Verdade ou Desafio · Aquela Noite na Mansão de Quatro Andares

Capítulo 1第一章 · 别墅、真心话,和那张藏了很久的照片

Andarilho · 2094 palavras · Português

【Ela · a garota com fama de comportada】

A mansão o Zhe acabou de comprar este ano, quatro andares, com elevador, e ainda sobrou um terraço não muito grande no topo. Nós desse grupo estamos enrolados juntos desde a época em que usávamos calças de perna aberta, discutindo até hoje — cada um de nós já é maior de idade há vários anos. Ele trabalha com design, eu fico num cubículo de uma empresa de comércio exterior, e alguns ainda fazem mestrado, voltaram de fora nas férias de verão. Quem compra casa, a primeira coisa que faz é chamar essa turma de velhos para pisar no território. Aquela sala de home theater e karaokê no terceiro andar, na qual ele gastou uma fortuna, o sofá de couro é tão macio que engole a gente, e quando o projetor liga, as ondas de som conseguem fazer o piso tremer até dormência.

Fui colocada pelo pessoal naquele sofá individual do canto, joelhos bem juntos, as duas mãos segurando uma taça de haste sobre as pernas. Essa é a maneira de sentar que sempre adoto diante de conhecidos. Todos dizem que sou comportada, comportada desde pequena — as tias elogiam «dá pra ver que foi bem-educada em casa», os rapazes brincam «é a mais certinha entre nós». Eu sorrio, não contesto. A palavra «certinha» é como um casaco velho bem ajustado, usado por tantos anos que, ao tirá-lo, a gente sente frio.

A taça que o Zhe me serviu, dizem que é um tal coquetel com sabor de lichia, tão doce que quase não dá pra sentir o cheiro de álcool. Fui bebericando gole a gole, a garganta esquentou, o rosto foi ardendo aos poucos. A luz era daquele laranja quente bem baixo, que contornava suavemente o perfil de cada um. Alguém começou a fazer barulho pedindo para jogar verdade ou desafio, atravessaram a garrafa vazia no centro da mesinha de centro e, com um «tim», ela começou a girar; os olhos de todos giravam junto com a boca da garrafa. Levei a taça de novo até os lábios, e o coração, sem motivo, disparou meio compasso.

【Ele · o rapaz】

Sou o dono desta casa, e também aquele que a noite toda quase não desviou o olhar dela. Não me entenda mal — conheço todos deste grupo, conheço tão bem que sei relatar qual tombo cada um levou na infância. Mas ela é diferente. Está sentada no canto, a taça segurada bem correta, e quando sorri os olhos se curvam numa fresta, quieta como um quadro pendurado há muitos anos, ao qual você já se acostumou mas nunca compreendeu de verdade.

Quanto mais uma garota do tipo «todos dizem que é comportada», mais fico curioso sobre o que há sob a casca. Ninguém pode ter só uma camada. Quando a garrafa começou a girar esta noite, na verdade eu guardava uma pontinha de má intenção — quero ver se, depois de algumas doses, este quadro vai se mexer por conta própria.

【Ela · a garota com fama de comportada】

A primeira vez que a boca da garrafa apontou para mim, escolhi a verdade. Quem perguntou tinha um sorriso maldoso: «Na galeria do seu celular, qual foto você menos ousaria nos mostrar?» A casa inteira caiu na gargalhada. Meu rosto ficou vermelho na hora, balancei a cabeça dizendo que não, que não tinha. O álcool zunia nas veias, empurrando aquele «não tem» para dentro de uma culpa. Na verdade eu sabia do que me sentia culpada. Mas não estava nesta galeria do celular — estava em outro lugar, um lugar onde nenhum conhecido conseguiria me reconhecer.

Enrolei e passei batido. Mas a boca da garrafa parecia querer duelar comigo, girou mais duas voltas e parou de novo bem na ponta do meu pé. Desta vez foi um desafio do Zhe: «Você tem coragem de mostrar pra gente um pouquinho daquele seu lado que ninguém conhece, o que está no seu celular?» Ele falou devagar, mas os olhos fixaram firme. Não sei se foi o álcool que me deu coragem, ou se foi por ficar tão perturbada sendo olhada por aqueles olhos que, como que possuída — não, foi aquele coquetel doce que empurrou e abriu uma fresta na porta dentro de mim, ouvi a mim mesma dizer baixinho: «...Eu tenho, na internet, uma conta onde ninguém me conhece.»

