【Li · O Dono】Digitei aquela linha por impulso, sem esperar que alguém mordesse a isca. Só uma fileira de letras brancas sobre fundo preto: procuro uma cadela disposta a obedecer, disposta a ser treinada, disposta a jogar fora a própria dignidade por uma única palavra de elogio — não venha perguntar o preço, venha e ajoelhe-se primeiro. Depois de postar fui tomar banho, e ao voltar havia uma mensagem privada ali parada, avatar em branco, nome uma sequência de letras. A primeira frase dela: eu não vou me ajoelhar, mas quero saber o que você chama de treinamento. Eu sorri. Quem escreve uma frase dessas já está, na verdade, meio ajoelhada; só ainda não ouviu o som dos próprios joelhos batendo no chão.
【Li · O Dono】Não me apressei em responder. Fazer alguém esperar já é a primeira lição em si. Deixei-a pendurada por duas horas e respondi com uma só palavra: tire a roupa. Só uma palavra, sem tratamento, sem explicação. Muito tempo depois ela respondeu, dizendo você nem sabe como eu sou. Eu disse: para que uma cadela precisa que o dono saiba como ela é — ou você tira uma foto agora e me manda, ou faça de conta que nunca veio. O outro lado da tela ficou em silêncio por tanto tempo que pensei que tinha fugido. Então uma foto surgiu — não o rosto, mas uma blusa meio desabotoada, branca, a gola afrouxada, a cova rasa da clavícula pegando a luz do abajur. A mão tremia, a foto um pouco borrada. Fixei o olhar naquele borrão e soube que tinha fisgado algo.
【Ela · A de Dia】Como me chamo, o que faço, a que horas tenho reuniões — nenhuma dessas coordenadas diurnas importa agora. O que importa é que tenho trinta anos, que passei por dois relacionamentos mornos, que os homens eram todos gentis, tão gentis que nunca uma vez fiquei encharcada com nenhum deles. Eu culpava a minha frieza por isso. Até aquela linha em preto e branco se cravar nos meus olhos, e algo no meu peito que sempre ficara fechado ser, sem aviso, forçado a abrir uma fresta. Disse a mim mesma que era só curiosidade, só uma olhada. Mas a minha mão já desabotoava a blusa, um botão de cada vez, desabotoando para alguém cujo rosto eu nunca sequer tinha visto.
【Ela · A que Cai】Quando tirei aquela foto eu me odiei. A gola meio aberta, segurei o celular contra o peito, olhando o meu próprio rosto ruborizado no enquadramento, pensando que aquilo era absurdo demais, degradante demais. Mas no instante em que apertei o disparador, algo vergonhoso e escaldante disparou do baixo-ventre, disparou até as minhas pernas amolecerem. Ele respondeu com duas palavras: nada mal. Só aquelas duas palavras, e fizeram o meu coração bater mais forte do que todos os agrados que meus ex-namorados já disseram. Fiquei olhando aquelas duas palavras por muito tempo, como um cão que encara o osso na mão do dono, que insiste em não deixá-lo cair.
【Li · O Dono】Nas duas semanas seguintes, apertei a corda pouco a pouco — embora ainda não houvesse corda de verdade. Dei-lhe lições de casa. Na primeira noite só a fiz olhar-se no espelho, dizer três vezes eu sou a sua cadela, e fotografar o próprio rosto ao dizê-lo. Na segunda noite mandei-a tirar a calcinha, segurá-la na boca e fazer uma selfie no espelho. Ela fez, e na foto os olhos dela fitavam a lente úmidos, os cantos da boca esticados por aquele bolo de tecido, a humilhação escrita por toda parte. Eu nunca elogio depressa demais. A cada coisa que ela cumpria, eu a recompensava apenas com um insulto mais pesado, e quanto mais sujo ficava, mais ela se esforçava para alcançá-lo. É essa a parte mais fácil de domesticar: você não precisa dar açúcar, só precisa controlar quando xingar e como.
