【Ela - A Noiva】
Na tarde em que voltei, uma neblina subiu do rio e encharcou toda a cidade das aguas num torpor morno. Eu estava parada a porta da casa velha, arrastando a mala, os saltos fincados nas lajes umidas de pedra azul, e minha mente estava inteiramente no que aguardava dali a dez dias - o vestido branco, o anel, a forca sempre morna e firme da mao dele fechando-se sobre a minha. Eu voltara para arrematar as coisas, para viver com limpeza estes ultimos dias de moca, e assim casar limpa. Eu ate ja tinha me despedido, em silencio, um a um, no meu coracao, desta cidade, de cada viela umida.
Achei que a parte mais dificil desta viagem de volta seria apenas a saudade antecipada. A saudade da velha panela de barro no fogao de minha mae, a saudade da arvore de osmanto no quintal dos fundos que todo ano me despejava flores sobre a cabeca. Nao contava que a parte mais dificil estivesse encostada naquele muro manchado na boca da viela, de bracos cruzados, imovel, observando enquanto eu me aproximava. Ele tinha um cigarro, apagado, apenas apoiado nos labios, mas aqueles olhos dele iam a minha frente, medindo-me da cabeca aos pes.
Era Lu Zhixing. O amigo de infancia do meu noivo - os dois haviam crescido juntos desde os tempos em que usavam calcas de fundo aberto, tao intimos que ambas as familias o punham a cabeceira da mesa em toda ocasiao feliz. Nestes anos ele partira para fora, fizera negocios que ninguem sabia nomear direito, e voltara vestindo outra pele - uma camisa escura de corte caro, os punhos arregacados frouxos ate os antebracos, um relogio pesado no trecho de pulso que deixava a mostra, o osso do pulso subindo e descendo quando se movia. Ele estava ali como a unica coisa daquela viela antiga que pertencia a outro lugar.
Ele ainda me olhava do jeito antigo, um jeito que eu aprendera aos quinze ou dezesseis anos: o olhar nunca pousava primeiro no rosto, pousava na clavicula, depois deslizava para baixo, medindo-me sem pressa da cabeca aos pes, medindo ate minha pele se retesar e minhas costas arrepiarem. Os outros nada percebiam nisso; so eu sabia onde aquele olhar caia - porque caia sempre nos lugares que eu menos queria que alguem visse, caia firme e pesado, como uma mao sem calor, apalpando-me primeiro por sobre a roupa.
“A noiva voltou.” Ele falou primeiro, a voz mais grave e mais lenta do que na lembranca, o fim de cada palavra arrastado com preguica. “Ouvi dizer que e questao de dias.” Eu assenti e, por instinto, recuei meio passo, mantendo entre nos a distancia cortes e distante que convem a uma mulher ja prometida em matrimonio. Apertei mais forte o cabo da mala, ate os nos dos dedos ficarem brancos, como se aquela haste fria de metal fosse a unica migalha de dignidade que ainda me restava para segurar.
Mas ele nao aceitou aquela distancia. Apenas sorriu, sorriu ate os olhos se estreitarem, mostrando um vestigio do rapaz de anos atras e algo mais alem daquele vestigio: “Entao e a hora certa. Antes de partir, venha beber uma jarra la em casa. Tenho na minha adega uma jarra de nu-er-hong, enterrada no ano em que voce foi embora - devia ser aberta no dia do seu casamento. Agora que aquele com quem voce vai casar nao sou eu,” ele fez uma pausa, tirando dos labios o cigarro pela metade e apagado, “este vinho nao pode apodrecer na adega.”
As palavras eram meio verdadeiras, meio nao, uma agulha embrulhada em seda, cada frase pisando no ponto mais macio do meu coracao. Abri a boca, querendo dizer que tinha muito o que fazer nestes dias, querendo dizer que nao dava, querendo dizer qualquer coisa - mas a neblina se adensou, a sirene de um barco no rio soou abafada uma vez, e me ouvi dizer, como que possuida por um espirito: Esta bem, so uma jarra. No instante em que disse, me arrependi. Mas aquele lampejo de arrependimento foi silenciosamente sufocado por outra coisa dentro de mim, uma coisa que eu nao queria olhar de perto.
