【Chen Mo · O marido】O espelho do elevador no saguão do prédio comercial refletia toda a multidão que saía do trabalho para dentro daquele vidro frio. Chen Mo, a princípio, só estava de cabeça baixa procurando a chave do carro; ao erguer os olhos, viu primeiro Lin Wei no espelho. Ela estava de costas para ele, estendendo o guarda-chuva — aquele guarda-chuva verde-escuro de cabo longo que os dois tinham garimpado juntos num brechó no ano em que se casaram. O gesto de entregar o guarda-chuva não tinha nada demais; o problema estava em que a ponta dos dedos dela parou meio segundo no cabo. Curto demais, tão curto que qualquer um poderia defendê-la dizendo que era só cortesia de dia chuvoso; mas justamente ele reconhecia aquele meio segundo. Três anos atrás, quando ela lhe entregou o mesmo guarda-chuva, a ponta dos dedos hesitou assim também, como se relutasse, como se entregasse um pouco de algo. Ele nunca imaginou que, nesta vida, ainda pudesse rever aquele meio segundo em outra pessoa.
【Ela · A esposa】Ela não viu o marido no espelho. Nos seus olhos havia apenas a pessoa à sua frente — Su. A chuva deixava reluzentes os degraus na porta da empresa; ele estava sob o beiral, o botão do colarinho da camisa aberto, dizendo que não tinha trazido guarda-chuva. Lin Wei não sabia por que estendeu o guarda-chuva a ele, nem por que pensou primeiro se ele se molharia na chuva, e não em como ela mesma voltaria para casa depois. «O gerente Su não pode se molhar, a saúde é o que importa.» Só depois de as palavras saírem foi que ela ouviu a própria voz, mais suave um grau inteiro do que quando falava com Chen Mo. Ficou um pouco corada e logo atribuiu esse calor ao tempo úmido e abafado.
【Su · Ele】Su pegou o guarda-chuva, sem pressa de agradecer. Estava habituado a ser um homem sem pressa. Seu olhar pousou naquela mecha de cabelo dela molhada de chuva, colada à clavícula; olhou por dois segundos, e só então, sem pressa, desviou os olhos — e ao desviá-los, ainda deixou aquela folga que faz o outro perceber que ele estivera olhando. «E você, como vai fazer?», perguntou, num tom que parecia casual, mas os olhos mediam o rosto dela erguido. Ele já vira mulheres demais que lhe estendiam um guarda-chuva; a maioria estendia um guarda-chuva. Ela estendia outra coisa, só que ela mesma ainda não sabia.
【Chen Mo · O marido】As portas do elevador começaram a se fechar. Bem naquela fresta cada vez mais estreita, Chen Mo viu a esposa erguer o rosto — aquela era a expressão que ele conhecia mais do que qualquer coisa, os cantos dos olhos levemente relaxados, como se algo a sustentasse com delicadeza, aquele leve arrebatamento que só aflorava nos momentos mais íntimos, mais relaxados. Naquele instante, aquele rosto brilhava para outro homem. As portas se fecharam. O espelho sumiu, a pessoa sumiu, restando apenas ele, selado dentro daquela caixa de ferro que descia, com um frio indefinível pesando no estômago.
【Ela · A esposa】Dado o guarda-chuva, era como se a pessoa também ficasse sem um pouco de abrigo. Ela ficou sob o beiral esperando a chuva amainar, vendo Su caminhar para dentro da chuva sob aquele guarda-chuva verde-escuro, a silhueta recortada pela cobertura numa mancha escura e estável. Ela deveria ter sentido apenas que fizera uma boa ação por acaso, mas em algum ponto do peito, aquela frase «e você, como vai fazer?» batera de leve, sem sossegar por um bom tempo. Lembrou que havia muito Chen Mo não lhe perguntava «e você, como vai fazer?». As conversas entre eles já tinham se desgastado até «já comeu?», «vai dormir», «cuidado no caminho».
【Su · Ele】Ao entrar na chuva, ele olhou para trás. Ela ainda estava no mesmo lugar, sem guarda-chuva, deixando aquela garoa fina cair sobre os ombros. Ele sorriu e inclinou o guarda-chuva para o seu lado, deixando de propósito o próprio ombro se molhar. Certas coisas têm de ser feitas devagar. Ele sabia bem como é uma mulher ignorada pelo marido por tempo demais — não é que lhe falte quem a ame, é que lhe falta quem a veja. Aqueles dois segundos em que ele olhara eram mais eficazes do que qualquer palavra de amor. O guarda-chuva estava na mão dele, a pessoa ainda estava na casa dela, mas ele não tinha a menor pressa.
【Chen Mo · O marido】Naquela noite ela voltou muito tarde. Chen Mo estava sentado na sala sem a luz principal acesa, a televisão exibindo imagens que ele não assistia. A porta abriu, e um cheiro tênue, que não pertencia àquela casa, entrou primeiro — cedro, com uma frieza que carregava um calor amadeirado, aquele aroma de homem, refinado. Ele perguntou por que tão tarde, e ela disse que chovia e havia trânsito. Ele fez um «hã». Não perguntou aonde tinha ido o guarda-chuva, nem mencionou aquele meio segundo no espelho do elevador. Engoliu tudo aquilo, junto com aquele bafo áspero na garganta, como quem engole uma pedra que mais cedo ou mais tarde vai machucar o estômago.
【Ela · A esposa】Ela baixou a cabeça para trocar de sapatos, sem ousar olhar nos olhos do marido. Sabia que não tinha feito nada — só emprestara um guarda-chuva. Mas a mão que trocava os sapatos tremia, tremia a ponto de não conseguir dar o nó no cadarço. Sentiu que havia no cabelo o cheiro de outra pessoa e se apressou a explicar o trânsito. Chen Mo só fez um «hã», e aquele «hã» foi tão leve, leve a ponto de fazê-la se sentir culpada, e também leve a ponto de ela não saber dizer se era decepção ou alívio. Se ele tivesse perguntado só mais uma coisa. Se ele, como três anos atrás, a tivesse puxado para si, cheirado seu cabelo e perguntado «aonde você foi hoje?». Mas ele não fez. Ele nunca fez.