【Ela · A que Cai】Na noite em que sorri para a câmera com a calcinha na boca, eu já estava molhada lá embaixo. O tecido carregava o cheiro que eu tinha deixado nele durante o dia, misturado à umidade de ficar sentada o dia inteiro; eu a segurava, a cheirava, cravada no lugar por uma única frase dele — lembre-se de que esse cheiro de vadia em você pertence a mim. A parte interna das minhas coxas estava toda pegajosa, minhas pernas se apertando e afrouxando, afrouxando e apertando, como se uma mão remexesse de leve lá dentro. Não ousei me tocar — ele não havia permitido. Foi a primeira vez que aprendi que ser proibida de tocar enlouquece mais do que ter permissão.
【Ela · A de Dia】De dia eu conduzia a reunião matinal como sempre, apontava os erros de digitação dos colegas na ata como sempre, vestia minha blusa impecavelmente passada como sempre, e fechava o primeiro botão da gola até o fim. Ninguém sabia que a gêmea idêntica desta blusa, na noite anterior, tinha sido aberta até o peito e fotografada para um estranho. No almoço me escondi sozinha na copa, a nuca formigando sem explicação, como se algo devesse estar preso ali e o lugar ainda estivesse nu. Toquei aquele anel de pele. Estava fria. De repente quis muito saber que sensação era ter algo afivelado ali.
【Li · O Dono】Na calada da noite eu a fiz sair escondida. Não à força, por atração. Eu disse: uma cadela de verdade não ousa ser safada só dentro do próprio quarto — você tem coragem de descer, ir a algum lugar sem ninguém, levantar a saia e me mandar uma foto? Ela recusou, disse que era perigoso demais. Não a convenci, apenas respondi: então você ainda é só uma covarde que só sabe ficar excitada debaixo das cobertas, e terminamos por aqui. Quarenta minutos depois chegou uma foto — sob a luz branca e macabra da saída de incêndio da escada, ela de costas para a câmera, a saia erguida até a cintura, as duas nádegas tesas e reluzentes na luz fria, a fenda escura entre elas na sombra, os joelhos levemente dobrados, toda a pose tremendo de medo e do desejo de ser pega. Eu soube que ela já estava muito perto desta minha mão.
【Ela · A que Cai】Aqueles dois minutos parada na escada de incêndio tirando a foto, meu coração batia alto o bastante para ecoar. Alguém podia empurrar a porta a qualquer momento e ver uma mulher respeitável com a saia erguida até a cintura, o traseiro empinado em direção a um celular. Foi exatamente esse terror de ser flagrada que me deixou uma bagunça completa lá embaixo. De volta ao quarto desabei contra a porta, tão pegajosa entre as pernas que dava para puxar um fio, e só então percebi que naquela pose vergonhosa eu estava mais perto do clímax do que em todo o sexo comedido e adequado do meu passado. Ele respondeu: boa cadela. Duas palavras, e quase chorei abraçada ao celular — era uma satisfação de quem foi reivindicada, vergonhosa e ainda assim sólida.
【Li · O Dono】O que as palavras podem fazer termina mais ou menos aqui. Telas mentem — ela pode encenar submissão a mil quilômetros e desligar quando quiser. O que eu quero é do tipo que não se desliga. Mandei-lhe um endereço, um quarto alugado numa cidade estranha, e escrevi apenas: este fim de semana, venha. Sem maquiagem, sem lingerie bonita, e ligue para mim antes de entrar. Não perguntei se ela estava disposta. Estar disposta é uma margem que só cachorro tem; um dono não pergunta.
【Ela · A de Dia】Minha mão estava firme quando comprei aquela passagem, e até eu me assustei com isso. Tirei dois dias de folga, o pretexto sendo visitar os mais velhos na cidade natal, uma mentira selada sem uma fresta, porque sempre fui boa em fazer as coisas soarem respeitáveis na sala de reunião. Mas quando enfiei o documento e algumas mudas de roupa na bolsa, olhei a mulher no espelho, de maquiagem primorosa e maneira metódica, e de repente não a reconheci. Ou melhor, eu a reconhecia — só que pela primeira vez vi com clareza que sob essa camada de respeitabilidade ela sempre escondera outra coisa, algo à espera de ter as roupas arrancadas e uma coleira afivelada.
