【Gu · Homem solteiro】As chuvas de junho de Nanjing caíam havia uma semana inteira; o ar estava tão viscoso que dava para espremer água dele. Estacionei o carro sob o prédio mais ao fundo do condomínio, ergui os olhos contando até o sexto andar, onde uma janela tinha a luz amarela e morna acesa. No celular, aquela mensagem combinada ainda estava parada na tela: “Hoje à noite, em casa. Estamos te esperando.” Desliguei o motor e fiquei no carro deixando o coração desacelerar, as gotas de chuva batendo no para-brisa, uma após a outra se estilhaçando.
【Man · Esposa】Eu estava de pé diante do espelho do vestíbulo, esticando pela terceira vez a camisola de seda rosa que vestia. O vestido meu marido tinha comprado no mês passado, dizendo que essa cor combinava com a minha pele. Naquele momento estava tão fina que era quase transparente, as alças finas como dois fios, escorregando ao menor movimento. Não sou alta, um metro e sessenta, de corpo mais magro, as clavículas nítidas se destacando, o decote da camisola pendendo frouxo sobre o peito; bastava eu baixar a cabeça para ver o contorno subindo e descendo do meu próprio corpo. Eu não sabia com o que estava nervosa — afinal fui eu quem aceitou primeiro, fui eu quem, nas madrugadas, olhando para o teto, imaginou essa cena inúmeras vezes.
【Lu · Marido】Fui eu quem propôs. Essa ideia eu alimentei dentro de mim por muito tempo, tanto que achei que a esconderia a vida inteira. A Man é uma boa esposa: quieta, decente, durante o dia como um copo de água morna. Mas eu sempre me lembrava daquela fase dos recém-casados, dela perdendo o controle sob mim, aquela dela com o rosto avermelhado pelo desejo, que nesses anos foi ficando cada vez mais apagada pelo peso dos dias. Eu queria ver de novo aquela ela. Eu queria vê-la sendo reacendida por outro homem — a vergonha que me impede de dizer isso em voz alta e aquele brilho nos olhos dela depois que eu disse, até hoje não sei distinguir qual dos dois me vicia mais.
【Gu · Homem solteiro】A porta se abriu. Quem abriu foi o dono da casa, um pouco mais de trinta anos, mais recatado do que eu imaginava; ao apertar minha mão, a palma estava seca. Ele se virou de lado para eu entrar; na sala havia um abajur de chão, sobre a mesinha de centro duas taças e uma garrafa de vinho tinto aberta. Foi nessa hora que a vi — ela saiu da porta do quarto, a camisola rosa balançando de leve com os passos, a luz vindo por trás dela, aquela camada de seda quase semitransparente, e num relance percebi a curva da cintura dela, percebi que por baixo da camisola ela não vestia nada.
【Man · Esposa】No instante em que o olhar dele pousou sobre mim, minha pele esquentou primeiro. Um homem totalmente estranho, olhando para mim de um jeito tão direto e sem qualquer disfarce, olhando meus ombros nus, olhando o formato dos seios que a camisola contornava, olhando as pernas expostas. Por instinto quis fechar o decote, mas ergui a mão até a metade e parei. A vergonha era real, mas por baixo da vergonha havia outra coisa mais quente subindo — quem diria que, sendo olhada assim, eu iria querer tanto continuar sendo olhada.
【Lu · Marido】Servi vinho a ele e os vi sentarem-se um de frente para o outro, separados pela mesinha de centro. A Man puxou a barra da camisola sobre os joelhos, mas aquele pedacinho de tecido não cobria nada; as coxas dela eram de um branco ofuscante, mantidas juntas, os dedos dos pés inquietos raspando o tapete. Nesses anos que a conheço, eu conhecia bem demais esse pequeno gesto dela — não era rejeição, era estar assustada com a reação que brotava do próprio corpo. Segurando a taça, recostei-me devagar no sofá, cedendo aquele espaço no meio para os dois.
【Gu · Homem solteiro】Conversamos superficialmente: sobre a chuva de Nanjing, sobre o preço dos imóveis nesse prédio, coisas que ninguém guardaria na memória. Mas nós três sabíamos bem, no fundo, por que essa noite existia. Depois de duas taças de vinho tinto, as bochechas dela ganharam um leve rubor, e uma das alças da camisola havia escorregado, não sei quando, para a dobra do braço, expondo metade do ombro nu. Ela não foi ajeitá-la. Só segurava a taça, os olhos baixos, os cílios projetando sob a luz uma pequena sombra, aquela imagem quieta e libertina ao mesmo tempo — quieta como a água, libertina como o fogo sob a água.
【Man · Esposa】Quando a alça escorregou, eu senti, mas não fui cuidar dela. Eu queria que ela escorregasse. Eu queria que esse homem estranho visse mais — assim que esse pensamento surgiu, eu mesma me assustei, e o rosto esquentou ainda mais. Nesses anos fui a esposa mais recatada possível, nunca imaginei que um dia estaria sentada na minha própria casa, vestindo uma camisola tão fina, à espera de um homem que via pela primeira vez. Mas era exatamente isso que eu esperava. Meu corpo era honesto demais em relação à minha cabeça; ele já se umedecia havia muito, por baixo do vestido, num lugar que ninguém via, por um homem cujo nome eu ainda nem sabia dizer.
【Lu · Marido】Vi aquela alça escorregada, vi que ela não foi ajeitá-la, e naquele instante meu coração falhou uma batida. O orgulho e alguma outra coisa subiram juntos, subiram a ponto de me apertar a garganta. Essa era uma cena que eu mesmo tinha armado, uma imagem que eu queria ver, mas, quando ela de fato se desenrolava diante dos meus olhos, descobri que eu não estava tão calmo quanto imaginara. Ergui o vinho e o bebi de um gole, usando o ardor da bebida para engolir aquela pontinha de sensação indefinível dentro de mim, e então me ouvi falar, a voz mais firme do que eu imaginava: “Não fica acanhada”, disse eu, “hoje à noite, em casa, é bom relaxar um pouco.”
【Gu · Homem solteiro】Ela ergueu os olhos e lançou um olhar ao marido, e depois voltou-se para mim. Naquele olhar havia uma pergunta, havia timidez, e havia também um pouco de resolução. Então ela pousou a taça e se aproximou um pouco do meu lado. Havia nela um perfume leve, misturado ao cheiro do vinho, muito perto agora. Eu via a frente da camisola dela subir e descer com a respiração, via, por baixo daquele rosa, dois pontinhos já retesados. A chuva ainda caía do lado de fora da janela, e o abajur de chão da sala esticava as sombras de nós três até ficarem bem compridas; a noite mal tinha começado.