O Jogo no Banco de Trás

Capítulo 1后座

Andarilho · 2338 palavras · Português

[Ke Ning · Protagonista (25)]

Quando me chamam de “gélida”, eu nunca nego. Só tenho preguiça de explicar—não é que eu seja fria, é que tranquei todas as reações lá dentro. Na aula, consigo apontar o erro no movimento de vinte alunos, com a voz reta feito uma régua. Depois da aula, sento no canto do vestiário, sem dar bola para ninguém, a tela do celular apagada, e olho meu próprio rosto sem expressão no espelho e acho que está tudo bem. Um metro e setenta e dois, mais de uma década dançando, um corpo firme, cintura fina—as pessoas me olham uma vez e recuam meio passo. Ninguém sabe que, bem atrás desse rosto, roda um filme na minha cabeça: um par de mãos desconhecidas prendendo meus ombros por trás, me imprensando num lugar cheio de gente, devagar, diante de todos, me abrindo. Nunca contei a ninguém. Nem ao Zhou Zhao. Muito menos ao Zhou Zhao.

[Ke Ning · Protagonista (25)]

Zhou Zhao é meu namorado. Me perseguiu com força, é alto, de ombros largos, aquele tipo malhado de academia. No começo eu achei que ser grande bastava. Depois descobri que ele transa como quem bate uma meta de KPI—enfia, estoca, estoca até ele gozar, e no fim se vira e fica no celular. Nunca me perguntou o que eu pensava, muito menos me enxergou por dentro. Ainda por cima é galinha. Aquelas “maninhas” e “gatas” no WeChat dele eu já tinha visto havia tempo, só tinha preguiça de brigar. Eu sou assim—qualquer coisa de alto custo emocional, eu simplesmente não faço. Mas quanto mais isso é verdade, mais aquele filme sujo roda na minha cabeça. A razão sabe que eu deveria me comportar, mas o corpo sempre protesta por mim de noite: o que ele quer nunca foi aquele foder direto e sem rodeios do Zhou Zhao.

[Xu Yu · Amigo do namorado (reservado, com um certo fetiche)]

Conheço a Ke Ning há meio ano. O Zhou Zhao a trouxe para jantar algumas vezes, e toda vez ela senta no canto, fala pouquíssimo, de olhos baixos, e quando implicam com ela só aperta os lábios. Todos dizem que ela é arrogante. Eu não vejo assim. Sou um homem de poucas palavras, acostumado a observar—notei como o dorso do pé dela fica esticado e reto quando cruza as pernas, notei como o ombro dela enrijece por um instante quando alguém a toca, e isso não é repulsa, é o enrijecer de quem foi acesa. Também notei que, quando o Zhou Zhao acariciou a mão de outra garota debaixo da mesa, a Ke Ning claramente viu, mas nem uma onda cruzou seu rosto—ela apenas virou de um gole a bebida do copo. Naquele instante eu soube: essa mulher, quanto mais se tranca, mais tem represado por dentro. E o Zhou Zhao não é nem de longe digno de segurar a chave.

[Ke Ning · Protagonista (25)]

Naquela noite era um encontro de cinco pessoas, num KTV. Zhou Zhao, Xu Yu, e as garotas que os dois amigos do Zhou Zhao trouxeram, uma cada. Eu não queria ir, mas não quero ficar sozinha quando minha cabeça fica barulhenta demais, então fui. A sala reservada fedia a fumaça e bebida, o microfone estava ensurdecedor, e o Zhou Zhao logo estava cantando um dueto com o braço em volta de alguém, a mão pousada na cintura dela como se fosse dono daquilo. Sentei no sofá de couro no canto mais fundo e virei copo após copo, o uísque servido bem forte, até que minhas pálpebras pesaram e as luzes da sala se dissolveram em manchas borradas de brilho nos meus olhos. Meio recostada no canto do sofá, fechei os olhos, e aquele filme começou a rodar de novo na minha cabeça. Alguém sentou ao meu lado, de leve, o ombro roçando no meu. Era o cheiro do Xu Yu—limpo, contido, um toquezinho de cedro.

[Xu Yu · Amigo do namorado (reservado, com um certo fetiche)]

Ela estava bêbada. De olhos fechados, bochechas em brasa, lábios um pouco entreabertos, respiração rasa. O vestido era um daqueles de tricô justo, colando nas pernas dela, as pernas de dançarina, longas e retas. Do lado dele, o Zhou Zhao estava numa bagunça com os outros e nem uma vez olhou para cá. Sentei ao lado dela, primeiro mantendo a distância de um punho, para ver se ela reagia. Ela não se esquivou. Pousei a mão no joelho dela—sem mover, só descansando ali. A perna dela estremeceu, e então… devagar, se abriu. Não se fechou, se abriu. Uma corda dentro de mim se retesou de vez. Ela não estava bêbada a ponto de não saber—estava acordada, estava fingindo dormir, estava me permitindo.

