A Noite em que Ela se Ajoelhou Diante de Todos

Capítulo 1开门那一刻的三双眼睛

Andarilho · 2747 palavras · Português

[Ele. O Mestre]

Conheci Xu Zhixia em um pequeno circulo dedicado a esse tipo de brincadeira. No comeco era so texto, depois algumas ligacoes, entao nos encontramos duas ou tres vezes. Ela e uma pessoa interessante: de dia, designer de propostas numa empresa de design, de fala mansa, meticulosa no trabalho, capaz de agonizar uma tarde inteira ao mudar uma cor, o tipo em que voce nunca olharia duas vezes andando por um predio de escritorios, e se olhasse, a tomaria por uma mocinha recatada. Mas o outro lado dela, em privado, na primeira vez em que a ouvi murmurar em voz baixa, quero ser pisada sob o pe de alguem, eu soube que era um material raro. Uma submissa de verdade nao e fingida, e uma sede de obediencia que beira a fe, criada ate os ossos. Ela escondia essa sede muito fundo, tao fundo que um pensamento se apossou de mim: eu queria arranca-la de uma so vez, diante de outras pessoas.

Por isso, desta vez, ao convida-la a minha casa, nao lhe contei tudo. So disse: venha aqui para uma rodada de brincadeira. Claro que ela supos que era coisa so entre nos dois. Eu havia chamado Akang e sua esposa Xiaoman com antecedencia: Akang e um velho conhecido do meu circulo, e Xiaoman brinca ainda mais selvagem que o homem dela, uma dominadora. Nos tres num sofa, eu havia baixado as luzes de proposito, deixando apenas uma luz quente sobre o trecho vazio de chao no centro da sala. Quando a campainha tocou, olhei de relance para o casal, sorri e me levantei para atender. O que eu queria era aquele um segundo em que ela empurrasse a porta, aquela expressao no rosto como se o ceu estivesse desabando.

[Ela. Xu Zhixia]

Passei muito tempo me preparando antes de ir a casa dele. Um par de meias cor de pele recem-aberto, outro par de meias pretas enfiado na bolsa como reserva; ele havia dito casualmente da ultima vez que gostava das coisas nas minhas pernas, e eu guardei isso no coracao. Eu me lavei impecavel, e la embaixo tambem ja havia deixado tudo lisinho em casa, singelo e limpo, uma linha fina selada, como um ovo descascado, sem nada que enroscasse na mao. Olhei para mim no espelho: um metro e sessenta e seis, cinquenta e dois quilos, cintura fina mas quadris carnudos, um vestido de trico justo tracando a linha do traseiro, e quando eu me curvava para alcancar algo no chao, o vestido esticava e a curva do vale se marcava por baixo. Eu sabia que ele gostava de mim assim: recatada por fora, escondendo por baixo algo que nao podia ver a luz.

Parada a porta dele, meu coracao batia como se fosse saltar. Naquela tensao havia medo, e ainda mais uma expectativa que eu nao sabia nomear; a semana inteira eu esperei por esta noite. Eu havia ensaiado inumeras vezes na mente: a porta se abre, ele esta ali, me puxa para dentro, fecha a porta, e o mundo inteiro se reduz a nos dois, e eu posso largar por completo a casca diurna de Xu Zhixia e voltar a ser a que so quer se ajoelhar. Respirei fundo e apertei a campainha. Os passos se aproximaram, a porta se abriu.

Ele de fato estava ali. Mas no sofa atras dele estavam sentadas duas pessoas que eu nunca vira. Um homem, uma mulher, dois pares de olhos por cima do ombro dele, caindo direto no meu rosto. Naquele momento minha mente zumbiu e ficou em branco. Maos e pes gelaram no instante, enquanto o sangue subiu todo de uma vez ao rosto, queimando ate as orelhas. Por reflexo quis recuar, quis dizer que errara o lugar, quis girar e correr, mas meus pes pareciam pregados na soleira, sem conseguir mover um dedo.

[Xiaoman. A esposa do amigo]

Quando ele abriu a porta eu segurava um copo. A moca do lado de fora eu avaliei num relance: montada com verdadeiro cuidado, o cabelo penteado sem um fio fora do lugar, um vestido de trico envolvendo a silhueta, meias cor de pele, um par de sapatinhos de couro singelos, maquiagem daquele tipo tao cuidadosamente feita que nao da para notar. Uma secretaria certinha de manual; andando na rua voce so pensaria que moca recatada. Mas no instante em que ela nos viu, eu sorri: o sangue subiu naquele rosto de sopetao, vermelho do pescoco a raiz das orelhas, olhos arregalados, labios se mexendo sem som, o corpo inteiro congelado na porta, sem entrar nem recuar. Eu brinco disso ha tantos anos, e o que mais gosto de ver e exatamente esta cena: uma submissa que se escondeu hermeticamente, o primeiro segundo em que sua casca e rasgada em publico.

Segurando meu copo, ergui o queixo para ela e falei arrastado: O que voce esta ai parada. Entre. Aquela minha frase pareceu decidir por ela. Vi a garganta dela subir e descer, os olhos correndo para aquele homem, o Mestre dela, como que perguntando em silencio, o que e isso, voce nao me disse que havia outras pessoas. Mas no fim ela nao ousou perguntar em voz alta. Essa e a diferenca entre uma submissa de verdade e uma diletante: uma diletante a essa altura ja teria dado meia-volta e ido embora, mas uma submissa de verdade, ainda que o ceu desabe, sua primeira reacao e ler a expressao do Mestre. Eu e Akang trocamos um olhar, nao dissemos nada, e so ficamos assim, olhando para ela.