【Ela · A que Cai】Na noite antes de embarcar, ele me mandou fotografar a roupa que eu usaria para encontrá-lo. Fotografei a saia. Ele disse: a saia serve, tire a calcinha, venha nua amanhã, e a cada passo do caminho lembre-se de que está vazia lá embaixo, e mesmo que se molhe não tem permissão para se limpar. Eu obedeci. No dia seguinte, no trem-bala, fiquei sentada com as pernas apertadas por mais de duas horas, nada por baixo da saia, a vibração do assento me cutucando sem parar; meu rosto rolava os e-mails de trabalho sem um único tremor, enquanto entre as pernas ficava cada vez mais molhado, molhado a ponto de eu temer que ficasse uma marca no assento quando me levantasse. Por duas horas inteiras, nunca ousei fechar aquela fresta, porque ela era dele, não minha.
【Li · O Dono】Quando ela ligou, a voz tremia. Bem lá embaixo, ela disse, cheguei. Pelo fone eu conseguia ouvir a respiração dela, rápida e rasa. Eu disse: bom, suba, bata três vezes, depois desligue o celular e ponha na bolsa; a partir deste momento você não tem nome, só o que eu lhe der. Ela soltou um pequeno “hm”, e aquele “hm” foi tão suave que mal fez som. Desliguei, fui até a porta, diminuí a luz, tirei a coleira de couro da gaveta e a pendurei na mão. Couro genuíno, forrada de camurça, a fivela de metal fosco. Fria. Quando ela entrasse, eu a transformaria na coisa mais quente do corpo dela.
【Ela · A que Cai】Fiquei diante daquela porta, os nós dos dedos erguidos, suspensos no ar. Havia cheiro de comida no corredor, o aroma comuníssimo da vida cotidiana, tão comum que ressaltava o quanto do comum estava distante o que eu fazia. Eu podia dar meia-volta. A passagem ainda valia, a volta podia ser trocada a qualquer hora. E bem quando pensei isso, descobri que já tinha batido três vezes, de leve, mas com clareza. O celular também já estava desligado e enfiado na bolsa. Acontece que quando uma pessoa quer mesmo afundar, a razão apenas fica na margem observando, sem conseguir impedir nada.
【Li · O Dono】No instante em que a porta abriu, a luz caiu de trás de mim sobre o rosto dela. Ela era mais linda do que nas fotos — não a beleza retocada, mas uma beleza viva, com medo e ao mesmo tempo à espera. Mantinha a cabeça baixa, os dedos torcendo a barra da saia, parada do lado de fora do batente como um animal sem saber se devia entrar na jaula. Não saí do caminho para deixá-la entrar. Disse apenas uma palavra: ajoelhe. Bem aqui na porta, no corredor, ajoelhe-se para mim.
【Ela · A de Dia】Quando aquela palavra desabou, tudo que uso de dia para me blindar — título, respeitabilidade, comedimento — recuou para muito longe, enfileirou-se para me observar. Ali, naquela porta estranha, diante de vizinhos que podiam aparecer a qualquer momento, meus joelhos se dobraram. O concreto gelado apertava minhas rótulas através da barra fina da saia. No exato segundo em que me ajoelhei, uma leveza esquecida havia muito, a de largar um fardo pesado, brotou dentro de mim, como se por este único ajoelhar eu tivesse ficado trinta anos na fila.
【Li · O Dono】Ela se ajoelhou. Bem ali na escada, tão prontamente, ainda mais prontamente do que eu esperava. Estiquei a mão, agarrei o queixo dela, ergui o rosto, fiz com que me olhasse. Havia lágrimas nos olhos dela, ainda não caídas, cintilando com a luz do vão da porta. Arrastei-a para dentro e fechei a porta atrás de mim. O quarto estava escuro, só um abajur aceso. Eu disse: de agora em diante esqueça como se chama, esqueça toda essa respeitabilidade de cima e de baixo que você tem. Esta noite, vou fazer você reencenar na carne cada coisa que encenou para mim na tela nestas duas semanas. Ela assentiu, tremendo. Quando a fechadura estalou no lugar, vi o pedaço de pele nu na nuca dela se arrepiar de leve, como se estivesse esperando.