【Ela · Cadela】
Na tarde em que pousamos, o ar estava sufocante, como uma colcha de algodão úmida jogada sobre tudo. Eu tinha seguido A até esta cidade cujos nomes de rua eu nem conseguia pronunciar por inteiro, e a bagagem do hotel ainda não estava desfeita quando ele já me apressava a me trocar — dizendo que seus quatro amigos tinham reservado o jantar e esperavam para me conhecer. Enquanto puxava o vestido pelo corpo, espiei a mim mesma no espelho: eu sabia para que tinha vindo, A já me dissera havia tempo que esta viagem não era um passeio. Mesmo assim, no exato momento de ter de sair pela porta, aquele pequeno lampejo de ilusão em mim ainda estava vivo, como se bastasse eu sorrir um pouco mais recatada, sentar-me um pouco mais direita, que hoje à noite poderia parar na mesa do jantar. Minha mão estava firme ao passar o batom, e essa firmeza me deixou estranhamente orgulhosa, como se manter a mão firme significasse manter algo mais firme também.
À mesa, os quatro homens se revezavam para me servir comida e encher meu copo, com uma cortesia tão excessiva que a própria cortesia carregava por baixo uma camada de outra coisa — o tipo de cortesia que serve para deixar a mercadoria contente antes da inspeção. Eu não conseguia lembrar quem tinha qual nome; enquanto A os apresentava, eu só me ocupava de contar: um, dois, três, quatro. Quatro. Somando A, cinco. Aquele número rolava dentro da minha cabeça, mais pesado a cada volta. Um deles, sentado na diagonal em relação a mim, sorria com os olhos imóveis, só o canto da boca se movendo; encarei-o por dois segundos e depressa baixei a cabeça para tomar a sopa. A sopa estava quente demais, quente o bastante para dormentar minha língua, mas achei aquela pequena ardência útil — podia me arrancar daquele número por um curto instante.
No trajeto da mesa até o quarto, A segurou minha mão o caminho todo, segurou bem apertado, como quem conduz uma coisa com medo de que ela fuja. Cinco de nós espremidos no elevador, ninguém falava, só o tlim dos números dos andares subindo. Contei aquele som, contei até parar, a porta abriu, e o carpete do corredor engoliu todos os passos. No instante em que entramos, senti o frio do ar-condicionado do quarto e um cheiro misturado de homens estranhos — cigarro e loção pós-barba — aquele cheiro tornou de repente concreto tudo o que eu passaria naquela noite. Por trás, A firmou meus ombros, me virou, me fez encarar aquela janela de frente. Ele disse: de frente para a janela, dispa-se.
【A · Amante】
Antes de trazê-la aqui, preparei muito terreno, tanto que eu mesmo quase acreditei no meu próprio discurso — disse que isto era libertação, era soltar aquilo que estava reprimido dentro do corpo dela, um presente que só um homem que de fato a mimava se dispunha a dar. Quanto disso era verdade nem eu sei dizer, mas sabia que funcionava com ela. Ela é do tipo que diz não com a boca enquanto o corpo é mais honesto do que o de qualquer um; na primeira vez que joguei o jogo da exposição com ela, enxerguei isto de imediato: ela tinha medo, mas dentro do formato do medo dela havia excitação transbordando. Desta vez escolhi de propósito este quarto, o andar bem baixo, a janela de frente para a rua comercial, gente indo e vindo lá embaixo, capaz de olhar para cima e ver. Este era o primeiro prato que eu havia preparado para ela.
Estes quatro amigos eu tinha filtrado. Não é qualquer homem a quem eu me disponha a entregá-la. No círculo que joga isto, as regras na verdade são simples: nenhum nome deixado, nenhum rosto filmado, cada um se dispersa depois, ninguém conhece o eu diurno de ninguém. O que eu queria era exatamente esta estranheza limpa. Entrei, primeiro a virei para a janela, e desabotoei minha própria camisa e arranquei o cinto com desenvoltura — despi-me para ela ver, querendo que soubesse que aquilo não era nada, que tirar a roupa era a coisa mais leve daquela noite. Enquanto me despia, fiquei olhando a nuca dela, olhando como os ombros dela se retesavam, olhando os dedos dela travarem no primeiro botão e não se moverem. Conheço bem demais essa pausa. Essa pausa é a parte de si mesma que ela ainda não entregou.
