que a perna foi erguida, ela ficou tão envergonhada que quis fechá-la, mas ele a mantinha firmemente aberta e ela não conseguia juntá-la; só lhe restou deixar aquele lugar mais íntimo ficar completamente exposto sob os olhos dele, observado a abrir e fechar, engolindo e devolvendo. Essa vergonha de ser vista por dentro, de ser escancarada, misturava-se ao formigamento que subia do fundo do corpo em ondas cada vez mais altas, empurrando-a para uma beira que ela mesma temia. Ela sentia aquela ponta redonda e romba se chocar vez após vez contra aquele ponto mais fundo, chocando-se até o baixo-ventre se retesar, os dedos dos pés se enrolarem, e o gemido na garganta não pôde mais ser contido, escapando som após som, como que implorando clemência em nome de seu corpo que havia desertado por completo.

[Ela - Reflexões Sobre uma Vida de Cadela]

A primeira noite morando juntos, as regras estabelecidas, o número atribuído. Ela estava deitada no abraço suado dele, ainda se contraindo em espasmos lá embaixo, mas em sua mente surgiu um pensamento estranhamente lúcido: a partir de hoje, sua vida se dividia em duas metades. Uma metade do lado de fora da porta, aquela recém-contratada, elogiada por ser confiável, de costas eretas; a outra metade do lado de dentro, esta que se ajoelhava quando mandada ajoelhar, que cheirava quando mandada cheirar, que era numerada como Quarenta e Três e por isso ficava encharcada. E o que mais a assustava não era essa cisão, e sim que ela, obscura e envergonhadamente, começava a ansiar pela metade de dentro da porta — como mais real, mais viva, do que a de fora.

[Ele - Namorado]

Antes de dormir, ele puxou um dos pés dela e o apoiou sobre o próprio peito, como que cumprindo a cláusula do contrato que lhe cabia, e baixou a cabeça para lamber com seriedade o peito do pé dela, os dedos, até ela arfar e pedir clemência. Só depois de fazer tudo isso é que ele a recolheu inteira nos braços, o queixo encostado no alto da cabeça dela, sem dizer nada. Do lado de fora da janela, aquele empreendimento inacabado estava escuro; dentro do quarto havia apenas a respiração de duas pessoas. Ele sabia que, logo cedo no dia seguinte, a primeira regra entraria em vigor — ele acordaria com uma ereção matinal, e então a sua Número Quarenta e Três levantaria o edredom e mergulharia para baixo das cobertas. Esse pensamento fez o canto de sua boca se curvar para cima sem que ele conseguisse conter. Ele esperava pelo amanhecer.