O Jogo de Cartas em Guangzhou

Capítulo 1面基

Andarilho · 260 palavras · Português

【Eu · Homem solteiro】Na quinta-feira à noite da semana passada, em viagem de trabalho em Guangzhou, entediado, eu vasculhava o círculo enquanto assistia a uma live. Não fazia muito tempo que eu tinha entrado no meio e sempre me lembrava do conselho dos mais velhos: não sair importunando casais à toa; ver alguém que procura, por conta própria, um homem solteiro, e só então cumprimentar com educação. Coincidência das coincidências, deparei justo com um casal em viagem procurando alguém; mandei mensagem privada na hora, reescrevendo a redação três vezes antes de ter coragem de enviar. O irmão respondeu depressa; conversamos sobre a situação básica, ele perguntou quando eu tinha chegado, onde eu estava hospedado, em que ramo eu trabalhava, sem nenhuma pergunta capciosa — pelo contrário, tudo dava sensação de firmeza. No fim, ficou combinado o encontro para o sábado; fiquei encarando aquela mensagem por um bom tempo, o coração batendo como se eu tivesse acabado de correr.

【Irmão · Marido】Sinceramente, quem topa tomar a iniciativa de procurar um homem solteiro sou eu, na maioria das vezes. Ela é acanhada, para esse tipo de coisa nunca se dispõe a dar o primeiro passo. Naquela noite, deparei com a mensagem privada desse rapaz: foto de perfil limpa, palavras educadas, respondendo uma a uma às perguntas, nada oleoso. Passei o celular para ela, ao meu lado, dar uma olhada; ela fingia estar vendo uma série, mas os olhos espiavam a tela. Eu sabia que ela tinha ficado interessada, só que a boca não admitia. Marquei o sábado por ela e, ao me virar para olhá-la, ela desviou o rosto, mas a raiz das orelhas estava vermelha — depois de tantos anos, eu conheço bem demais esse pequeno gesto dela.

【Cunhada · Esposa】Quando ele me enfiou o celular na mão, meu coração deu um “baque”. Aquele estranho na tela falava com toda a cortesia, e eu, mesmo assim, mal conseguia olhar duas vezes de tanta vergonha. Aceitar, ou não aceitar? Da boca eu dizia “o que você quiser”, mas os dedos, por baixo do edredom, ficavam raspando o lençol. À noite, deitada, ele já dormia profundamente, e eu me revirava sem parar. Não é que eu nunca tivesse imaginado aquela cena — um homem que eu não conhecia, um par de mãos que eu não conhecia. Ao pensar nisso, puxei depressa o edredom para cima, como se assim pudesse encobrir aquele pensamento que eu não deveria ter. Mas não dava para encobrir; era como água, escorrendo pouco a pouco da ponta do edredom.

【Eu · Homem solteiro】No sábado eu tinha, para começar, uma reunião. Mas com aquilo pesando na cabeça, fiquei na sala de reuniões o tempo todo distraído, sem guardar em que página o PPT estava. Custei a atravessar a pauta principal e, na primeira oportunidade, peguei um táxi e voei até o destino. Fiquei esperando o irmão e a cunhada na sala reservada e, para disfarçar o nervosismo, quase deixei um bule inteiro de chá sem gosto de tanto tornar a passar água, bebericando enquanto ensaiava mentalmente, vez após vez, o que ia dizer depois do encontro. Enfim ouvi baterem à porta; o coração deu um “tum”, como uma pedra que estava suspensa e finalmente pousou — e no instante seguinte tornou a subir.

【Cunhada · Esposa】Antes de bater à porta, respirei fundo várias vezes no corredor. Me olhei no espelho o caminho inteiro, retoquei o batom uma e outra vez, puxei a barra do vestido de novo e de novo, com medo de que algo estivesse fora do lugar. Quando de fato empurrei aquela porta e vi aquele homem levantar-se do assento, sem jeito, até me tranquilizei — ele estava mais nervoso do que eu. Ele me serviu chá, a mão tremendo, o chá transbordou um pouco, e ele, atrapalhado, pegou papel para limpar. Apertei os lábios sem coragem de rir alto, e aquela corda dentro de mim, sempre tensa, foi, com aquela desajeitagem dele, afrouxada pela metade. Mas eu ainda não ousava falar muito, com medo de que, ao abrir a boca, a voz denunciasse meu receio.

