A poltrona mais escura da última fila

Capítulo 1倒数第二排,最靠边

Andarilho · 1226 palavras · Português

【Ela · protagonista】

Na hora de comprar os ingressos, ele já estava mexendo no mapa de assentos, o dedo deslizando de um lado para o outro naquela tela escura, e no fim tocou em dois lugares juntos na penúltima fileira, o mais colado à parede. Cheguei perto e dei uma olhada: aquela região quase não tinha ninguém marcado, só dois quadradinhos acesos, solitários, como duas bolhas em águas profundas. Não pensei muito, achei que ele só não queria a primeira fila, barulhenta e clara demais. Só depois entendi que, desde o instante em que comprou os ingressos, o que ele tinha na cabeça não era o filme.

Hoje me vesti de qualquer jeito. Um moletom cinza folgado, caindo até a raiz da coxa, e por baixo uma saia curta preta, tão curta que, ao sentar, eu tinha que instintivamente puxar a barra na direção do joelho. A lingerie por baixo era o conjunto que ele me comprou no mês passado, uma renda preta fininha, os bojos do sutiã quase transparentes, e a calcinha era só uma tira estreita, colada de um jeito que quase não se percebia. Antes de sair, fiquei um bom tempo parada diante do espelho, o rosto um pouco quente — por baixo não dava para esconder nada, mas por fora eu tinha esse ar tão comportado, tão insuspeito. Esse contraste me deixava com uma coceira por dentro, não sei dizer se era vergonha ou outra coisa.

【Ele · namorado】

Hoje ela estava bem raspada lá embaixo. Reparei nisso de manhã, quando ela trocava de roupa depois do banho — lisinha, sem sobrar nada, de um branco que quase cegava. Ela provavelmente achou que eu não tinha notado; vestiu a saia curta e saiu como se nada fosse. Mas a manhã inteira eu fiquei pensando naquela região limpa e lisa, incapaz de esconder qualquer coisa, imaginando ela agora colada àquela renda ridiculamente fina, roçando a cada passo. Escolher a última fila, a mais escura, não foi impulso do momento. Eu vinha planejando esta tarde havia dias.

【Ela · protagonista】

Ao entrarmos, as luzes ainda estavam acesas. O rapaz do controle de ingressos deu uma olhada preguiçosa no canhoto, e nós subimos os degraus, cada vez mais para o escuro. A fileira inteira era só nós dois, bem afastados; lá na frente estavam espalhadas umas quatro ou cinco pessoas, todas de cabeça baixa mexendo no celular. Ele sentou primeiro no lugar mais interno e deu umas batidinhas na cadeira ao lado, me convidando a sentar. O assento de veludo estava um pouco frio, colado ao meu corpo por baixo da saia fina, e eu, sem querer, juntei as pernas.

Quando os trailers começaram, as luzes se apagaram por completo. A luz da tela era forte, ora azul, ora branca, iluminando o perfil dele em lampejos. Ele se virou e disse algo perto do meu ouvido, o hálito varrendo minha orelha, e eu levei um arrepio pelo corpo inteiro. «Nada», ele riu, «só estava achando que você está especialmente linda hoje.» A mão dele pousou de um jeito muito natural no meu joelho, por cima da saia, uma mancha morna. Meu coração pulou uma batida, mas eu me disse: um casal no cinema, uma mão no joelho, é a coisa mais normal do mundo. Normalíssima.

【Ele · namorado】

Dava para sentir que ela estava tensa. O joelho dela tremia bem de leve sob a minha palma, como um bichinho pequeno preso na mão, querendo fugir mas sem coragem de fugir. Não tive pressa de mexer, só deixei a mão ali, sentindo o calor dela atravessar a saia aos poucos. Na tela rolava uma cena de explosão bem barulhenta, o som fazendo até as poltronas vibrarem. Uma cobertura tão perfeita, e mesmo assim eu não tinha feito nada ainda — eu queria que ela mesma se lembrasse, primeiro, do porquê de estarmos ali sentados.

【Ela · protagonista】

O filme começou. Me esforcei para acompanhar a trama, mas não registrei uma única palavra. A mão dele continuava no meu joelho, morna, comportada de um jeito absurdo. E quanto mais comportada, mais impossível era me concentrar. Cheguei até a começar a torcer — a torcer para que aquela mão se mexesse, e ao mesmo tempo a temer que ela se mexesse mesmo. A sala ficou em silêncio, restando só os diálogos abafados dos personagens na tela; eu conseguia ouvir até o som de eu mesma engolindo saliva. As nucas daquelas pessoas na frente estavam imóveis na luz fria. Estávamos tão perto delas, e ao mesmo tempo tão longe.

【Ela · protagonista】

Virei o rosto de escondido para olhá-lo. Ele olhava a tela, concentrado, como se realmente estivesse vendo o filme. Mas o polegar da mão que ele mantinha no meu joelho começou a esfregar, lentíssimo, quase imperceptível, contra a minha pele. Só isso, um pouquinho, indo e voltando. Minha respiração se desregulou de uma vez. Eu sabia que era só o começo. Eu sabia o que viria a seguir. E o pior de tudo — numa sala de projeção escura como aquela, com estranhos sentados, eu não queria nem um pouco que aquilo parasse.