[Ele. O Mestre]

Ela estava parada a porta, o rosto vermelho a ponto de pingar sangue, os olhos me fitando com pena, aquele olhar cheio do espanto e da magoa de por que voce nao me contou. Eu nao expliquei. So dei meio passo de lado, expondo a sala inteira atras de mim para ela ver: o trecho de carpete esvaziado sob a luz quente, as duas pessoas sentadas no sofa. Entao, numa voz muito calma e inquestionavel, eu disse: Entre. Feche a porta.

Eu observei a luta dela. Aquela luta durou uns tres ou quatro segundos: a razao gritava para ela ir embora, mas outra coisa dentro do corpo dela ja havia amolecido um passo a frente. A mao dela se ergueu, apoiando-se no batente, ela respirou fundo, entao baixou a cabeca e passou por cima da soleira. Quando fechou a porta com a mao por tras, aquele leve clique foi como se ela tivesse pronunciado a propria sentenca. A porta fechada, o quarto silenciou, restando apenas o zumbido baixo do aquecedor e a respiracao dela, deliberadamente abrandada e ainda assim descompassada. Eu sabia que, a partir daquele momento, ela ja havia se entregado.

[Ela. Xu Zhixia]

Nao sei como entrei e fechei a porta. So lembro que depois daquele clique da porta, o mundo inteiro dentro de mim virou de cabeca para baixo. Eu havia pensado que esta noite era me esconder num quarto escuro e seguro so com ele e eu; mas agora havia quatro pessoas no quarto, e eu era a que estava sendo observada. A vergonha me despejou como agua fervente, do alto da cabeca ate a sola dos pes, escaldando o corpo inteiro num tremor. Baixei a cabeca, sem ousar olhar para o casal estranho, mas eu podia sentir o olhar deles: aquele olhar caindo no meu rosto, nas minhas pernas envoltas em meias, no traseiro marcado pelo vestido, me abrindo centimetro por centimetro.

E ainda assim, justo quando a vergonha ardia tao quente que eu mal conseguia ficar de pe, algo na parte mais profunda do meu corpo, algo que eu costumo prender com todas as forcas, deu um tremor leve e secreto. Eu odiei aquela sensacao: quanto mais eu queria achar uma fresta no chao para me enfiar, mais aquele lugar amolecia e esquentava. Na mente eu gritava freneticamente para mim mesma: Xu Zhixia, voce enlouqueceu, tem gente de fora aqui, um casal ainda por cima, no que voce esta pensando. Mas meus joelhos ja haviam se dobrado de leve, um passo a frente do meu cerebro. Ele ainda nem tinha mandado eu me ajoelhar, e meu corpo ja estava pronto. Esse afundar que nem eu mesma conseguia controlar me envergonhava mais do que ser observada.

[Ele. O Mestre]

Voltei ao sofa e me sentei entre Akang e Xiaoman, peguei a bebida na mesa de centro e dei um gole, entao ergui os olhos para ela. Ela ainda estava naquele pequeno trecho do vestibulo, cabeca baixa, maos torcidas a frente, ombros tremendo de leve, aquele jeito de querer se encolher numa bola sem conseguir, e isso acariciava a perfeicao aquela veia de dominio em mim. Eu nao tinha pressa. Eu queria que ela ficasse de pe sozinha o suficiente sob esses tres pares de olhos, ficasse ate nem conseguir se sustentar, e so entao eu falaria. Esta era a primeira licao dela: esta noite, sua vergonha nao e mais o segredo so seu, ela e para ser exposta, para os outros verem.

[Xiaoman. A esposa do amigo]

Ela estava ali, largada por nos, a cabeca pendendo cada vez mais. Varri-a pelo canto do olho: a moca tem mesmo uma bela figura, nao aparece de dia, so agora sob a luz quente da para notar. Ombros estreitos, uma cintura daquele tipo afinado pelo vestido de trico, mas embaixo os quadris redondos, as coxas brilhando com o lustro das meias cor de pele sob a barra, nao daquele magro seco, mas carnudo, cheio, algo em que se pode agarrar. Eu sou mais exigente com mulheres do que com homens, e admito que o corpo dela e atraente. Ao meu lado, Akang engoliu em seco discretamente, e eu belisquei a coxa dele. Ri e me inclinei ao ouvido do meu homem: Qual a pressa, o show nem comecou.

[Ela. Xu Zhixia]

Nao sei quanto tempo fiquei ali de pe, so senti cada segundo se esticar longo. Eles nao falavam, so ficavam me olhando assim, e aquele silencio era mais dificil de suportar do que qualquer xingamento. Eu podia ouvir meu proprio coracao, ouvir minha respiracao cada vez mais descompassada, sentir uma fina camada de suor brotando das costas e colando o vestido de trico na pele. Baixei mais a cabeca, a vista alcancando apenas os sapatinhos de couro singelos na ponta dos meus pes, e a sombra lancada pela luz quente no carpete, a minha propria forma com os ombros encolhidos.

Por fim, ele falou. A voz nao era alta, mas como um fio, num instante recolheu todo o ar do comodo para ele sozinho: Zhixia, ele chamou meu nome, o tom terrivelmente gentil, tire o casaco e venha ficar de pe no meio. Deixe o tio e a tia tambem te conhecerem. Minha respiracao travou. Em publico. Essas palavras desabaram pesadas. Ergui a mao, os dedos tremendo tanto que mal conseguia desabotoar o casaco. Eu sabia que, assim que desse este passo, andasse ate bem o centro daquela luz, nao haveria mais volta para mim esta noite. Mas mesmo assim, um a um, desabotoei aqueles botoes.