[Ke Ning · Protagonista (25)]

No segundo em que a mão dele pousou no meu joelho, metade de mim despertou. A razão gritava: abra os olhos, empurre, esse é o amigo do Zhou Zhao, isto é um KTV, tem gente por toda parte. Mas meu corpo decidiu um passo à minha frente—minha perna se abriu sozinha. Aproveitando o embalo da bebida, fechei os olhos com mais força e fingi dormir profundamente. Disse a mim mesma: é a bebida, é que não consigo me controlar, não é que eu queira. Mas outra voz dentro de mim ria com frieza: Ke Ning, faz quantos anos que você espera por exatamente isto. A palma dele era tão quente; através do tecido do vestido de tricô, centímetro a centímetro subindo, quando alcançou a parte interna da minha coxa eu já estava ficando úmida lá embaixo. Diante de todos, sob os olhos de todos, sendo tocada por um homem que mal conheço—não era exatamente o filme que eu rodei mil vezes na minha cabeça.

[Xu Yu · Amigo do namorado (reservado, com um certo fetiche)]

Alcancei a parte interna da coxa dela, e a pele ali era assustadoramente macia—os músculos de quem dança são firmes, mas este ponto estava escaldante, úmido. Eu não tinha pressa. Nunca tenho pressa com nada; é o meu único talento. Com a ponta do dedo esfreguei devagar, através do vestido e daquela camada fina de calcinha, procurando o ponto dela. A respiração dela ficou irregular, mas o rosto ainda forçava a calma, as sobrancelhas levemente franzidas, como se lutasse consigo mesma. Eu adoro isso—uma mulher que se tranca tão firme, o corpo confessando um passo à frente dela. A calcinha dela já tinha marcado uma pequena mancha úmida. Aproximei-me do ouvido dela, a voz apertada o mais baixo possível, só para nós dois ouvirmos: “Para de fingir. Tuas coxas já estão apertando minha mão.”

[Ke Ning · Protagonista (25)]

Aquela frase foi como uma agulha, atravessando a casca do meu sono fingido. Ardi de vergonha, o rosto ainda mais quente—minhas coxas realmente estavam apertando a mão dele, e eu nem tinha percebido. Vergonha e prazer correm pelo mesmo nervo, e espetada assim, tudo lá embaixo se contraiu de uma vez e jorrou mais umidade. Através do tecido ele esfregava meu grãozinho, a força indo do leve ao forte, a ponta do dedo desenhando círculos, cada vez mais rápido. Mordi o lábio inferior, sem ousar emitir som, a algazarra da sala cobrindo meu ofego pesado e contido. Minha mente inteira estava nisto: o Zhou Zhao está a três metros, e bastava alguém virar a cabeça para ver, mas mesmo assim eu não o empurrei, ainda queria mais. Essa constatação me deixou envergonhada e excitada, os cantos dos olhos começaram a arder e se cobriram de uma camada úmida. O dedo dele de repente parou naquela estocada mais cruel, e eu quase não segurei um grito.

[Xu Yu · Amigo do namorado (reservado, com um certo fetiche)]

Eu sabia que ela estava perto—as coxas dela começaram a tremer de leve, aquele tremor que sobe lá de dentro, do tipo que não se finge. Pressionei o tecido para dentro da fenda dela, moendo o núcleo dela através da calcinha encharcada, o ritmo cravado no ápice da respiração dela. O corpo inteiro dela se encolheu na minha direção, a cabeça enterrando na curva do meu ombro, os lábios contra o meu pescoço, o hálito se derramando na minha pele. Moí forte umas últimas vezes e senti o corpo inteiro dela se retesar num arco, depois desabar, pulsando em ondas. Ela gozou. Diante do namorado, na minha mão, sem um som, mordendo-se com força. Quando a coisa acabou, ela nunca abriu os olhos para me encarar, mas antes de sair do carro, disse, tão baixo que só eu ouvi: “…Essa foi por conta da bebida.” Eu sorri. Por conta da bebida. E a próxima.

[Ke Ning · Protagonista (25)]

De volta em casa naquela noite, o Zhou Zhao quis transar. Não recusei—tive medo de que recusar me entregasse. Mas quando ele subiu em cima de mim, minha cabeça estava cheia daquela mão no banco de trás, cheia do “para de fingir” do Xu Yu no meu ouvido. O Zhou Zhao estocava em cima de mim, grosseiro, apressado, pensando só em si como sempre, e no entanto eu estava mais úmida do que nunca, tão úmida que até ele hesitou por um instante e disse: “Por que você está tão safada hoje.” Mantive os olhos fechados, virei o rosto para o lado, e deixei as lágrimas escorrerem sem aviso. No instante em que gozei debaixo dele, o nome que gritava na minha cabeça não era o dele. Só então entendi: aquela porta que mantive trancada por tantos anos foi forçada numa fresta por um homem silencioso, com uma só mão. E eu não queria de jeito nenhum fechá-la de volta.