【Eu · o cliente habitual】
Naquele ano, numa viagem de trabalho, a empresa reservou o hotel errado. Fiquei rodando pelos arredores da cidade por um bom tempo e, no fim, seguindo o GPS, virei numa viela quase sem iluminação. No fundo dela havia uma mansão isolada de dois andares, com uma discreta placa de madeira pendurada na porta onde se lia «Aluga-se por curta temporada». Eu não tinha muita esperança; bati só para perguntar o caminho. Foi ela quem abriu.
【Eu · o cliente habitual】
Até hoje me lembro daquele primeiro olhar. A porta se abriu numa fresta, uma luz amarela e quente escapava por trás dela e iluminou primeiro o perfil de seu rosto. Ela usava um vestido caseiro comprido, cor de creme, com o decote não muito aberto, e a pele daquela região da clavícula reluzia sob a luz numa fina camada de brilho. Os cabelos estavam presos frouxamente na nuca, com algumas mechas caindo e colando no pescoço. Ela me perguntou o que eu queria, com aquela voz baixa e arrastada, o final das palavras carregando um leve sorriso. Assim que ela falou, o «com licença» que eu ia dizer travou na minha cabeça.
【Ela · a mulher madura】
Mais um perdido. Já tinha visto tantos jovens assim — quando batem à porta, o olhar é sempre de aflição, mas basta me verem com clareza para essa aflição mudar de forma. Faço quarenta e seis anos, número que nunca escondo de ninguém, embora também nunca conte espontaneamente, porque, se eu contasse, ninguém acreditaria. Me cuido bem: a pele, o corpo, aquele quê de languidez que transpira desde os ossos, nada disso uma moça de vinte anos consegue fingir. Vi o pomo de adão daquele rapaz na porta se mexer uma vez, e já soube na hora: ele não ia embora esta noite.
【Eu · o cliente habitual】
Ela disse que justamente havia um quarto vago lá em cima, e perguntou se eu queria ficar. Como que possuído por um espírito, assenti com a cabeça — não, não posso usar essa expressão, é leve demais. Fui, com toda a clareza, arrastado por ela; sabendo perfeitamente que aquele lugar era estranho, sabendo perfeitamente que uma mulher morando sozinha numa casa tão grande transpirava anormalidade por todos os poros, ainda assim carreguei minha mala para dentro. Sobre o sapateiro do vestíbulo havia um par de sapatos masculinos de couro, daqueles muito caros, lustrados a ponto de brilhar. Olhei mais de uma vez, e ela, seguindo meu olhar, apenas sorriu, sem explicar nada.
【Ela · a mulher madura】
Aqueles sapatos eram dele. O homem que me sustenta. Ele vem duas ou três vezes por semana; nas outras horas, esta casa é minha. Não preciso me explicar a ninguém. Passei metade da vida vivendo dentro das regras: casei, tive filhos, cumpri todas as responsabilidades que me cabiam, e só nesta idade compreendi uma coisa — este meu corpo ainda está quente, então por que teria de esfriar? Por isso, quando ele me enfiou nas mãos a chave desta casa, eu aceitei. Não me divorciei, ainda tenho um namorado com quem me dou bem, mas nada disso me impede de, neste pequeno espaço, ser eu mesma uma vez, sem reservas e com todo o prazer.
【Eu · o cliente habitual】
Naquela noite não fizemos nada. Ela me preparou um chá e ficamos conversando na sala de estar do andar de baixo. Ela estava sentada de pernas cruzadas no sofá em frente, a barra do vestido comprido escorregou um pouco e revelou metade da panturrilha — não daquele tipo ressecado, mas carnuda, roliça, de pele bem esticada, com o tornozelo muito fino. Quando conversava, ela inclinava o corpo para a frente, e o tecido cor de creme pendia frouxamente sobre o peito, formando uma sombra bem profunda. Eu me esforçava para cravar o olhar em seu rosto, mas os olhos naquele rosto eram ainda mais fatais: ao sorrir, o canto dos olhos formava ruguinhas rasíssimas, e essas rugas não a envelheciam nem um pouco; pelo contrário, era como se acrescentassem mais um tanto de charme.
【Ela · a mulher madura】
Eu sabia que ele estava se contendo. Os jovens são assim: quanto mais desejam, mais fingem compostura. E eu fazia questão de provocá-lo. Levantei para pôr mais água quente e, ao passar por ele, deixei de propósito o tecido do vestido roçar seu joelho. Me inclinei para reabastecer seu chá, e o decote pendeu naturalmente para baixo, sem que eu fizesse nada para tapar. Eu podia sentir a respiração dele mudar. É aí que está a vantagem dos quarenta e seis anos — não preciso ter pressa, entendo de tudo, sei que um olhar, um roçar, uma inclinada displicente coçam mais a alma dele do que se eu ficasse nua em pé à sua frente. Esta noite não é preciso. Que ele fique remoendo; da próxima vez, virá por conta própria.
【Eu · o cliente habitual】
Naquela noite quase não dormi. A cama daquele quarto de cima era muito macia, mas eu me virava de um lado para o outro, com a cabeça cheia da sombra dentro do decote quando ela se inclinava, do reflexo da luz em sua panturrilha, daquele «descanse cedo» dito em voz tão baixa. Na manhã seguinte, eu deveria ter feito o check-out e corrido para tratar de negócios, mas acabei enrolando lá embaixo até quase meio-dia, só para vê-la mais uma vez. Ela desceu de roupão, os cabelos soltos sobre os ombros, o rosto ainda com aquela languidez frouxa de quem acabou de acordar. Ela sorriu para mim e perguntou se eu não queria ficar para comer alguma coisa simples.
【Ela · a mulher madura】
Ele ficou. Eu já sabia. Preparei um macarrão para ele e, vendo-o devorar tudo, aquele doce de ser desejada por alguém me era mais reconfortante do que qualquer outra coisa. Metade da minha vida fui esposa dos outros, fui mãe dos outros, por tempo demais, tanto que quase esqueci que era uma mulher. Foi dentro desta casa, foi apoiada nesses jovens que iam se atirando aqui um atrás do outro, que voltei a me lembrar — eu ainda tenho quem me queira. Quando ele terminou o macarrão e ergueu a cabeça para me olhar, aquele olhar escaldava. Sentei-me à sua frente e disse devagar: «Da próxima que vier, é só avisar com antecedência.» Era essa a minha permissão.
【Eu · o cliente habitual】
Anotei o número dela. Ao dirigir para longe daquela viela escura, olhei pelo retrovisor para trás, para a mansão de luz amarela e quente, e sabia com toda a clareza que voltaria. E não uma vez só. Naquele momento eu ainda não entendia em que tinha pisado; só sentia aquela bola de fogo no peito me queimando a ponto de eu não conseguir sossegar. Só mais tarde compreendi: há mulheres que deixam um anzol fisgado dentro dos seus ossos, e ela, aos quarenta e seis anos, era exatamente uma dessas mulheres.