【Irmão · Marido】Sou um sujeito conversador; à mesa tomo a iniciativa de puxar os assuntos, falo do ramo, das comidas de cada lugar, das coisas curiosas que vi na estrada, preenchendo os silêncios por eles dois. Ela, sentada ao meu lado, no começo só se ocupava de cabeça baixa pegando comida, falava pouco, mas eu percebia que ela ia relaxando aos poucos — a comida que servia para mim, de passagem, também servia uma porção para o prato dele. Isso era um bom sinal. Nesses anos, andei com ela de norte a sul, vi muita gente, mas toda vez que a vejo passar do acanhamento ao relaxamento, sinto no peito um gosto difícil de explicar, ao mesmo tempo desejoso e um pouco relutante.

【Eu · Homem solteiro】Servidos os pratos, comíamos e conversávamos, e a labia do irmão foi, aos poucos, esquentando o clima. A cunhada no começo falava pouco, depois passou a emendar duas ou três frases, e quando ria os olhos se curvavam, a voz suave. Depois da comida, criei coragem de novo e convidei os dois a passarem um pouco no hotel; mal saíram as palavras, me arrependi de ter dito de forma tão direta, o rosto até esquentou. Sem que eu esperasse, o irmão aceitou de bom grado, e a cunhada também não recusou, só baixou a cabeça e ajeitou o cabelo. Naquele instante, era como se um tamborzinho batesse dentro de mim.

【Cunhada · Esposa】No carro a caminho do hotel, não disse uma palavra, só fiquei olhando as luzes de néon recuarem pela janela ao longo do caminho. O coração batia forte, a palma das mãos toda suada. Chegando ao quarto, sentamos e conversamos mais uma hora; eu segurava o copo de água, bebericando em pequenos goles, sendo que na verdade não estava nem um pouco com sede, só queria dar algo para as minhas mãos fazerem. Eu sentia o olhar dele pousar no meu rosto, nos meus lábios enquanto eu falava, quente, sem como esquivar. Sendo olhada assim, eu não me senti ofendida — pelo contrário... em algum lugar dentro do corpo, algo amoleceu em silêncio. Era uma sensação tão estranha, estranha a ponto de eu não ousar admiti-la.

【Eu · Homem solteiro】Depois de mais uma hora de conversa agradável no hotel, meus olhos, porém, realmente não se comportavam — olhando os lábios vermelhos da cunhada abrindo e fechando enquanto ela falava, olhando aquela curva macia da cintura dela quando se levantava para pegar água, aquele pensamento dentro de mim crescia feito mato, e na cabeça eu já tinha imaginado uma vez como a puxaria para o meu colo. Mas, no fim, ainda me contive; eu não queria estragar as regras, nem queria assustá-la. Combinei com o irmão de vir, oficialmente, na semana seguinte.

【Irmão · Marido】Ao ir embora, notei de relance aquele fogo mal disfarçado nos olhos do rapaz, e no fundo até me tranquilizei — ele se conteve, e isso já bastava. Só quem está disposto a respeitar as regras é digno de dar o próximo passo. Dei um tapinha no ombro dele e disse: até semana que vem. No carro, na volta, ela encostou no meu ombro e, depois de um bom tempo, perguntou baixinho: “Aquele cara... é gente boa, né?” Eu ri, não respondi diretamente, só apertei a mão dela. Eu sabia que essa semana, para ela também, não seria curta.

【Eu · Homem solteiro】Naquela noite, na volta, deitado na cama do hotel numa cidade estranha, me revirei sem parar, a cabeça só com a imagem da cunhada rindo de cabeça baixa, com aquele “até semana que vem” do irmão quando me deu o tapa no ombro. Do lado de fora da janela era a noite quente e úmida de Guangzhou, o ar-condicionado zumbindo. Contando os dias nos dedos, essa semana, temia eu, ia ser especialmente longa.