【Lu Zhixing - Amigo de Infancia】
Eu esperei por este dia por muitos anos. Nao e exagero - desde quando ela ainda era uma moca de rabo de cavalo, desde a primeira vez que reparei no modo como o peito dela tremia quando corria, eu tinha resolvido na minha cabeca: mais cedo ou mais tarde eu teria esta mulher. Pena que o destino a entregou primeiro aquele meu irmao honesto e pacato. Eu aceitei, eu esperei. Nao tenho outro talento de que falar, apenas paciencia - a paciencia de um cacador, e esperei anos.
Sei exatamente como funcionam as mulheres da laia dela: quanto mais recatadas, quanto mais se embrulham por inteiro, recusando-se a expor um dedo sequer de clavicula, mais feroz e o fogo que arde dentro delas, e mais elas esperam que alguem venha arrombar aquela casca. Meu irmao nao consegue arrombar. Nunca conseguira, nem numa vida inteira. Ele so sabe adora-la, mante-la, manter-me-la numa Guanyin que nao respira, que nao escorre umida, posta num altar para ser venerada dia apos dia. Mas mulher nao foi feita para ser venerada.
Por isso, no momento em que soube que ela tinha voltado, com o casamento bem a nossa frente, nao hesitei um instante. Esta era a ultima janela. Passada aquela porta, ela vira esposa legitimamente desposada de outro homem, e o sabor muda, fica ralo, e o fogo que so o tabu de hoje pode acender jamais tornara a pegar. E exatamente isto que quero - os ultimos dez dias, a noiva de outro, antes que ela vista o vestido branco e baixe o veu, fazer com que ela abra a boca uma vez, debaixo de mim, so por mim.
A jarra de vinho era de verdade; eu a guardara para ela anos atras, selei a boca de barro com minhas proprias maos. O antigo sentimento tambem era de verdade, so que eu nunca tencionei deixa-lo parar na palavra “antigo.” Quando ela concordou em vir, os olhos desviaram para o lado por um momento, mas os pes nao desviaram, o corpo nao se inclinou para tras. Naquele desviar e naquele nao desviar, eu ja tinha visto, cena a cena, tudo o que viria depois, claro na minha mente. A boca de uma mulher mente; os pes nao.
Aquele meu lugar foi guardado justamente para este dia: o ultimo andar de um predio na periferia da cidade, o andar inteiro so meu. Embaixo esculpi uma adega de bom tamanho, e mais para dentro ha um comodo que nunca menciono a estranhos - as luzes podem ser reguladas ponto a ponto ate um vermelho quente, e as coisas penduradas nas paredes e guardadas nos armarios sao coisas que um olho entendido reconhece num relance, e coisas que um olho leigo ve e nao sabe dizer o porque. Nao pretendia assusta-la logo de saida. Mulher e uma coisa que se deve decantar como um vinho velho - deixa-la amolecer por conta propria, camada por camada; nao se pode ter pressa.
Tirei a jarra de nu-er-hong la do fundo, limpei com a palma o barro de anos na boca da jarra, e calculei na cabeca o corpo que ela criara em outro lugar nestes anos. Uma mulher criada nas aguas e na terra de Jiangnan esta no auge do vico nesta idade de prestes-a-casar - a cintura ainda fina, mas os seios e as ancas amadurecidos ao ponto mais cheio de calor. Eu queria ver com meus proprios olhos se ela estava, como imaginei incontaveis vezes em sonhos, ja madura por completo, esperando apenas uma mao que a colhesse.
【Ela - A Noiva】
Aquele predio dele ficava na periferia da cidade, com terreno aberto por todos os lados, e o elevador subiu direto ate o andar mais alto; nenhuma alma entrou no caminho. Quando a porta abriu, so entao aprendi o que era um mundo escondido. O andar inteiro era luz de tom quente rebaixada bem baixo, e para alem das janelas do chao ao teto estava o rio, aparecendo tenue na neblina, um ponto ou dois de fogo de pescador ao longe. A porta da adega estava entreaberta, e dela vinha um cheiro embriagante de barris de carvalho envelhecidos misturado com bagaco fermentado - nem um gole bebido, e eu ja estava tres partes embriagada.
