【Ela · RH】
Na empresa, não são poucos os que me chamam de «cara de ferro» — não ousam dizer na minha frente, mas comentam bastante pelas costas. Trinta e dois anos, sete anos na área de pessoal, assinei mais cartas de demissão que qualquer um e sorri menos vezes que qualquer um. Não é encenação, é praticidade — para uma mulher no ambiente de trabalho, a maneira mais rápida de não ser manipulada é fazer todos acharem que é melhor não te provocar. Com o tempo, até eu mesma quase acreditei naquela cara. Desta vez fui enviada para o sul para tratar do maldito assunto da renovação de contrato de um fornecedor. Vesti, como de costume, aquele terno azul-marinho, o cabelo preso sem um fio fora do lugar. No dia em que aterrissei, chuviscava; retoquei o batom no banheiro do aeroporto e, diante do espelho, recoloquei aquela cara profissional e impessoal.
O jantar de boas-vindas foi num restaurante de comida caseira reservado. Do nosso lado, três pessoas; do lado deles, um bando, com as gentilezas de praxe. Sentei num lugar mais para dentro, segurando o chá, falando o mínimo possível, sem abrir a boca sempre que um aceno de cabeça bastasse. Esse tipo de situação eu conhecia mais do que bem — os homens, na metade da bebedeira, começam a competir no volume da voz; após umas rodadas, alguém, discretamente, aproxima a cadeira do meu lado. Eu já tinha treinado toda uma tática impenetrável: um pouco mais fria, um pouco mais dura, fazer o outro achar sem graça e recuar naturalmente.
Ele chegou quase na hora de servir. Mal a porta se abriu, aquele burburinho baixou pela metade. Pouco mais de um metro e noventa, o dorso largo esticando a camisa, um estrangeiro — um executivo da joint venture do lado do fornecedor, responsável por essa linha. Todos se levantaram para apertar a mão dele; ele respondia a cada um, a força na medida certa, o chinês com sotaque mas muito fluente. Quando chegou a minha vez, ele estendeu a mão; eu, como de costume, só a toquei de leve, querendo recolhê-la, mas ele demorou meio segundo a mais, o olhar pousado no meu rosto, como se lesse a palavra «fria», e então deu um leve sorriso. Aquele sorriso não foi galante; parecia mais que ele anotara algo.
【M · executivo】
Trabalho neste ramo há anos demais; as mulheres à mesa se dividem em dois tipos: um que anseia por ser olhado, sorrindo o tempo todo; outro, que se recolhe firmemente, sem dar uma palavra a mais. O segundo tipo costuma ser mais interessante — quanto mais apertado o recolhimento, mais coisa há reprimida por baixo. Ela era do segundo tipo. Durante o jantar inteiro quase não tomou a iniciativa de falar; os dedos que seguravam a xícara eram firmes, as unhas bem-cuidadas, sem esmalte. Mas notei que, cada vez que a fala de alguém cruzava a linha, o maxilar dela se retesava de forma quase imperceptível — não era falta de reação, era contenção.
Não tive pressa. Com esse tipo de mulher, quanto mais você se aproxima, mais ela se fecha. Fiz só duas coisas. A primeira: durante todo o tempo, nenhuma das minhas falas foi dirigida àquele rosto dela; o que conversei com ela foram cláusulas, câmbio, prazo de fornecimento — tratei-a como adversária, não como uma mulher para paquerar. Ela ficou um instante atônita e logo respondeu com extrema rapidez, o raciocínio claro, e nos olhos dela, pela primeira vez, surgiu uma luz diferente. A segunda: antes de o jantar terminar, troquei o chá frio da xícara dela por água morna, sem dizer nada, só troquei, e continuei conversando com quem estava do lado. Ela não agradeceu, mas olhou para aquela água, e depois olhou para mim.
【Ela · RH】
O jeito como ele negociava me deixava um pouco desconfortável, porque ele me levava a sério. Todos esses anos, os homens à mesa ou me tratavam como um enfeite a ser testado, ou, por eu ser fria, simplesmente me tratavam como inexistente e só conversavam com os dois colegas homens do nosso lado. Ele era diferente; contornava-os e me perguntava diretamente sobre aquela cláusula da multa por quebra de contrato, com a faixa de flutuação, perguntando de forma capciosa, de modo que eu era obrigada a me concentrar ao máximo para respondê-lo. Naquele jantar, pela primeira vez não senti que era um martírio; até — admito — me senti um pouco acesa. Aquela sensação de ser levada a sério é mais perigosa que qualquer elogio descarado.
