Shen Yu era o assistente de ensino da pós-graduação do nosso curso, tinha vinte e quatro anos e lecionava a disciplina principal do nosso segundo ano. Ele era frio e distante, de poucas palavras, e quando explicava um problema sua lógica era afiada como uma lâmina. Todas as garotas do departamento tinham uma paixão secreta por ele — inclusive eu. Inclusive eu, que reprovei na prova porque passava a aula inteira encarando-o.
Quando saíram as notas da prova parcial, ele me reteve. A sala estava vazia, o pôr do sol entrando de esguelha, só nós dois. “Sabe por que reprovou?” Ele empurrou a minha prova desastrosa até mim. Baixei a cabeça e não ousei falar. De repente ele se inclinou, uma das mãos apoiada na minha carteira, envolvendo-me dentro da sua sombra. “Porque na aula você ficou o tempo todo olhando para mim, e não para o quadro.”
Meu rosto pegou fogo num “estouro”. O constrangimento de ter sido desvendada, somado à respiração dele tão próxima, deixou minha mente em completo branco. “Reforço,” interrompeu ele, a voz fria sem deixar transparecer nada. “A partir de hoje, todo dia depois da aula, nesta sala, eu vou te dar reforço.” Ele se endireitou, imponente acima de mim. “Alguma objeção?” Balancei a cabeça num ritmo frenético. Aquele friozinho vergonhoso de contentamento no meu peito era maior até do que a vergonha de ter reprovado.
“Primeira aula.” Ele puxou uma cadeira e sentou ao meu lado, perto o bastante para eu sentir o leve cheiro de tinta. “Este problema, vou te ensinar três vezes.” Ele segurou a mão com que eu escrevia e foi resolvendo o cálculo passo a passo no papel de rascunho. A mão dele era muito fria, os nós dos dedos bem marcados. Fiquei encarando aquela mão e, mais uma vez, não absorvi uma única palavra. “Você está no mundo da lua,” disse ele de repente, parando e inclinando a cabeça na minha direção, o canto da boca curvando-se de modo quase imperceptível. “Se se distrair de novo, vou te castigar de outro jeito.”