A corda no meu coracao, na verdade, esteve o tempo todo esticada. Ao entrar, eu ja tinha tracado a linha para mim mesma: terminar esta jarra, dizer algumas palavras decentes e formais, agradecer-lhe pela consideracao, e ir, voltar para a casa dos meus pais, tratar a viagem toda como nada mais que uma questao de cortesia paga. Mas este lugar era silencioso demais, silencioso o bastante para ouvir minhas proprias batidas do coracao, silencioso o bastante para fazer todas as preocupacoes do dia - as preocupacoes barulhentas, normais, que pertencem a uma noiva - recuarem uma a uma para lugares muito, muito distantes, recuarem para um fundo embacado.
Ele me serviu o vinho, serviu bem cheio, tao cheio que a superficie tremia e transbordava acima da borda do copo. Aquele vinho, enterrado por tantos anos, descia macio, doce, como o tempo antigo dissolvendo-se na ponta da lingua, mas o efeito posterior subia depressa demais. Antes mesmo de meia jarra ter-se ido, meu rosto esquentou, minhas orelhas ardiam, as pontas dos dedos amoleceram, e eu mal conseguia segurar o copo firme. Sabia que devia parar, mas ele continuava me reabastecendo copo a copo, a mao muito firme, e eu tambem me vi aceitando, copo apos copo.
Ele nao tinha pressa de me tocar, apenas falava comigo dos velhos tempos. Falava do ano em que eu fiz dezesseis e torci o tornozelo a beira do rio, e de como ele me carregou nas costas duas ruas inteiras ate em casa; falava de como, naquela epoca, tinha uma frase entalada na garganta que queria me dizer, so que eu me apeguei a outro rapido demais, e a frase apodreceu na barriga dele. A maior parte dessas coisas antigas eu tinha esquecido, ou melhor, nunca ousei deixar-me lembrar. Agora, colhidas uma a uma por ele e postas de novo diante de mim, de repente ganhavam um outro peso escaldante, esmagando-me ate eu nao poder respirar.
O alcool me envolvia tonta e morna, os membros ja nem pareciam meus. Dentro de mim, o eu que seria noiva no dia seguinte ainda instava sem forcas: levante, despeca-se, va. Mas eu ficava sentada, sem me mover. Nem sequer percebi de qual copo de vinho, de qual coisa antiga, a distancia decente que deveria haver entre nos comecou a sumir, dedo a dedo. Quando dei por mim, o joelho dele quase tocava o meu.
Ele de repente estendeu a mao e ajeitou para tras uma mecha solta que escorregara para minha bochecha. O gesto foi muito leve, muito natural, o tipo de coisa que o rapaz que me carregou a beira do rio anos atras faria. Mas depois que a polpa do dedo dele terminou de ajeitar o cabelo, ela nao se recolheu; ao contrario, pausou, por um unico instante, naquela mancha mais fina de pele atras da minha orelha, so um instante, e meu corpo inteiro enrijeceu. Nao por ser estranho - justamente por nao ser. A coisa escondida naquele unico toque eu havia sentido vagamente aos quinze ou dezesseis anos, so que entao eu nao entendia, e agora eu entendia.
Eu deveria ter me esquivado. Em volta do meu pescoco ainda pendia a corrente fina que meu noivo prendera com as proprias maos, o pingente pousado contra meu peito arfante; na bolsinha que eu carregava ainda estava guardado o roteiro do dia do casamento, dobrado certinho e quadrado. De tudo isso eu me lembrava com perfeita clareza. Mas sentada nesta luz de vermelho quente, com uma jarra de vinho antigo queimando meu estomago, um sentimento antigo queimando meu coracao, descobri que meu corpo era muito mais honesto do que esta boca, do que esta cabeca minha - no momento em que a ponta do dedo dele apenas deslizou devagar de tras da minha orelha para o lado da garganta, foi minha respiracao a primeira a se desordenar, e aquelas duas macieces do meu peito, assadas quentes e inchadas pelo vinho, ergueram-se sem meu controle atraves da fina camada unica da camisa, ate as pontas endurecendo na sombra em dois relevos erguidos. Aquela ultima porta no meu coracao, quase fechada, foi arrombada de novo numa fresta por este toque leve como pena, e o vento que passava pela fresta era quente a ponto de queimar.