【He Lan · Mulher Casada】
Naquela manhã de fim de semana de outubro, a luz entrava enviesada pela fresta da cortina e se espalhava pela cabeceira da cama. Quando He Lan abriu os olhos, a casa estava quieta como uma poça de água congelada. O marido estava de costas para ela, os ombros subindo e descendo com a respiração. Os dois estavam numa guerra fria havia três dias inteiros—de que bobagem tudo começara, ela já nem se dava ao trabalho de lembrar. Ela ficou um tempo olhando a nuca dele, e de repente se virou e se colou nele. Não era perdão; era uma espécie de despeito que nem ela sabia explicar: quanto mais engasgada por dentro, mais queria provar alguma coisa.
Ele acordou, soltando um resmungo na garganta. Ela nada disse, ergueu o cobertor e desceu a mão, os dedos fechando-se em torno da forma matinal semiereta dele e acariciando devagar. A respiração do marido ficou grossa; a mão dele desceu ao alto da cabeça dela, mas nenhuma palavra doce veio. Ela abaixou a cabeça e o tomou, a ponta da língua circulando a glande, engolindo três dias de ressentimento naquele ato—fazendo tudo com prática e frieza. Os dedos dele se apertaram, o quadril empurrou para cima duas vezes, e com um gemido abafado ele gozou dentro dela. Ela ergueu o rosto e engoliu aquele pouco de calor, depois levantou os olhos para ele—ele tinha virado o rosto para alcançar o celular. Nem um obrigado. Algo despencou no peito dela, como uma pedra afundando até o fundo.
“A avó está esperando o chá, anda logo.” Ele falou enquanto vestia a roupa, num tom todo profissional. He Lan sentou-se na beira da cama, sentindo aquele resquício de umidade ainda grudado no canto dos lábios, e achou tudo tão absurdo que quase riu. Acabara de fazer a coisa mais íntima por aquele homem, e ele não erguera nem uma pálpebra a mais. Ela foi se lavar; a mulher no espelho tinha vinte e nove anos, os traços limpos, só que no olhar se acumulava um fogo sem para onde ir.
A casa da avó ficava na cidade velha, do outro lado da cidade, e a escada de madeira rangia sob os pés. O chá fora preparado pelas próprias mãos da avó; um cômodo cheio de parentes, conversa fiada, gentilezas. Ela pretendia bancar a nora dócil, mas por causa de uma velha história—“Não foi você que deixou aquele vaso de flor morrer da última vez?”—foi repreendida pela avó diante de todos. Não fora ela quem matara a flor, e abriu a boca para se defender, mas o marido falou primeiro—“A mãe tem razão, tenha mais cuidado daqui em diante.”
Ele ficou do lado da avó. Diante de todos, empurrou-a, sozinha, para o banco adversário. O rosto de He Lan foi esquentando aos poucos—não de vergonha, mas de raiva. Ela abaixou a cabeça e tomou um gole de chá; já estava frio, áspero e amargo. Em meio às risadas da mesa, ela se sentia sobrando. A tarde toda não disse mais uma palavra, as unhas cravando uma fileira de meias-luas no joelho.
【Nat · Homem Estrangeiro】
Nat estava fazendo hora extra na empresa dele na cidade naquele dia, resolvendo um lote de pedidos de embarque atrasados. Conhecera He Lan três meses antes, num coquetel do setor—ela viera acompanhar o marido para socializar, de pé num canto segurando uma taça de vinho mal tocada, mas os olhos rodando pela multidão como um pássaro numa coleira. Ele lhe entregara uma taça nova, trocara umas frases banais sobre a cidade dela, o sotaque dela; quando ela ria, havia uma curvinha muito bonita no canto dos olhos.
Trocaram números e, depois, mensagens ocasionais, todas sem importância: ela perguntava sobre os festivais da terra dele, e ele lhe contava das luzes do Diwali; ele perguntava o que ela fazia nos fins de semana, e ela dizia que fazia companhia à família, com um cansaço embotado pela vida transparecendo nas entrelinhas. Nat sabia ler aquilo. Já vira mulheres demais assim—apertadas aos poucos por um casamento, mas sem querer admitir que estavam sufocando. Ele não tinha pressa; um estrangeiro tem a paciência de um estrangeiro, como quem espera a chuva.
Ao anoitecer, o celular dele acendeu. Era ela.
【He Lan · Mulher Casada】
No carro, a caminho de casa, os dois fizeram o trajeto inteiro em silêncio. Do lado de fora da janela, os postes recuavam um a um; He Lan encostou a testa no vidro gelado do carro, e o fogo no peito ardeu o caminho todo, cada vez mais intenso. Ela pensou: por quê. Por que, tendo cumprido todo o seu dever, o que recebia em troca era a humilhação pública; por que, num cômodo cheio de gente assim, não havia uma única pessoa para falar por ela.
No sinal vermelho, o carro parou. Quase por pirraça, ela abriu o celular e rolou até o número salvo com um nome estrangeiro. A ponta do dedo pairou sobre a tela, hesitou por três segundos, e então desceu. “Você está livre amanhã de manhã?” Enviado. O coração batia um pouco rápido, metade medo, metade um prazer de quem joga tudo para o alto.
A resposta veio quase de imediato: “Estou. Aonde você quer ir?” Ela fitou aquela linha e de repente sentiu a pedra que lhe entupira o peito por três dias afrouxar num canto. O sinal ficou verde, o marido pisou no acelerador, sem saber de nada. He Lan virou o celular de cabeça para baixo no colo, olhou para fora da janela e, pela primeira vez naquele fim de semana interminável, um traço de sorriso tocou o canto dos seus lábios.
【Nat · Homem Estrangeiro】
Nat olhou aquela linha na tela—“Você está livre amanhã de manhã”—e sorriu. Sabia o que uma mensagem assim significava—não que ela estivesse de fato perguntando se ele estava livre, mas que estava buscando para si um motivo, um motivo para atravessar aquela porta. Ele respondeu devagar, com firmeza, como quem não quer assustar um pássaro que enfim resolvera se aproximar.
Sugeriu ir na manhã seguinte àquelas colinas na borda da cidade—não muito altas, só uma caminhada e uma olhada em volta, com um bosque baixo atrás, bem quieto. Ela concordou depressa. Largando o celular, Nat foi até a janela; as luzes da cidade se fundiam numa única mancha na noite. Lembrou-se de que faltavam só dois dias para o Diwali; a família inteira já reservara as passagens para voltar à terra natal pela festa, e a casa logo ficaria vazia. Sem alterar uma linha do rosto, ele desenhou na cabeça o percurso do dia seguinte, parada por parada, até o fim.