Ao terminar, alguém propôs irmos ao caraoquê, dizendo que era raro nos reunirmos. Eu queria recusar, mas o Zhou, nosso negociador principal, me deu uma piscadela, no sentido de dar prestígio ao outro lado. Não tive escolha e entrei no carro. Na sala reservada, a luz era vermelha e abafada, uma mesa cheia de pratos de frutas e cerveja, os homens disputando o microfone e berrando. Encolhi-me na ponta do sofá, no canto, abraçada a um copo de vinho de fruta quase intocado, calculando como daria depois uma desculpa para sair primeiro. Não sei quando ele foi sentar num lugar não muito distante de mim, com um assento vazio de intervalo, sem se encostar, só inclinou a cabeça e disse, num volume que só nós dois ouvíamos: — Aqui é barulhento demais, você não gosta. — Não era pergunta.
【M · executivo】
Assim que a luz da sala escureceu, as pessoas relaxaram. Ela achava que, escondida no canto, eu não perceberia que queria ir embora, mas a ponta dos pés dela estava sempre voltada para a porta, e o celular girou duas vezes na mão sem ser destravado — ela esperava um motivo para sair, sem querer parecer mal-educada. Dei-lhe uma escada: disse que ali perto havia um bar tranquilo, que umas pessoas tomariam um drinque e se dispersariam, melhor que ficar ali ficando surdo. Falei de forma bem casual, como se fosse um comentário à toa, e ao mesmo tempo joguei a fala para a sala inteira, não a convidei sozinha. O Zhou e os outros já estavam meio bêbados; ao ouvir que haveria uma segunda parte, começaram a se animar e todos quiseram ir. Assim ela não pôde recusar — não era eu retendo-a, era «todo mundo» indo. Aquela intençãozinha dela de escapar foi bloqueada por mim com uma multidão. É claro que ela percebeu, mas não desmascarou. Levantou-se junto, ajeitou o vestido, sem me olhar.
【Ela · RH】
O bar era mais tranquilo que o caraoquê, mas a bebida era mais forte. Eu só queria fingir que bebia, mas aqueles colegas homens brindavam em rodízio, empurrando de um lado a outro, e eu não tinha coragem de recusar — esse também é meu velho defeito: quem se mantém contida é quem mais teme estragar o clima diante dos outros, preferindo sofrer sozinha. Um copo após o outro; a princípio uísque com soda, depois, não sei quem pediu uma rodada de puro. Ele estava sentado meio de frente para mim, bebendo com mais firmeza que qualquer um, falando pouco, de vez em quando me olhando por cima da mesa, e naquele olhar não havia aquele escrutínio dos outros homens, só um olhar quieto, quieto, que me fazia arder as orelhas sem que eu soubesse dizer o que havia de errado.
Não sei em qual copo, descobri que eu falava mais. Normalmente eu jamais rio diante dos colegas; naquela noite ri até duas vezes, e cheguei a completar a piada picante de alguém, fazendo o Zhou e os outros baterem na mesa. O álcool ia amolecendo aos poucos aquela cara fria que eu usava havia sete anos; eu sentia que ela ia se soltando, e nem tinha vontade de segurá-la de novo. Houve um instante em que até pensei: que se dane, afinal, nesta cidade onde ninguém me conhece, ter ou não cara de ferro que importância tem? Assim que esse pensamento despontou, eu soube que estava perdida — aquilo de que eu me defendia havia tantos anos nunca foram os outros; era eu mesma.
【M · executivo】
Ela bêbada e ela sóbria eram duas pessoas. A cara fria derretida, os cantos dos olhos avermelhados, ao falar lambia os lábios inconscientemente. Ela não sabia que aquele copo dela eu nunca deixava esvaziar de fato — sempre que via o copo dela raspar o fundo, eu sinalizava ao garçom para reabastecer mais fraco; eu queria que ela relaxasse, não que caísse. O que realmente a embriagava não era o álcool, era ela mesma finalmente ter pego uma noite em que não precisava se manter contida; aquele prazer de se soltar sobe mais à cabeça que o álcool. As pessoas, ao chegar a certo ponto, deixam vir à tona primeiro o que reprimiram por mais tempo. Ela reprimira por muito tempo, isso eu percebia.
Passava das onze quando o Zhou e os outros não aguentaram mais e começaram a berrar que iam voltar ao hotel dormir. Eles não estavam no mesmo hotel que nós. O Zhou, meio zonzo, quis levá-la, mas cambaleava. Eu disse que estava no caminho e que deixassem que eu levaria. Isso era meio verdade meio mentira — meu carro de fato passava perto do hotel dela, mas aquele «no caminho» era uma escada que eu dava a ela, e a ela mesma — não era ela querendo ir comigo, era só «estar no caminho». Ela recostou-se na cabine, as bochechas de um vermelho intenso, ergueu os olhos e me olhou por muito tempo, tempo suficiente para eu achar que ela recusaria. E então ela só passou a bolsa pelo ombro; ao se levantar, cambaleou, eu a amparei, e ela não me afastou. Só esse não me afastar já dizia tudo, mais que qualquer coisa.