A calouro que usaram até estragar

Capítulo 1开学第一周他甩了我

Andarilho · 2193 palavras · Português

【Ela · a caloura】

No dia da matrícula caía uma garoa, ela tinha dezoito anos e dois meses, arrastando uma mala entupida de roupa de cama, do portão da faculdade até o prédio do alojamento, com a rodinha da mala presa numa fresta do piso, e ela sozinha agachada arrancando aquilo por um bom tempo. O celular vibrava no bolso, ela achou que fosse ele. Nos três anos do ensino médio ela só namorou esse único garoto, aquele amor limpo de passar cadernos de dever de mão em mão e dividir um par de fones à beira da pista de atletismo. Ele passou no vestibular um ano antes dela, numa faculdade de outra cidade, e antes de ir, abraçando-a na estação, disse que quando ela também entrasse na faculdade eles iam tornar as coisas oficiais. Ela carregou esse «tornar oficial» o ano inteiro, como quem carrega um vale-troca.

A tela do celular acendeu, era ele. O coração dela acelerou um pouco, encostada na parede úmida ela abriu a mensagem. Ele tinha escrito um trecho longo, tão cerimonioso como quem fala com alguém pouco íntimo. Em resumo, a vida na faculdade não era como ele imaginava, ele tinha conhecido muita gente nova, achava que eles já não estavam no mesmo mundo e esperava que ela também seguisse em frente. A última frase era «Você vai encontrar alguém melhor». Ela ficou muito tempo encarando essas seis palavras, a água da chuva escorrendo do beiral e batendo na alça da mala, uma vez, e outra. Ela não chorou, só sentiu que aquele pedaço do peito de repente foi escavado, e o vento entrou, gelado, até dormir.

【Eles · os garotos】

Chen Yu era um dos monitores veteranos do acampamento de calouros daquele ano, segundanista, chamado pelo grêmio para dar suporte. Ele ficou de pé sob o toldo do balcão de matrícula, fumando meio cigarro, olhando as levas de calouros entrando. Ele já tinha decifrado o padrão dessa temporada havia muito: sempre há algumas calouras recém-terminadas, com o olhar perdido, o celular apertado com força, sorrindo educada e forçadamente para todos. Esse tipo de garota é o mais fácil de abordar — elas não estão precisando de alguém, estão precisando de alguém que prove que «ainda valem a pena ser desejadas». Ele apagou o cigarro e o olhar pousou naquela garota agachada junto à parede arrancando a rodinha da mala. No instante em que ela ergueu o rosto para olhar o celular, a cara inteira desabou e depois se recompôs à força. Chen Yu sorriu, ajeitou o crachá e foi até lá.

【Ela · a caloura】

«Caloura? Deixa que eu ajudo.» O veterano, sem dar chance de recusa, pegou aquela mala pesadíssima, jogou-a com facilidade no ombro e foi puxando conversa enquanto caminhava, perguntando de qual curso ela era, de onde vinha, em que andar ela morava. O jeito dele de falar era totalmente diferente do ex-namorado; o ex sempre perguntava com cautela «você não vai se cansar?», já esse veterano decidia diretamente por ela — você vai por aqui, a mala fica comigo, não falte no acampamento hoje à noite. Empurrada por esse tom que não admitia recusa, ela até sentia menos esforço. Chegando embaixo do alojamento, ele largou a mala e, de passagem, bagunçou o cabelo dela dizendo: não fica remoendo sozinha, vem hoje à noite. Ela ficou plantada ali, e o calor daquela mão no topo da cabeça só se dissipou muito depois. Ela pensou: então ser tratada assim, sem cerimônia, também é uma forma de ser levada em conta.

【Ela · a caloura】

O acampamento de calouros era numa área de camping na montanha atrás da faculdade, à noite acenderam uma fogueira e um círculo de pessoas ficou em volta jogando aqueles jogos de quebra-gelo. Ela a princípio só queria se encolher no canto, mas Chen Yu a puxou para dentro do círculo. O jogo era do tipo comum, quem perdia tinha de aceitar uma prenda, beber um gole de uma «água mágica» misturada com várias bebidas, ou cumprir uma tarefa. A sorte dela estava péssima, perdeu três rodadas seguidas, teve o rosto pintado com bigode de gato de batom e foi obrigada a beber quase meio copo de uma bebida doce e enjoativa. Quando o álcool subiu, pela primeira vez ela sentiu que aquele buraco no peito já não doía tanto. Ela riu mais alto que todos, riu até os cantos dos olhos arderem — fazia muito tempo que ela não se soltava assim, algo que nunca acontecera com aquele que temia sempre que ela pegasse frio, que a lembrava até de beber menos chá com bolinhas.