【Ele · o rapaz】

A casa inteira ficou muda por meio segundo, e então explodiu numa gritaria. Mas eu não ri. Fiquei olhando para ela — depois de dizer aquilo, os cílios baixaram, a raiz das orelhas ficou tão vermelha que quase ficou transparente, a garganta subiu e desceu uma vez, como se ela mesma tivesse se assustado. Naquele instante alguma corda dentro de mim foi dedilhada: então este quadro quieto guardava por conta própria um bastidor inteiro. Quanto mais ela queria se encolher de volta, mais eu queria alargar aquela fresta um pouco mais.

«Que conta?» alguém insistiu. Ela se recusava a dizer de que plataforma era, só admitiu mordendo o lábio inferior que era uma conta de rede social anônima, o avatar não era ela mesma, o apelido também era inventado, «só... de vez em quando posto umas fotos.» A voz dela ficava cada vez mais leve. Inclinei o corpo na direção dela e, num volume que só se ouve de perto, disse: «Que tipo de foto, garota comportada?»

【Ela · a garota com fama de comportada】

Eu não devia ter bebido tão rápido. Mas as palavras já tinham saído, não dava para recolher. O pessoal não largava, dizia que pela regra do verdade ou desafio, quem confessa tem que dar uma explicação, senão conta como desistência e vira três taças de castigo. Três taças e eu ia acabar deitada aqui hoje. Abraçava a taça, o coração batia tão forte que o peito doía, mas na cabeça, de forma estranha, flutuavam aquelas fotos — o biquíni vermelho, diante do espelho do banheiro, o vapor embaçando o vidro pela metade; e aquela camisola que eu mais gosto, tão fina que dava para ver o contorno do corpo, com o celular apoiado bem baixo, fotografei o trecho da clavícula até a cintura.

Naquela conta, ninguém me chama de comportada. Do outro lado da tela há um grupo de estranhos, eles não sabem quem eu sou, só sabem que existe uma garota que às vezes posta essas coisas. A cada comentário estranho e ousado que recebia, uma corrente elétrica quente e formigante rolava pelo meu peito. Era o estímulo secreto de ser observada, de ser desejada, que na vida real eu nunca ousei admitir. E agora, esse grupo de velhos colegas que desde pequenos me tratam como a garota comportada estava me encarando, um par de olhos após o outro, esperando que eu empurrasse aquela porta um pouco mais.

【Ele · o rapaz】

«Desafio.» Decidi por ela, a voz não alta, mas cobrindo toda a gritaria: «Não precisa dizer que plataforma é, nem precisa mostrar o rosto — pega aquelas duas que você postou e acha mais ousadas, e deixa a gente dar uma olhada. Terminando esta rodada, vira a página.» Olhei para ela, e completei palavra por palavra: «Tem coragem?» Eu sabia que estava a empurrando. Mas eu sabia ainda melhor que, sob aquela pontinha de hesitação nos olhos dela, o que estava reprimido não era pura recusa. Era o desejo de ser vista.

【Ela · a garota com fama de comportada】

Meus dedos tremiam na tela. Mudei para aquela galeria secreta, as pontas dos dedos geladas, mas a cabeça fervendo em brasa. Virei o celular na horizontal e, quase de olhos fechados, entreguei — a primeira, biquíni vermelho, diante do espelho do banheiro, com o queixo baixado, o vapor cobrindo a foto inteira com uma camada de névoa; a segunda, aquela camisola transparente, revelando o ombro e um pequeno trecho da cintura, com a luz batendo bem suave.

O celular passou de mão em mão entre aqueles poucos. Não ousava olhar para nenhum rosto, só fixava o olhar na minha própria taça esvaziada. Mas eu conseguia ouvir a respiração deles mudar — alguém puxou o ar de golpe, alguém xingou baixinho «caralho, essa é você mesmo?», e outro ficou um tempão sem dizer nada. Aquela vergonha escaldante de ter o outro lado flagrado na hora por conhecidos subiu da sola dos pés até o couro cabeludo, mas o estranho é que, bem no meio daquele calor, o fundo do meu baixo-ventre secretamente se contraiu e ficou mole e dolorido. Então ser encarada assim por quem me conhece era cem vezes mais estimulante do que aqueles estranhos do outro lado da tela.

【Ele · o rapaz】

Quando o celular chegou às minhas mãos, não tive pressa de olhar as fotos, olhei primeiro para ela — tinha o rosto enterrado na dobra do braço, deixando à mostra apenas um par de orelhas vermelhas, os ombros tremendo de leve, mas não chegou a arrancar o celular de volta. Isso já bastava. Baixei os olhos, dei uma passada de vista nas duas fotos, tornei a levantar os olhos para ela e, ao devolver o celular, a ponta dos meus dedos roçou de leve o dorso da mão dela, como que sem intenção. Ela estremeceu. Nesta noite, os outros acharam que a página tinha virado. Só eu sabia que algo estava apenas começando.