Ela travou tempo demais. Eu ainda ponderava se ia até lá dar-lhe uma ajuda — ou esperar mais um pouco, melhor deixá-la cruzar sozinha. Nesse exato segundo de hesitação, o homem sentado na diagonal em relação a ela, que mal falara a noite toda, moveu-se primeiro. Ele caminhou até lá, ergueu a mão, e um tapa caiu no rosto dela, seco o bastante para o quarto inteiro ficar em silêncio por um instante. Algo deu um salto no meu peito, metade por não esperar que ele fosse tão rápido, tão duro, e a outra metade — tenho de ser honesto — a outra metade era algum tipo de coisa sendo acendida. Não impedi. Disse a mim mesmo, deixe-a com um pouco de medo, ela será mais obediente depois; mas eu sabia que aquilo era só uma razão que inventei para mim. O verdadeiro é que, ao vê-la levar aquele golpe, do jeito que ficou ali parada atordoada, eu fiquei duro.
【Os Homens · Grupo】
Nós quatro somos todos velhos conhecidos de A, cada um na sua, sem trato entre nós no dia a dia — só um arranjo como este nos reúne. A tinha mandado antes as fotos dela e algumas regras: nenhum rosto filmado, nada vazado, brincadeira é brincadeira, estranhos de dia. Na foto ela mantinha as sobrancelhas baixas e o olhar dócil, o tipo de novata que dá para ver de relance que nunca se soltou de verdade — este tipo é o mais interessante, dez vezes mais divertido que uma veterana, porque a casca dela ainda está lá, e você chega a ver com os próprios olhos ela ser arrombada pouco a pouco.
Nós os seguimos para dentro do quarto e vimos A virá-la para a janela. O zíper daquele vestido dela ainda não tinha sido descido; as mãos dela tremiam tanto que nem davam conta de um único botão. Esse tipo de enrolação é o maior estraga-prazeres — o que o nosso arranjo preza é a ordem, é ela entender que, do momento em que atravessa aquela porta, o corpo dela já não é dela para negociar. Então quando aquele tapa desceu, nenhum de nós achou surpreendente; se tanto, poupou a lenga-lenga. Depois do estalo ela congelou ali, uma mão cobrindo a bochecha, os olhos bem abertos, aquele olhar atordoado mais excitante do que qualquer gemido — porque era real, o real que ela ainda não tinha aprendido a disfarçar. Aquele que a bateu deu um passo à frente, apontou para o neon do lado de fora da janela, a voz baixa e contida: dispa-se, agora. Ela teve medo de levar outro, e os movimentos dela na hora ficaram rápidos. A casca — começou a rachar a partir daquele mesmo tapa.
【Ela · Cadela】
Quando aquele tapa desceu, minha cabeça ficou em branco. Não doeu, ou melhor, a dor foi encoberta por outra coisa — o branco de ser negada diante de todos, de ter a última camada de dignidade arrancada. Cobri a bochecha, as lágrimas rodavam nos meus olhos mas não caíam, eu nem me atrevia a olhar para A, com medo de ler no rosto dele o fato de que ele não me protegera daquele golpe. Mas no exato segundo em que pensei que ia desatar a chorar, descobri que meus joelhos tinham amolecido, amolecido na direção errada — não com vontade de fugir, mas com vontade de me ajoelhar. Essa descoberta me alarmou mais do que o tapa.
Ele me mandou me despir, agora. Com medo de levar outro, meus dedos se moveram sozinhos. O zíper deslizou da nuca até a cintura, o ar frio se infiltrando pela fresta aberta. Enquanto tirava o vestido dos ombros, eu estava de frente para aquela janela sem cortina fechada, o vidro refletindo o contorno do meu corpo seminu, refletindo as sombras dos quatro homens atrás de mim, e refletindo também aquela rua comercial lá fora que se recusava a dormir — o neon piscando, alguém lá embaixo passando sob um guarda-chuva, alguém olhando para cima. Eu sabia que, se qualquer um olhasse duas vezes, poderia ver o que acontecia neste andar. Esse pensamento deveria me ter feito ficar com tanta vergonha a ponto de querer achar uma fresta no chão para me enfiar, mas baixei os olhos e a parte interna das minhas coxas já estava grudada de úmido, uma mancha inteira.
Cruzei os braços para cobrir o peito, o último fiapo de instinto que não consegui largar. Eles não zombaram de mim, só olhavam, e aquele olhar fazia minha pele arder. O mundo além do vidro ainda seguia normalmente — sinais vermelhos, verdes, guarda-chuvas e passos, o brilho dos letreiros — enquanto deste lado do vidro, eu me despia peça por peça até não sobrar nada. O mais absurdo foi que, quando enfim tirei também o último retalho de pano e fiquei nua diante daquela janela, o que subiu no meu peito não foi implorar por clemência, mas uma pergunta que eu não me atrevia a admitir: se alguém lá embaixo estivesse realmente olhando para cima, para mim, agora, e daí? Essa pergunta mandou outra onda de calor lá para baixo, e apertei as coxas, mas isso só deixou o som molhado mais claro. A noite mal tinha começado, e eu já tinha perdido.