Ela sob a câmera da fechadura

Capítulo 1汗还没干

Andarilho · 1327 palavras · Português

【Ela · a professora】

Os outros me acham um certo tipo de pessoa: fala baixo, não usa maquiagem carregada, para no meio da aula com doçura para esperar um aluno distraído. Efetivada há dois anos, sou a mais jovem da série. As colegas mais velhas da sala dos professores adoram me provocar, dizem que dá pra ver de longe que sou uma boa menina que nunca namorou muito. Eu sorrio e não respondo. Elas nunca vão saber o quanto meu coração dispara quando, ao soar o sinal da última aula da tarde, eu tiro aquela blusa comportada.

【Ela · a professora】

A academia fica no prédio ao lado do condomínio, oito minutos de caminhada. Visto uma regata e uma calça justa, prendo o rabo de cavalo bem alto, e no espelho eu viro outra pessoa de uma hora para outra — clavícula, linha dos ombros, as covinhas da cintura, todas aquelas coisas escondidas durante o dia ficam à mostra aqui. Eu gosto dessa troca. Uma pessoa pode ter duas faces, e só uma das metades é a verdadeira.

【O parceiro de treino】

A primeira vez que puxei conversa foi há três meses. Ela fazia levantamento terra, com a postura certa, mas sem travar o core, e a lombar ia ceder. Cheguei e dei um toque, era só a cortesia mais comum de academia. Mas o jeito que ela levantou os olhos e me encarou, eu lembro até hoje — não era a impaciência de quem foi interrompido, era um olhar direto e muito calmo, de quem foi lida por dentro e não pensa em desviar. Depois daquele olhar, viramos parceiros fixos.

【O parceiro de treino】

Ela treina mais pesado que a maioria das mulheres. No agachamento desce bem fundo, e ao terminar uma série se apoia no suporte da barra ofegando de boca aberta, com a regata encharcada de suor numa faixa escura, colada nas costas. Eu fico atrás dela segurando o peso, com a mão a um palmo da cintura dela. Cada vez que ela se ergue, aquela marca de suor sobe e desce com a respiração. A gente nunca fala nada, mas aquele palmo de distância vai diminuindo semana após semana.

【Ela · a professora】

Hoje foi treino de perna. Ele acrescentou uma anilha, e na quarta série minhas pernas tremiam. Ele estendeu a mão por trás, apoiando de leve o meu quadril: «Firme, não deixa a lombar ceder.» A palma da mão dele colou em mim através de uma fina camada de tecido, quente. Eu poderia perfeitamente me endireitar sozinha, mas não fiz isso. Deixei aquela mão ficar mais meio segundo, e depois mais meio segundo. Naquele meio segundo, a música da academia e o barulho metálico dos aparelhos dos outros recuaram para bem longe.

【O parceiro de treino】

No descanso entre séries, ela se sentou no banco e virou a cabeça para trás bebendo água. Aquele pedacinho do pomo de adão se movia a cada gole, o suor escorregava pela linha do maxilar até se acumular naquela covinha da clavícula. Ela me passou a garrafa de água, eu peguei e bebi, sabendo muito bem que aquele bocal ela tinha acabado de encostar nos lábios. Ela me olhou beber, os olhos se curvaram um pouco, sem dizer nada. Muita coisa entre nós é dita assim — sem usar a boca.

【Ela · a professora】

Ao terminar a última série, eu me sentia esvaziada e ao mesmo tempo transbordando. O coração ainda batia contra o peito, o sangue estava fervendo, a pele tão sensível que eu sentia até o ar-condicionado passando pelos pelos do braço molhados de suor. Esse estado depois do treino eu conheço bem demais — o corpo é completamente despertado e depois se recusa a dormir de novo. Eu sei como isso se chama. São os hormônios sem lugar para ir. Precisam de uma saída.

【O parceiro de treino】

No alongamento ela me pediu para pressionar a perna dela. Ela deitou de costas no tapete, eu apoiei uma das pernas retas dela no meu ombro e empurrei para baixo. A calça justa estava tão esticada que dava para ver aquela linha na parte interna da coxa. Ela estava de olhos semicerrados, os lábios levemente abertos ofegando, e da garganta escapava um som mínimo que talvez nem ela mesma percebesse. Eu pressionava bem devagar. Nós dois sabíamos que aquilo já não era mais alongamento.

【Ela · a professora】

Quando a gente saiu já eram quase dez horas. Ele disse que ia me levar de volta porque era no caminho, e eu disse que sim. Na verdade não era nem um pouco no caminho. Caminhando pela rua à noite, ficamos a meio passo de distância, ninguém tocou em ninguém, mas o ar entre aquele meio passo estava denso, tão denso que parecia dar pra morder com um estalo. O suor ainda não tinha secado, e o vento só o deixava mais grudento. Eu sabia o que aconteceria quando chegássemos embaixo do meu prédio, e fingia não saber, para que aquele trajeto pudesse durar um pouco mais.

【O parceiro de treino】

Chegando embaixo do prédio dela, ela pegou a chave — ela não usa chave, a porta é uma fechadura inteligente, mas mesmo assim ela vasculhou a bolsa por hábito. Dava para ver que era enrolação. A luz com sensor se apagou e voltou a acender com o nosso movimento, e aquele facho de luz branca e pálida a iluminou nitidamente: algumas mechas do rabo de cavalo soltas e coladas no rosto, os lábios corados, e a pele no decote da regata ainda avermelhada pelo esforço. Eu disse: «Subir para beber uma água?», e a minha própria voz me pareceu seca.

【Ela · a professora】

Levantei os olhos para ele. O corredor estava em silêncio, tão silencioso que dava para ouvir a respiração um do outro. Eu deveria dizer não precisa, descanse cedo, até amanhã — aquela eu de cima do estrado, durante o dia, com certeza diria isso. Mas quem estava ali parada não era aquela eu. Era a eu recém-encharcada de barra e suor, com o corpo em brasa e a cabeça reduzida a um único pensamento. Eu não abri a porta. Nem disse para subir. Eu só avancei, e apaguei aquele meio passo de distância.