【Eles · os garotos】

Chen Yu observava do lado, muito satisfeito. Essa garota era delicada, baixinha, vestia uma camiseta branca folgada, e ao rir mostrava dois pequenos caninos. Aquele ar retraído da chegada, mergulhado no álcool e na fogueira, já tinha se soltado pela metade. Ao lhe passar o terceiro copo, ele de propósito roçou o dedo no dorso da mão dela, e ela não se esquivou. Ele já tinha uma noção. Esse tipo de garota não é difícil; o difícil é fazê-la sentir que é ela mesma que quer — desde que cada passo seja «voluntário» dela, depois, não importa até onde chegue, ela não vai se voltar para culpar ninguém, só vai culpar a si mesma. O que Chen Yu mais sabia fazer era colocar os degraus um a um, para a pessoa descer sozinha. Ele chegou perto do ouvido dela e, com a voz bem baixa, disse que a fogueira estava barulhenta demais, que fossem sentar ali.

【Ela · a caloura】

Eles se sentaram numa pedra grande na borda do camping, com o bosque escuro atrás e, à frente, a fogueira pequena ao longe e o burburinho das pessoas. Uma brisa fria soprou e ela tremeu, e Chen Yu, com naturalidade, pôs a jaqueta sobre os ombros dela, o braço deslizando para as costas dela. O corpo inteiro dela se enrijeceu por um instante. A razão dizia que aquilo não estava certo, ela só tinha conhecido esse cara hoje. Mas outra voz zumbia no álcool — aquele que tinha prometido «tornar as coisas oficiais» estava naquele momento em outra cidade, com a sua «gente nova», já a tinha esquecido por completo. Com que direito ela ainda se fazia de recatada? Ela sempre foi uma boa menina, foi boa por dezoito anos, e recebeu em troca um «você vai encontrar alguém melhor». Ela de repente sentiu uma vontade enorme de saber o que aconteceria se ela deixasse de ser boa.

【Ela · a caloura】

Quando Chen Yu se inclinou para beijá-la, ela fechou os olhos. Aquele beijo era diferente de todos os beijos verdes e hesitantes da memória dela, dominador, direto, com cheiro de álcool e um pouco de tabaco, forçando a passagem por entre seus lábios e dentes. O coração dela batia como um tambor, e a cabeça ficou zumbindo em branco. A mão dele entrou por baixo da jaqueta, pressionando sua cintura através da camiseta fina, puxando-a para si. Ela sentia o calor do corpo dele e algo duro encostado na sua perna. Ela não o afastou. Ela só enterrou o rosto na curva do pescoço dele e disse, abafado: «Veterano, hoje eu levei um fora.» A mão de Chen Yu parou por um instante e logo ele riu, e naquele riso não havia nenhuma pena, parecia mais que ele tinha encontrado uma pechincha. Ele disse: então perfeito, o veterano vai te fazer esquecer ele.

【Eles · os garotos】

Chen Yu sacou o celular atrás das costas dela, fora do campo de visão dela, e num grupo de algumas pessoas mandou uma mensagem: «Nova, caloura, terminou o namoro, bem novinha, cooperativa. Fim de semana.» Logo abaixo pipocaram algumas respostas. Ele enfiou o celular de volta no bolso e voltou a apertar a garota trêmula em seu abraço, com um tom tão terno que escorria mel. Ele sabia que não iria desfrutar sozinho — ele nunca foi do tipo que desfruta sozinho. Mas isso ficava para depois. Naquela noite, primeiro ele a faria sentir o gostinho, sentir aquela ilusão de ser desejada, de ser mimada na palma da mão, para que ela de bom grado reservasse o fim de semana. Quanto a quantas pessoas haveria naquele quarto de hotel no fim de semana e o que aconteceria, não era tarde ela descobrir só quando chegasse lá. Ele baixou a cabeça e deu um beijo no topo da cabeça dela, como quem acalma um bichinho ferido.

【Ela · a caloura】

Naquela noite ela voltou ao alojamento, deitou-se no beliche de cima desconhecido, com as colegas de quarto todas dormindo, e ficou de olhos abertos encarando o teto. Os lábios ainda guardavam aquele toque estranho, e o lugar da cintura onde ele tinha apertado ardia de leve. Ela abriu a janela de conversa com o ex-namorado, olhou aquela frase «você vai encontrar alguém melhor» e de repente apagou a conversa inteira e bloqueou o contato também. Lá fora era a noite de uma cidade desconhecida, com os letreiros de neon acesos bem ao longe. Ela tinha dezoito anos, era maior de idade, tinha passado no vestibular, tinha chegado sozinha a um lugar onde ninguém a conhecia. Ela pensou: a partir de hoje, ninguém sabe que tipo de garota eu era antes. Eu posso ser qualquer coisa. Mesmo que seja algo muito ruim. Esse pensamento fez com que, pela primeira vez, algo diferente escorresse para aquele buraco no seu coração — não calor, mas uma leveza de quem se deixa ir para o fundo, de quem já está perdido mesmo.